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Review Dread Delusion (Xbox Series X) – O despertar sob um céu de neon e pesadelo

Após uma longa espera, Dread Delusion, a obra da Lovely Hellplace distribuída pela DreadXP, finalmente chegou ao Xbox Series X/S e PS5 em março de 2026. Para quem acompanha o cenário indie, o título já era um marco no PC desde 2024, mas sua chegada aos consoles de mesa traz uma pergunta pertinente: como um RPG que respira a estética limitada do PlayStation 1 e a complexidade filosófica dos RPGs europeus do início dos anos 2000 se comporta no hardware moderno?

Desenvolvimento: Lovely Hellplace
Distribuição: DreadXP
Jogadores: 1 (local)
Gênero: RPG, ação, aventura
Classificação: 14 anos (violência, conteúdo sexual, drogas lícitas)
Português: Não
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 20 horas (campanha)/36 horas (100%)

Quando o PS1 encontra o surrealismo

A resposta curta é que Dread Delusion não é apenas um jogo, mas sim uma febre lúcida. É um projeto que entende que a imaginação do jogador é o motor gráfico mais potente que existe, utilizando cores ácidas e uma narrativa densa para compensar polígonos propositalmente brutos.

Visualmente, Dread Delusion é um soco sensorial. Esqueça o fotorrealismo ou a busca pela fidelidade técnica. Aqui, a direção de arte abraça o que muitos chamam de “Acid Fantasy” (fantasia ácida). O mundo é composto pelas Ilhas Oníricas, pedaços de terra que flutuam sobre um vazio cintilante enquanto a superfície do planeta é um mar de chamas e horror.

O uso de cores é audacioso: céus em tons de magenta e violeta, florestas de cogumelos que brilham em verde limão e masmorras banhadas em sombras granulares. A técnica de vertex wobble (aquele tremor de polígonos clássico do PS1) está presente, mas de forma estilizada, criando uma sensação constante de que a realidade está prestes a se desmanchar. Essa estética é apresentada com uma nitidez cristalina em 4K, o que cria um contraste fascinante entre a geometria simples e a resolução moderna. É como olhar para uma pintura a óleo que ganhou vida em uma tela digital de ponta.

O charme das Ilhas Oníricas

Um mundo que parece que saiu de um sonho... ou pesadelo.

Você começa a jornada como um prisioneiro da União Apostática. Sua liberdade é oferecida em troca de um serviço perigoso: você deve caçar e capturar Vela Callose, uma líder rebelde e mística que busca despertar os antigos poderes para derrubar a União.

O que começa como uma simples missão de “caça ao homem” rapidamente se transforma em algo muito mais complexo. Ao viajar pelas diferentes ilhas como a terra dos mortos-vivos ou a colônia de fungos você percebe que nem a União Apostática é puramente benevolente em seu ateísmo, nem Vela Callose é uma terrorista comum.

O jogo frequentemente coloca você em dilemas morais onde não há uma resposta “certa”. Você deve ajudar a União a manter a ordem através do controle absoluto? Ou deve permitir que os antigos Deuses retornem, sabendo que eles são voláteis e exigem sacrifícios, mas trazem de volta a magia e a esperança de curar o mundo? A narrativa explora o conceito de que, em um mundo moribundo, a verdade é apenas uma questão de perspectiva. Os diálogos são afiados e carregados de filosofia, tratando o jogador com uma maturidade que condiz com os RPGs clássicos do início dos anos 2000.

Entre o arcaico e o funcional

Cace um grupo de mercenários lendários

É aqui que o delírio começa a mostrar suas rachaduras. Se a exploração é nota dez, o combate de mal chega à média. As lutas em primeira pessoa são rudimentares, para dizer o mínimo. Você tem um ataque básico, um ataque carregado e uma defesa.

A inteligência artificial dos inimigos é extremamente limitada. Na maioria das vezes, basta andar para trás enquanto golpeia ou deixar o inimigo cambaleando infinitamente com seus ataques fortes sucessivos para vencer qualquer ameaça. As magias, embora visualmente incríveis e mecanicamente variadas (incluindo feitiços que permitem levitar ou criar pontes de luz), sofrem com uma economia de mana que desencoraja o uso constante no início do jogo.

Comparado a títulos como King’s Field ou o próprio Morrowind, que já não eram primores em combate, Dread Delusion consegue passar uma impressão ainda mais rasa nesse aspecto. É evidente que o foco da desenvolvedora estava na construção do mundo, mas para um RPG que pode chegar na casa das 30 ou 40 horas, a repetição de encontros triviais pode se tornar cansativa.

Uma viagem que vale o desconforto

Dread Delusion é um triunfo da criatividade sobre o orçamento. Ele prova que, com uma visão artística forte, é possível criar um mundo tão memorável quanto muitos blockbusters. As falhas no combate e algumas decisões de design arcaicas são o preço que se paga por uma experiência tão singular. Se você busca um RPG que desafie seus sentidos, que o trate como um adulto capaz de navegar por conta própria e que ofereça uma ambientação fascinante, este jogo é obrigatório.

Cópia de Xbox Series X cedida pelos Produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

Dread Delusion

7

Nota Final

7.0/10

Prós

  • Direção de arte única e inesquecível
  • Narrativa e lore profundamente envolventes
  • Exploração orgânica que recompensa a curiosidade.

Contras

  • Combate raso e sem impacto
  • Interface de menus pouco otimizada para o controle
  • Sistemas de fadiga e lockpicking podem frustrar jogadores modernos