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Review A Investigação Póstuma (Switch) – O que aconteceu com Brás Cubas?

A Investigação Póstuma se inspira nas obras de Machado de Assis para criar um divertido e empolgante jogo de investigação ambientado em um Rio de Janeiro noir de 1937. Contando com uma jogabilidade simples, o grande destaque aqui é o enredo, que vai te prender até o final com sua intrincada trama de acontecimentos e personagens únicos.

Desenvolvimento: Mother Gaia Studio
Distribuição: CriticalLeap
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Aventura
Classificação: 10 anos (violência, drogas lícitas)
Português: Legendas, interface e dublagem
Plataformas: PC, Switch
Duração: 13 horas (campanha)

Rio de Janeiro, 1937

Podemos facilmente subornar o policial para acessar a cena do crime
A casa do detetive ficar perto de onde o corpo é encontrado

Como o título sugere, a base de A Investigação Póstuma é “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o consagrado romance de Machado de Assis publicado em 1880. Mas, ao contrário do livro, Cubas não morre de pneumonia (pode spoiler de uma obra de quase 150 anos?), mas sim é assassinado, com seu corpo encontrado em um beco. Controlamos um detetive sem nome que, ao acordar, recebe uma carta do falecido, o incumbindo da missão de investigar sua morte e descobrir a identidade do assassino. Saímos pela rua, fazemos algumas perguntas e, ao terminar o dia e acordar, percebemos que, na verdade, estamos presos em um loop temporal.

E assim é dada a estrutura do jogo: temos entre 9h e meia-noite para investigar, conversando, interrogando, recebendo e entregando itens, coletando informações e pistas, confrontando personagens com evidências. Ao final do dia, somos levados para um limbo em que conversamos com o próprio Brás Cubas, onde fazemos um balanço do dia e do andamento da investigação, além de receber dicas dos próximos passos. Começamos então o dia seguinte, carregando apenas o conhecimento adquirido nas rodadas anteriores.

Apenas ande e converse

Tudo fica resumido no dossiê do detetive
Diálogos são extensos e bem escritos

O jogo é essencialmente um point and click, com controles bem simples, consistindo em andar, conversar e alguns momentos diferentes. No menu, temos acesso a diversas informações sobre o andamento do trabalho, com um dossiê sobre cada personagem, as provas coletadas e para quem as apresentamos e um relatório das movimentações de Cubas nas horas que precederam sua morte.

Dessa forma, naturalmente, o enredo é que carrega o game e, felizmente, ele é muito bom. Não se trata de uma contagem de Memórias Póstumas, já que até a ambientação é diferente, com a história se passando no Rio de Janeiro de 1937. Além disso, apesar do título, o jogo se baseia também em outras obras de Machado, apresentando personagens e elementos de outros de seus livros, criando uma grande homenagem ao escritor. Na prática, apesar da obra machadiana servir como plano de fundo, a história me fez sentir que estava lendo um livro de Agatha Christie – o que, particularmente, considero um elogio.

Acorde, investigue, repita

Cubas ajuda postumamente, claro
O próprio Brás Cubas te ajuda a organizar as informações

Apesar do estranhamento inicial, após algumas rodadas acabamos nos acostumando com o ritmo do jogo. Cada personagem possui sua rotina e precisamos utilizá-la a nosso favor para conversar e obter itens. Além de se movimentar pela cidade, cada ação também consome parte do tempo, as vezes terminando conversas no meio, mas podemos apenas continuar no “próximo” dia. Claro, algumas coisas são um pouco forçadas, de forma a irmos direto ao ponto e continuarmos a conversa do dia anterior, com os personagens aceitando meio tranquilamente se abrir com um detetive que nunca viram na vida após duas frases, mas entendo que estamos em um videogame e essa concessão faz parte para que a experiência não se torne enfadonha.

São catorze personagens principais — e suspeitos — com que interagimos e todos são muito bem escritos, com personalidades únicas e interessantes. Começamos investigando a cena do crime e os personagens e locais ao redor, como a irmã Sabina e o padre Cabral, e aos poucos vamos avançando para outras localidades e conhecendo novos personagens da envolvente história.

As relações entre eles são intrincadas e tudo é escrito de forma que fiquemos sempre curiosos para saber o próximo passo e o que um personagem tem a dizer sobre determinada pista ou sobre outro suspeito. Talvez seja um pouco exagerado mais de uma dezena de pessoas terem motivos para buscar a morte de Brás, mas o texto amarra isso muito bem.

Permeando todas as camadas da sociedade

Os personagens só podem ser acessados em determinados horários
São poucas opções de interação, mas o suficiente para carregar a história

Então, assim caminhamos sempre descobrindo novas pistas e moradores dessa cidade, das classes mais baixas às mais altas. O andamento do jogo é bom e raramente ficaremos sem saber o que fazer, ainda mais com as dicas de Cubas ao final do dia. Por vezes fazemos apenas uma interação e aceleramos o tempo para reiniciar o dia, mas, na maior parte deles, acordamos com algumas ideias de quem abordar naquele dia, fazendo um mapa mental do que fazer a cada hora e tendo vários avanços simultaneamente.

Os gráficos são relativamente simples mas bem bonitos, com sua apresentação apenas em tons de cinza criando bem o clima noir da investigação de um mistério. A trilha sonora cumpre bem seu papel. É uma pena que sejam poucas frases dubladas, apenas no início e no final do jogo. Nessa versão de Switch, também podemos utilizar a tela de toque, que combina bastante com games desse tipo. O único problema são alguns slowdowns que ocorrem em alguns momentos ao andar pela cidade, mas nada que atrapalhe a experiência geral.

Um jogo para todos, e mais ainda para os brasileiros

A Investigação Póstuma é mais um exemplo de que nosso país tem grande potencial para desenvolver jogos, inclusive com nossa cultura e história como pano de fundo. Partindo da obra do maior expoente de nossa literatura, temos um jogo bastante divertido que tem apelo universal — ainda que seja um pouco difícil para alguém de fora do Brasil entender o que significa que Cotrim aposta no jogo do bicho.

Cópia de Switch cedida pelos produtores

Revisão: Julio Pinheiro

A Investigação Póstuma

8.5

Nota final

8.5/10

Prós

  • História bem desenvolvida e envolvente
  • Elenco variado e bem escrito
  • Jogabilidade simples mas eficaz

Contras

  • Poucas partes narradas com voz
  • Alguns problemas de desempenho