Existem jogos que tentam nos impressionar com gráficos fotorrealistas ou sistemas de combate complexos, e existem jogos que tentam somente nos abraçar. Sopa: Tale of the Stolen Potato, desenvolvido pelo Studio Bando, pertence firmemente à segunda categoria. Inspirado fortemente pelo realismo mágico latino-americano e pelas memórias de infância dos seus criadores, o título é uma jornada que transforma o ato cotidiano de fazer uma sopa em uma odisseia épica através de mundos fantásticos.
Desenvolvimento: Studio Bando, Inc.
Distribuição: Studio Bando, Inc.
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, aventura
Classificação: Livre
Português: Não
Plataformas: PC, PS5, Xbox One, Xbox Series X|S
Duração: 3 horas (campanha)/5 horas (100%)
O aroma da infância

A premissa de Sopa é desarmadoramente simples, o que torna sua expansão subsequente ainda mais impactante. Você assume o papel de Miho, um menino enviado por sua avó (a carinhosa e imponente Abuela) para buscar uma batata na despensa para terminar a sopa do jantar. No entanto, ao cruzar o limiar da cozinha, Miho não encontra apenas prateleiras de comida, mas um portal para um mundo vasto, místico e vibrante.
O jogo utiliza a estrutura narrativa de “amadurecimento” misturada com o folclore sul-americano. A história não é apenas sobre recuperar ingredientes – é sobre o legado familiar, a passagem do tempo e como as histórias que contamos na mesa de jantar moldam quem somos. É impossível não traçar paralelos com obras como “O Labirinto do Fauno” ou as animações do Studio Ghibli, onde o fantástico é uma extensão natural das emoções humanas.
Um banquete visual

Se há um aspecto em que Sopa brilha com luz própria, é na sua direção de arte. O jogo evita o realismo genérico em favor de um estilo estilizado que parece uma pintura em movimento. As cores são saturadas e quentes, evocando a sensação de um eterno pôr do sol de verão.
Os cenários são profundamente enraizados na estética colombiana. Vemos montanhas que lembram os Andes, florestas tropicais exuberantes e arquitetura que mistura o rústico com o divino. A iluminação desempenha um papel fundamental: a forma como a luz filtra através das folhas ou como as sombras dançam na cozinha da Abuela cria uma atmosfera de “aconchego perigoso”.
Os designs dos personagens são igualmente memoráveis. Miho é expressivo sem precisar de diálogos excessivos, e as criaturas que ele encontra, desde deuses esquecidos até animais falantes, possuem uma identidade visual única que foge dos clichês do gênero de fantasia ocidental.
Ritmo e tempero

A trilha sonora de Sopa é, possivelmente, o seu ingrediente mais refinado. Em vez de orquestras genéricas, o Studio Bando optou por instrumentos tradicionais: o charango, a quena e percussões que ressoam com o coração da terra. A música não é apenas um fundo, pois ela dita o tom da aventura.
Nos momentos de exploração, a trilha é sutil e contemplativa. Durante os segmentos de “cozinha” que funcionam como mini jogos rítmicos a música sobe de tom, exigindo que o jogador entre no fluxo da preparação do prato. O design de som também merece elogios: o estalar do fogo, o borbulhar da água e o som dos passos de Miho em diferentes superfícies ajudam na imersão, ancorando o jogador naquele mundo surreal.
Ingredientes Misturados

A jogabilidade de Sopa é uma colcha de retalhos de diferentes gêneros, o que é tanto sua maior força quanto sua maior fraqueza. O jogo se divide em três pilares principais: exploração e plataforma, solução de quebra-cabeças ambientais e minijogos de culinária.
Milho navega pelo mundo correndo, saltando e escalando. Há uma verticalidade interessante nos mapas, incentivando o jogador a procurar segredos e novos caminhos. Muitas vezes, porém, o progresso é bloqueado por puzzles que exigem a manipulação de objetos ou o uso de habilidades específicas que Miho adquire. A jogabilidade é complementada justamente pelos minigames de culinária, que talvez seja a mecânica mais distinta do título. Preparar a sopa é uma série de desafios que testam seu tempo de reação e precisão, reforçando a ideia de que cozinhar é um ritual de amor e paciência.
A transição entre esses estilos é fluida, mas nem sempre equilibrada. Às vezes, o jogo parece querer abraçar o mundo e acaba perdendo o foco em uma mecânica específica em favor de outra.
O fogo às vezes oscila

Nem toda receita sai perfeita na primeira tentativa, e Sopa apresenta alguns problemas técnicos e de design que podem frustrar o jogador mais exigente.
Primeiramente, os controles de plataforma. Em um jogo que exige precisão em saltos e escaladas, a física de Miho parece um pouco “flutuante” às vezes. Não é raro errar um salto porque o personagem não respondeu com a agilidade esperada ou porque a detecção de colisão falhou em uma borda.
Outra decisão de design polêmica é o ritmo. O jogo tem momentos de beleza contemplativa absoluta, mas eles são ocasionalmente interrompidos por missões de “busca e entrega” que parecem esticar a duração do jogo desnecessariamente. Essa estrutura da campanha quebra o encantamento do realismo mágico, transformando uma jornada espiritual em uma lista de tarefas.
Além disso, a câmera ocasionalmente luta contra o jogador em espaços confinados. Em um jogo onde a beleza visual é um de seus principais chamarizes, ter a visão obstruída por uma folhagem mal posicionada ou uma parede que não ficou transparente pode ser irritante.
Uma sopa que vale a pena provar?
Sopa: Tale of the Stolen Potato é um título imperfeito, mas profundamente memorável. Suas falhas técnicas e alguns problemas de ritmo são facilmente perdoáveis diante da magnitude de sua alma. É um jogo que entende que a magia não está apenas em dragões ou feitiços, mas na forma como o sol bate em uma panela de alumínio ou no cheiro de coentro fresco.
Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




