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Review Bellwright (Xbox Series X) – A forja de uma rebelião

O gênero de sobrevivência muitas vezes cai em uma armadilha previsível: você acorda em uma praia, bate em uma árvore até conseguir madeira, constrói uma pequena cabana e passa as próximas cinquenta horas repetindo o processo até ter um castelo que só você habita. Bellwright tenta quebrar essa solidão. Em vez de ser apenas um sobrevivente isolado, o jogo exige que você se torne o arquiteto de uma revolução, combinando sobrevivência, construção de cidades, RPG e combate tático em larga escala. Depois de evoluir no PC, a chegada aos consoles traz a promessa de uma experiência massiva para o conforto do sofá.

Desenvolvimento: Donkey Crew
Distribuição: Donkey Crew, Snail Games USA
Jogadores: 1 (local)
Gênero: RPG
Classificação:  16 anos (violência, linguagem imprópria)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 70 horas (campanha)/161 horas (100%)

De camponês exilado a líder revolucionário 

Construa seu assentamento e o evolua.

Bellwright coloca você na pele de um protagonista que retorna do exílio após ser incriminado injustamente pelo assassinato do príncipe. De volta à sua terra natal, Karvenia, sua missão é limpar seu nome, investigar a corrupção da coroa e, acima de tudo, liderar uma rebelião contra um regime opressor. O grande diferencial desta obra é a sua escala: o jogo não quer que você seja apenas um sobrevivente solitário, exigindo que você seja um líder.

Se colocássemos a premissa em um liquidificador, Bellwright seria a mistura exata entre a construção progressiva de vilas de Medieval Dynasty e o grande comando de exércitos de Mount & Blade. O jogo supre uma lacuna específica: a fantasia de não apenas sobreviver na Idade Média, mas construir uma sociedade do zero, delegar funções e marchar com um exército equipado e treinado por você.

Suor, madeira e a arte de delegar 

Cresça e evolua sua vila criando diferentes construções.

As primeiras horas de Bellwright são intimistas e brutalmente lentas. Você passará um bom tempo catando gravetos, caçando pequenos animais e construindo ferramentas rudimentares ao redor de fogueiras. O ciclo de criação inicial é idêntico ao de muitos jogos de sobrevivência. Porém, a verdadeira magia do título só acontece quando você começa a recrutar os seus primeiros NPCs.

É neste ponto que o jogo brilha intensamente. Cada camponês que se junta à causa tem atributos, fraquezas e especialidades únicas — uns são ótimos na forja, outros são mais focados na colheita, por exemplo. Conforme a base cresce, as mecânicas de gerenciamento assumem o controle da experiência. Você estabelece linhas de produção, cria depósitos e automatiza as tarefas. A transição de cortar lenha para gerenciar as rotas de suprimentos de múltiplas vilas é incrivelmente recompensadora.

Esse sistema de automação é o coração do jogo. Ao configurar as prioridades corretamente, o microgerenciamento desaparece. Ver sua pequena fogueira se transformar em um assentamento pulsante, com trabalhadores ativos e patrulhas defendendo os arredores, gera um senso de propriedade que poucos jogos alcançam.

O peso do aço e a dança da guerra 

Se a economia funciona bem, o combate é a área que exige mais paciência. O título adota um sistema de combate direcional que requer a escolha exata da direção do ataque e da defesa. Sem trava de mira ou esquivas cinematográficas, é um sistema metódico: bloqueie no momento certo e ataque na brecha, numa abordagem muito semelhante à de Mount & Blade II.

Embora funcional, o combate corpo a corpo tem uma rigidez inicial notória e a física das armas carece daquele peso visceral no impacto. Contudo, mecânicas de comando de esquadrão são introduzidas quando as batalhas evoluem para confrontos militares. Posicionar tropas, ordenar avanços e flanquear inimigos é bastante tático, embora às vezes caótico devido a falhas pontuais na IA dos aliados.

O combate em Bellwright é brutal.

Nos controles, a adaptação do teclado e mouse teve resultados mistos. A navegação radial funciona bem, mas o inventário carrega um forte DNA do PC, exigindo cliques demais. O texto com fontes frequentemente minúsculas também demanda esforço visual desnecessário quando consideramos a distância das TVs para ler atributos e pesquisas.

O jogo também sofre com uma curva de aprendizado íngreme e falta de tutoriais, transformando o combate e as cadeias de produção num pesado exercício de tentativa e erro. Entretanto, o maior pecado da estreia nos consoles foi a ausência do modo cooperativo, já presente na versão de PC. Um título fundamentado em erguer uma rebelião e coletar volumes absurdos de recursos clama por multiplayer. Sem ele, a rotina esbarra perigosamente no trabalho braçal excessivo.

As paisagens de Karvenia e seus fantasmas 

Visualmente, Karvenia oscila entre o deslumbrante e o rústico. Construído na Unreal Engine 5, o jogo entrega florestas densas, iluminação dinâmica belíssima e um ciclo temporal onde a noite e as estações do ano mudam as regras da sobrevivência. Caminhar pelo assentamento ao amanhecer rende cenas espetaculares.

Porém, a otimização cobra seu preço nos consoles. O constante pop-in de texturas surgindo no mapa prejudica a imersão. A inteligência artificial sofre com falhas de rotas, fazendo os trabalhadores correrem contra árvores e inimigos se confundirem na geometria do terreno. Problemas iniciais de crashes durante os salvamentos também mancharam a estabilidade técnica, embora melhorias contínuas estejam a caminho.

Sua vila cresce e vive independente de você.

Felizmente, o design de áudio acerta em cheio. A trilha sonora medieval dita o tom perfeitamente, seja na melancolia da exploração solitária ou na tensão dos ataques inimigos. Os sons da vila, como marteladas e lenhadores em atividade, trazem muita vida ao assentamento.

Contudo, a decisão de usar vozes geradas por inteligência artificial para os NPCs é inexplicável. Num RPG onde você precisa se importar com as pessoas que recruta, ouvir vozes robóticas, sem cadência emocional e com entonações bizarras quebra a imersão de forma abrupta. É uma falha que barateia a apresentação de um título com premissas tão profundas.

Vale a pena levantar essa bandeira? 

Bellwright definitivamente não é uma jornada para impacientes. Ele requer um investimento de tempo substancial e tolerância para bugs visuais e sistemas baseados na autodescoberta. Se você busca por ação rápida ou progressão imediata, procure em outro lugar. Por outro lado, se você é um jogador tático que adora administrar assentamentos e sonhava em comandar exércitos sob sua própria bandeira, há um diamante colossal a ser lapidado aqui. A transição narrativa e mecânica, que parte de um pária solitário colhendo gravetos até sua chegada ao status de lorde que comanda legiões é, sem dúvida, uma das progressões mais satisfatórias que o gênero entregou nos últimos anos.

Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

Bellwright

7

Nota Final

7.0/10

Prós

  • Gerenciamento e automação profundos
  • Combate tático e comando de tropas
  • Progressão satisfatória

Contras

  • Uso de vozes geradas por IA
  • Interface mal adaptada para consoles
  • Ausência de modo cooperativo no lançamento