Se você é fã de construtores de cidade, já sabe o roteiro: ache um terreno plano, coloque estradas em xadrez, gerencie o esgoto e tente não falir. Laysara: Summit Kingdom joga esse manual pela janela (ou melhor, pelo precipício). O jogo da Quite OK Games, um estúdio de 3 pessoas, finalmente chegou aos consoles e é um exercício de masoquismo logístico e deslumbre visual que me fez repensar por que eu ainda insisto em construir cidades em lugares onde o ser humano claramente não deveria estar.
Desenvolvimento: Quite OK Games
Distribuição: Nejcraft
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Estratégia
Classificação: Livre
Português: interface, legenda
Plataformas: PC, PS4, PS5, Switch, Xbox One, Xbox Series X|S
Duração: 12 horas (campanha)
A vertigem de construir no “nada”
A primeira coisa que bate quando você abre Laysara: Summit Kingdom no console é o silêncio. Não o silêncio de falta de som, mas aquela paz opressiva de uma montanha. Visualmente, o jogo é lindo. Enquanto a maioria dos jogos do gênero foca em miniaturas bonitinhas, Laysara foca na escala. Ver a sua pequena vila de mineradores lá embaixo, enquanto o seu templo principal está escondido nas nuvens, quilômetros acima, dá uma noção de progressão que poucos jogos conseguem passar.
A direção de arte inspirada no Tibete e no Nepal é literalmente um respiro de ar fresco. Os tecidos coloridos balançando com o vento, as rodas de oração e a arquitetura de pedra dão uma personalidade que o asfalto cinza de outros simuladores nunca terá. E a trilha sonora? É quase hipnótica. É aquele tipo de música que você não percebe que está ouvindo até que ela para e você sente a sua falta. Ela usa instrumentos de sopro e percussão de um jeito que parece que a própria montanha está respirando com você.

Se em SimCity o desastre era um OVNI aleatório, aqui o desastre é uma certeza estatística. As avalanches são, de longe, o diferencial mais bem pensado do jogo. Você olha para o pico da montanha, vê o acúmulo de neve e sabe que ela vai descer. A questão é quando.
Isso transforma o design da sua cidade. Você começa a construir barreiras de pedra, planta florestas estrategicamente para segurar o impacto e, o mais legal, constrói formas para provocar avalanches controladas. É uma camada de estratégia que te obriga a olhar para o terreno não como um quadro em branco, mas como um inimigo que precisa ser respeitado. Se você ignorar o zoneamento de risco, uma manhã de sol pode terminar com metade da sua zona industrial soterrada.
O desafio de ficar “no controle”
A mecânica central aqui é a verticalidade. Em Laysara, você não expande para os lados — você escala, e isso muda tudo. O jogo não tem o clássico sistema de “trabalhadores que andam até o mercado”. Em vez disso, tudo é baseado em conexões diretas. Se você produz sal em uma caverna no pé da montanha e seus monges precisam dele lá no topo, você não pode simplesmente esperar que alguém leve nas costas.
Você precisa planejar uma rede de elevadores de carga e pontes suspensas. E é aqui que o jogo brilha e, às vezes, irrita. O gerenciamento dos yaks (que são basicamente os seus caminhões vivos) é vital. Eles precisam de pasto, precisam de rotas claras e, se você errar o cálculo de quantos animais uma rota aguenta, sua economia inteira entra em colapso porque o queijo não chegou a tempo de alimentar os artesãos. É um jogo de logística pura disfarçado de construtor de cidades.

Sempre fico com um pé atrás quando vejo um jogo desses saindo para console. O mouse é a alma do construtor de cidades. Mas preciso dar o braço a torcer, porque a adaptação aqui ficou honesta. Usaram menus radiais que fazem sentido e o mapeamento dos botões evita que você tenha que fazer um curso de datilografia para construir uma estrada.
Dito isso, nem tudo são flores. Selecionar um ponto específico para ligar um elevador em uma encosta íngreme usando o analógico pode ser um teste de paciência digno de um monge budista. Às vezes o cursor “pula” para o lugar errado e você acaba gastando recursos valiosos construindo um andaime no vazio. Não quebra o jogo, mas te faz sentir falta da precisão de um clique.
Onde a montanha racha

Agora, vamos aos problemas, porque nem tudo é iluminação espiritual. Existe uma decisão de design em Laysara que me faz querer gritar: você não pode rotacionar os prédios.
Pois é. Os edifícios têm uma face fixa. Em um jogo onde o espaço é o recurso mais escasso e valioso, não poder girar uma casa para que ela se encaixe naquele último quadradinho de terra plana é de uma crueldade desnecessária. Entendo que isso faz parte do “puzzle” de montagem, mas na prática parece apenas uma limitação técnica que decidiram deixar lá. É frustrante e quebra a imersão de planejamento.
Outro ponto é o end-game. Depois que você entende como as três castas (povo comum, artesãos e monges) funcionam, o desafio se torna repetitivo. A montanha muda, mas a “receita” para o sucesso é quase sempre a mesma. Falta um pouco de eventos aleatórios ou uma narrativa mais forte que te prenda depois das primeiras 5 horas. Você sente que está resolvendo o mesmo problema com uma skin diferente.
Consegue chegar no pico?
Laysara: Summit Kingdom é um jogo de nicho dentro de um nicho. Se você gosta de organizar prateleiras e otimizar caminhos, vai ficar viciado em como fazer o chá chegar ao topo do mundo sem quebrar a logística dos yaks. É lindo, é calmo (até a neve descer) e traz uma verticalidade que o gênero implorava para ter.
Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




