Capa CrisTales

Review Cris Tales (Switch) – Mal lapidado, porém brilhante

Durante uma apresentação na E3 de 2019, um título vindo da América do Sul cativou milhares de olhares pelo mundo, por seu belo estilo artístico, sistema de combate curioso e temática de ver o passado, o presente e o futuro simultaneamente.

Desenvolvido pelo estúdio colombiano Dreams Uncorporated, anunciado para 2020 e depois adiado por um ano, Cris Tales finalmente chegou no inverno de 2021. O jogo é uma homenagem aos JRPGs clássicos como Valkyries Profile e Chronno Trigger, mas com uma veia artística e narrativa que o traz para a atualidade. Apesar dos problemas, a obra é repleta de ideias que podem cativar o coração de vários jogadores ao redor do mundo. 

Desenvolvimento: Dreams Uncorporated
Distribuição: Modus
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Aventura, RPG
Classificação: 12 anos
Português: Legendas e Interfaces
Plataforma: PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series X/S, PC, Switch
Duração: 21 horas (campanha)/ 25 horas (100%)

O belo mundo dos magos temporais

O começo de tudo!
Crisbell entre as flores

Em Cris Tales acompanhamos a carismática Crisbell, uma jovem garota que vive num orfanato desde a morte de sua avó. Num belo dia de verão, enquanto ela persegue um sapo de cartola, descobre algo que mudaria a sua vida e a vida de todo reino de Crystallis: ela tem os poderes de uma feiticeira do tempo, podendo ver o passado, o presente e o futuro simultaneamente e usar saltos temporais a seu favor. 

Agraciada com esse dom, Crisbell vê o futuro sombrio que sua cidade está prestes a conhecer e logo aprende que as ações do presente afetam diretamente o futuro. Através dessas habilidades recém descobertas ela almeja poder mudar o destino de sua cidade e combater a culpada por tudo aquilo: a Imperatriz do Tempo. 

Para a tarefa de salvar aquele reino do futuro sombrio que se anuncia, Crisbell felizmente não está sozinha. Logo no começo da aventura conhecemos o obstinado mago elemental Cristopher e, além disso, contamos com a ajuda de outro feiticeiro temporal, o estiloso e gracioso Willhelm.

Por mais que nossa equipe seja composta apenas de “magos”, durante as batalhas possuímos um bom equilíbrio entre feitiços e golpes físicos. Isso, em conjunto às habilidades individuais de cada um, é eficiente contra os inimigos, na tarefa de mudar o futuro. 

Brincadeiras com o tempo. 

Sistema de combate por turnos

Como dito antes, uma das coisas que mais chamaram a atenção em Cris Tales foi o fato de poder usar o tempo como aliado durante as batalhas, e isso é, sem dúvida,  um artifício do jogo que será lembrado por muito tempo. O game independente tem um sistema de combate muito próximo daquele encontrado no clássico Valkyries Profile: combate por turnos com visão horizontal. Porém, diferente do título consagrado da Square Enix, em Cris Tales temos o artifício do tempo, algo extremamente divertido e útil durante as lutas. 

Usando os poderes dos cristais temporais em conjunto à habilidade única de Crisbell de dar saltos no tempo, enviando adversários para o passado ou para o futuro, podemos fazer um grande estrago nos nossos inimigos durante a aventura. É muito divertido e eficaz, por exemplo, enferrujar o escudo e a armadura de um inimigo, molhando o objeto com um feitiço elemental, e depois enviá-lo para o futuro, em que seus equipamentos já estarão totalmente desgastados, e aí dar o golpe final. Essa é apenas uma das dezenas de estratégias que podemos utilizar durante as pelejas, aproveitando todos os dotes mágicos temporais da protagonista. 

Cris Tales tem um sistema de níveis sem muito mistério: quanto mais um personagem progride no game, mais habilidades próprias ele desbloqueia. Equipamentos podem ser comprados ou conquistados durante a aventura, e eles aumentam as estatísticas dos heróis, tornando-os mais fortes para os desafios que irão ser encontrados no mundo de Crystallis. 

Tropeçando no ombro de gigantes 

Tudo que um bom JRPG precisa!
Menu principal do game.

O game tende realmente a ser uma homenagem aos RPGs nipônicos, copiando mecânicas de jogabilidade de várias obras. Infelizmente, Cris Tales não apenas copia as coisas boas, mas vários elementos datados e pouco apreciados dos JRPGs se mantêm presentes no título.

Existem aqui várias falhas e muitas delas vieram pela inspiração nos antigos jogos orientais. Não colocar save automático ou pontos de checagem num jogo de 2021 foi uma decisão terrível dos desenvolvedores. Ter que repetir sequências, de 5 ou 6 minutos, para voltarmos ao lugar onde estávamos antes de falhar em combate é por vezes cansativo e tedioso. 

Um jogo de encher os olhos

Por mais que Cris Tales tenha um bom ritmo e conte bem a sua história, com uma dublagem super bem feita, ele não dispõe de um autoplay nos textos, mantendo tudo em um ritmo bem antiquado, nos obrigando a ler em excesso, até mesmo quando já sabemos o que vai ser dito. Crisbell, apesar de ser uma maga do tempo, não pode avançá-lo enquanto corre, e o problema é que ela se movimenta devagar.

Por mais que o jogo seja incrivelmente bonito de contemplar, por muitas vezes queremos ir rápido do ponto A ao o ponto B, mas não somos permitidos de correr com a protagonista, e não temos a opção de apertar um botão e fazê-la se movimentar mais rápido. Juntando esses problemas ao fato de não nos recuperarmos quando subimos de nível e aos enervantes encontros aleatórios com inimigos, temos, infelizmente, em Cris Tales, um punhado de problemas que parecem ter saído de algum JRPG dos anos 90. 

Brilhante, emocionante, belo e defeituoso.

Cris Tales é lindo, e é como um sonho ou uma fábula. O estilo da arte se compara ao que vemos nos cartoons mais cuidadosamente animados, e não é exagero dizer que o jogo, artisticamente, faz face a obras como Steven Universe, The Owl House e Over The Garden Wall, tudo isso com uma pitada oriental à la Sakura Cardcaptors. 

Jogando a obra colombiana vamos ver cutscenes muito bem animadas e de tirar o fôlego, cenários belíssimos e designs de personagens estonteantes que, se somados ao sistema de combate e à história, geram um resultado deslumbrante. A história de Cris Tales é doce e pode emocionar em muitos momentos. O reino de Crystallis é cheio de detalhes, é belo e problemático, como vários lugares da América Latina. 

Porém, não podemos esquecer os pontos fracos, como o game design super datado que não deveria estar num jogo de 2021, isso porque são elementos bem irritantes que não conseguimos ignorar. Felizmente, os desenvolvedores não precisam da habilidade de voltar no tempo para consertá-los, pois, com um update aqui e outro ali, vários problemas certamente podem ser resolvidos. Entretanto, Cris Tales continua maravilhoso e com certeza é o melhor RPG látino-americano que já tive a oportunidade de jogar. Sem exageros, é um dos melhores indies que já tive o prazer de experimentar.

Cópia de Switch cedida pelos produtores

Revisão: Jason Ming Hong

Cris Tales

7.5

Nota final

7.5/10

Prós

  • Arte deslumbrante
  • Trilha sonora emocionante
  • Personagens ótimos

Contras

  • Batalhas aleatórias frustram
  • Problemas técnicos
  • Falta de auto-save
  • Sem sentimento de progressão
  • Impossivel de tirar captura de tela