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Review Creature in the Well (PS4) – Religue a máquina!

O que será que tem na próxima porta? Essa é uma pergunta constante e empolgante que nos fazemos a cada nova dungeon a ser explorada em Creature in the Well, um jogo que mistura vários gêneros e sempre tem uma mecânica nova em ação de um jeito que você nunca viu antes.

Desenvolvimento: Flight School Studio, MWM Interactive
Edição: Flight School Studio
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura
Classificação indicativa:
Livre
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, PS4, Xbox One, Switch
Duração: 4 horas (campanha)/ 7 horas (100%)

A tempestade sempre existiu lá fora

Na aventura controlamos o carismático Bot-C, um robô de manutenção muito antigo que misteriosamente volta a funcionar e agora tem como objetivo acabar com uma tempestade de areia gigantesca e salvar a pequena cidade Mirage, construída bem no centro dela. Para fazer isso precisamos nos aventurar por uma máquina de controle climático há muito adormecida e religar todas as suas funções.

Porém isso não será tarefa fácil, a tal da Criatura do Poço é quem guarda as instalações, e quem foi responsável por desativá-la e aprisionar a cidade. A partir desse ponto é com você começar a exploração para trazer energia de volta, e descobrir aos poucos o que aconteceu com a máquina e a cidade em seu passado.

Pinball com espadas

Logo de primeira o grande diferencial do jogo é sua mecânica, que combina diferentes estilos de jogos em uma experiencia bem única. Tudo aqui gira em torno do conceito de energizar a máquina, que basicamente funciona assim: As salas são todas montadas como mesas de pinball, e o objetivo é rebater esferas de energia nos ‘disjuntores’ estrategicamente posicionados nessas salas. Cada vez que você rebate uma esfera neles, o disjuntor absorve um pouco da energia e manda a bola ricocheteando de volta na direção oposta, faça isso o número certo de vezes e você vai energizar a sala.

Cada rebatida bem sucedida dessas gera energia para o Bot-C, e você precisa dessa energia para abrir as portas da dungeon. As salas podem dar mais energia do que o necessário, que você pode ir acumulando para abrir entradas secretas ou evoluir o Bot na cidade para obter mais saúde e agilidade.

As rebatidas e o modo com o qual essas “placas energéticas”, dos quais são formados esses “disjuntores”, vão sendo destruídos ou energizados, já transformam o jogo em uma fusão de pinball com o clássico Breakout da Atari (aquele onde você rebate uma bolinha para destruir os “tijolos” no topo da tela).

Porém Creature in the Well possui bons elementos de exploração e puzzles, você pode andar pela cidade de Mirage, onde encontra uma Ferreira que pode atualizar o Bot-C usando uma combinação de energia e Núcleos encontrados em salas secretas nas dungeons, e explorar a própria montanha que guarda a entrada para a máquina do clima.

Durante a aventura você vai liberando novas dungeons, são 8 no total, e cada uma representa um elemento da máquina que precisa ser ativada. O jogo dá uma certa liberdade em como avançar, primeiro você libera apenas uma fase, depois duas e em seguida quatro, tem uma vibe meio Mega Man nesse sentido, e nem todas as salas precisam ser concluídas para fechar o jogo, podendo inclusive sair e voltar dessas dungeons a hora que você quiser, até para recuperar energia na entrada da montanha ou trocar uma fase por outra a qualquer hora.

Os puzzles já resolvidos inclusive continuam resolvidos, aqueles que ficaram em aberto são convenientemente marcados no seu mapa para uma nova tentativa quando quiser, e alguns puzzles mais simples podem ser até feitos novamente se você estiver precisando ganhar mais energia para abrir alguma porta. E vale a pena concluir todas elas, já que você libera novos itens, descobre mais do saboroso lore desse universo e, claro, ganha os troféus/conquistas que muitos gamers adoram.

As ferramentas de um herói

Para esse gameplay o herói conta com dois tipos de armas, uma são as ‘Ferramentas de Carga’, com as quais você captura e energiza as esferas de energia espalhadas pela sala (ou que são atiradas contra você), e a outra são as ‘Ferramentas de Ataque’, com as quais você efetivamente rebate as esferas.

Ao longo do jogo vamos encontrando diversos tipos diferentes de ferramentas, cada uma possui habilidades especiais que podem ser usadas em combinação para os diferentes tipos de puzzles que vamos encontrando durante a aventura. O mais legal é que nenhum tipo específico é necessário para algum momento, cada uma delas pode se adequar ao seu jeito particular de jogar, o que encoraja muito a experimentação do jogador com a mecânica apresentada.

Estilo Nintendo de Level Design

Minha parte favorita do jogo é o level design em si de todas as dungeons, cada uma delas possui a mesma dinâmica, são várias salas onde você precisa gerar energia rebatendo as bolinhas em lugares estrategicamente posicionados. Você precisa ir abrindo as portas, pode encontrar 2 salas secretas escondidas no mapa e ao final tem uma luta direta contra a Criatura.

Como um bom jogo da Nintendo, como Super Mario ou Donkey Kong, a mecânica básica do jogo é explicada e totalmente à sua disposição logo no início – carregar e rebater. A partir daí o jogo vai colocar cenários cada vez mais diferentes, desafiadores e inusitados, como canhões que atiram energia corrompida (é necessário acertar o timing para poder usar uma ferramenta de carga e transformar em energia normal), “disjuntores” que disparam um feixe de ataque pelo chão, outros que exigem uma mira precisa e em uma certa quantidade de tempo para serem ativados, ou interruptores que alteram a disposição de itens na sala.

O jogo começa simples e, quando você percebe, vira praticamente um “bullet hell’ (aqueles jogos de “navinha” com diversos inimigos atirando ao mesmo tempo) com esferas de energia chegando de todos os lados, e você precisando calcular a posição do robô para descobrir o jeito certo de vencer o desafio da sala.

Toda nova fase vai apresentando esses desafios, e ao fim todos eles serão usados contra o jogador de uma vez na luta contra o chefe. A mecânica de “quebrar blocos” é realmente muito satisfatória, cada rebatida traz belos efeitos de luz e aquele som de impacto bem pontuado, acertar a última rebatida certeira e ganhar toda a energia de prêmio é realmente empolgante. Os desafios nunca são extremamente difíceis de se descobrir, geralmente com poucos segundos de experimentação já dá para sacar o que o jogo está pedindo de você.

Infelizmente o jogo realmente espera que o jogador já seja familiarizado com as mecânicas que são apresentadas, ou com videogames no geral, já que não há um tutorial além de “este botão para carregar, este para rebater”, o que pode tornar alguns momentos muito mais difíceis do que o necessário para quem é um jogador mais casual, principalmente nas lutas contra o chefe, onde algumas fases realmente apresentam uma elevação drástica na dificuldade por colocar diversos obstáculos que antes eram enfrentados um por vez, ao mesmo tempo contra o jogador. Claro que é necessário levar em conta que a base do jogo já exige uma agilidade de quem está jogando em posicionamento e reflexos, e a experimentação com o gameplay acaba sendo fundamental para ter um melhor proveito da aventura, o jogo constantemente recompensa os jogadores mais esforçados com lore e armas novas.

Morrer também não é um problema, caso fique sem energia a criatura te atira pra fora (diretamente de seu poço, diga-se) e você pode retornar da cidade para a caverna e tentar novamente, como já falei os puzzles resolvidos continuam resolvidos e você pode continuar praticamente de onde parou sem nenhuma punição, mas sei que isso pode desapontar quem quer um desafio maior, o jogo também não possui seleção de dificuldade (outra vez como um bom game da Nintendo faria).

Ainda assim Creature in the Well não é extremamente difícil. Morri apenas durante algumas lutas contra a criatura, mas só até descobrir o que estava fazendo de errado e me posicionando melhor para resolver o puzzle.

A beleza nos detalhes

Os jogos indies são famosos por apresentar mecânicas diferentes e um visual único, e Creature in the Well não é diferente, dá pra ver que os modelos dos personagens e cenários são simples, mas deslumbrantes, e o estilo de HQs de Faroeste dos anos 40 dá um ar extremamente charmoso, sem contar a combinação com uma trilha sonora com leves batidas eletrônicas que dão o tom de mistério para o mundo: a atmosfera aqui é tudo.

Também não tem medo de trazer suas referências visuais à tona, uma das últimas dungeons, por exemplo, é bem semelhante com alguns momentos de Legend of Zelda, que pode ser uma comparação mais direta visto que este jogo utiliza a mesma câmera que os jogos originais da franquia da Nintendo. Mas além disso aposta em elementos sci-fi de filmes dos anos 70.

Cada dungeon apresenta alguns textos com um pouco do passado dos personagens e dá construção da máquina, a criatura fica de olhando nas sombras por todos os lados, dando uma ótima atmosfera de suspense, e claro que tudo é elevado as alturas ao fim das dungeons, quando ela te pega para uma batalha final testando suas habilidades. A criatura é um ponto alto por si só, ela fica te testando e falando com o Bot-C durante todo o game. Inclusive podemos sempre visitar a entrada do poço na cidade e ouvir ela tentando mandar você ir embora e desistir de salvar a cidade.

Charge, Strike, Repeat

Mas a aventura não deixa de ser um tanto quanto repetitiva. Por mais que os puzzles possam vir em diferentes formas, todos eles estão na mesma forma, possuem os mesmos elementos de gameplay, o que pode cansar alguns jogadores.

Porém o jogo é bem curto, eu terminei a campanha com 100% completo em 5 horas e 10 minutos, e nesse tempo que estou contando só cheguei a voltar para pegar um item anterior uma vez (já que a primeira dungeon possui uma porta que exige uma quantidade de energia que o jogador só vai possuir muito na frente), foi realmente apenas passando pela campanha tentando resolver todo e qualquer puzzle que o game possui nas suas dungeons. Com isso o fator replay aqui é baixo, visto que você pode encontrar todos os segredos durante a primeira jogatina, e, a menos que não tenha encontrado, sinto como se já tivesse experimentado tudo o que o jogo tem para me oferecer. Talvez um modo de desafios ou algo do tipo pudesse dar mais vida ao game.

No aspecto técnico eu tive apenas um problema mais grave, foi um bug com as texturas que fez o topo de todos os objetos, principalmente das paredes, ficarem piscando, como se duas camadas de textura estivessem lutando por controle no mesmo lugar, o que me deu um enjoo entrando em alguns dos corredores mais longos. O problema passou tentando reiniciar o jogo, mas curiosamente só após desligar o console por completo – nem fechar e abrir de novo funcionou -, não sei o que houve, mas fica o aviso para a produtora.

Uma aventura completa

Flight School Studio criou um mundo fantástico para ser explorado aqui, com uma arte linda, muitos mistérios, um gameplay extremamente satisfatório com muitos puzzles e ideias que a gente não vê em qualquer jogo. O maior destaque aqui acaba sendo a exigência de que o jogador pense de modo cada vez mais inteligente. Creature in the Well é um jogo meio sombrio, mas meio engraçado, tem um montão de ideias e coisas que parecem desconexas mas que se transformam numa experiência bem única e completa, por mais curta que seja.

Este review foi feito usando uma cópia para PS4 cedida pelos produtores

Creature in the Well

8.5

Nota final

8.5/10

Prós

  • Mecânica empolgante
  • Visuais e músicas lindas
  • Puzzles desafiadores
  • Gameplay refinado
  • História simples, mas interessante

Contras

  • Pode ser repetitivo
  • Saltos bruscos de dificuldade em alguns chefes
  • Sem fator replay