Kingdom Come Deliverance capa

Review Kingdom Come: Deliverance (PS5) – Uma aventura épica pela Boêmia medieval

Indo na contramão dos grandes RPGs que marcaram os últimos anos, com seus universos fantasiosos e mirabolantes, repletos de magias e criaturas monstruosas que trabalham o nosso imaginário, Kingdom Come: Deliverance busca oferecer aos jogadores uma experiência mais pé no chão, aproximando-se daquilo que poderia ter sido a vida na Idade Média.

Desenvolvimento: Warhorse Studios
Distribuição: Deep Silver
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Aventura, Ação, RPG
Classificação: 18 anos (Conteudo Sexual, Violência)
Português: Legendas e Interface
Plataformas: PC, PS4, PS5, Switch, Xbox One, Xbox Series X|S
Duração: 42 horas (campanha)/136 horas (100%)

Um reviravolta na vida de Henry

Henry sendo repreendido pelo capitão Bernard por desobedecer ordens e voltar a Skalice.
Henry sendo repreendido pelo capitão Bernard por desobedecer ordens e voltar a Skalice.

Jogando como o “simples” filho de um ferreiro (função extremamente importante na Idade Média, já que esses artesãos atendiam a uma vasta gama de necessidades, desde a produção de ferramentas agrícolas essenciais para a sobrevivência até a fabricação de armas e armaduras para a guerra), na histórica cidade de Skalice, famosa por suas minas de prata, na Boêmia de 1403, o jogo nos permite experimentar um pouco do que seria o dia a dia de um jovem aprendiz de ferreiro em uma próspera cidade rural.

Porém, logo percebemos que Henry, o protagonista da obra, é um jovem que anseia aprender a manejar uma espada e se aventurar pelo mundo, visitando novos lugares, o típico garoto entediado e cheio de ambições de uma cidade pequena. No entanto, somos surpreendidos quando a cidade é atacada por um exército de mercenários cumanos, guerreiros habilidosos, tidos como bárbaros, que, a mando do rei Sigismundo, destroem e pilham as cidades por onde passam na Boêmia. A partir daí, a vida do jovem Henry vira de cabeça para baixo, mergulhando em uma jornada épica em busca de vingança.

A campanha se inicia com Henry acordando já tarde, enquanto sua mãe o manda ajudar o pai na forja, pois anteriormente ele havia combinado de auxiliá-lo a forjar uma espada para um importante nobre da cidade, o senhor de Skalice, Radzig Kobyla. Após realizar algumas tarefas a mando do seu pai, a cidade é atacada e pilhada, causando a morte de muitos de seus habitantes, entre eles, a namorada e os pais de Henry. O jovem consegue fugir para uma cidade vizinha, onde é acolhido por seus governantes.

O senhor de Skalice também consegue escapar com o restante dos habitantes da cidade ao cair da noite. Henry toma para si a responsabilidade de entregar pessoalmente ao senhor Radzig a sua espada, o último trabalho de seu pai em vida, uma verdadeira obra de arte. No entanto, ao retornar à Skalice para enterrar seus pais, mesmo tendo sido proibido de fazê-lo por ser extremamente perigoso, Henry é atacado por bandidos que roubam a espada e quase o matam.

Porém, nosso teimoso protagonista é salvo por uma moradora sobrevivente do massacre de Skalice e pelos soldados da cidade vizinha, passando dias entre a vida e a morte até se recuperar totalmente. A partir de então, nosso protagonista se coloca a serviço de Radzig e jura recuperar a espada e obter sua vingança. Surpreendentemente, o senhor de Skalice aceita os serviços de Henry, uma honra bastante incomum para o filho de um ferreiro. É a partir desse ponto que toda a trama passa a se desenrolar ao longo das dezenas de horas em que iremos nos aventurar pela região da Boêmia.

Explorando uma Boêmia medieval

Explorando um pouco das regiões da Boêmia.
Explorando um pouco das regiões da Boêmia.

Diferente de alguns jogos que preferem utilizar a já conhecida, e, para muitos, já saturada, fórmula Ubisoft de exploração, com mapas repletos de ícones e pontos de interesse que acabam deixando os jogadores perdidos sem saber para onde ir primeiro, Kingdom Come: Deliverance adota uma abordagem muito mais natural.

Temos à nossa disposição um mapa coberto por uma névoa que vai sendo dissipada conforme avançamos pelas regiões da Boêmia, e os únicos ícones disponíveis a princípio são os das primeiras missões que recebemos. Todo o restante,  pontos de interesse como ferreiros, açougueiros, costureiros, armeiros, tabernas, entre muitos outros, além dos pontos de viagem rápida, é desbloqueado apenas quando passamos pessoalmente por esses locais.

Isso faz com que a exploração aconteça de forma orgânica, instigando nossa curiosidade para descobrir lugares interessantes por conta própria ou ao ouvir comentários de outros personagens, como locais de caça de determinado animal ou ruínas que podem esconder tesouros.

Sistema de combate e outras mecânicas

Treinando com o capitão Bernard.
Treinando com o capitão Bernard.

Kingdom Come: Deliverance possui um sistema de combate que prioriza o realismo em vez da simplicidade. Isso faz com que, ao mesmo tempo em que o jogo apresenta um dos combates mais únicos e originais dos últimos anos, também seja um dos mais complexos e difíceis de dominar. Ainda assim, não chega a ser um bicho de sete cabeças para aqueles que se dispuserem a dedicar algum tempo a entender como funcionam os ataques, defesas, esquivas e contra-ataques.

Algo que facilita bastante esse aprendizado é treinar com o capitão Bernard após o prólogo. Ele nos permite treinar sem nenhum custo, além de ensinar diferentes técnicas que vão facilitar a vida dos jogadores nos próximos embates. Isso é importante porque, em Kingdom Come: Deliverance, o combate não aceita erros de forma leviana. Atacar de maneira descuidada e esvaziar a barra de energia pode resultar em contra-ataques inimigos que facilmente nos levarão à morte, já que não teremos energia suficiente para nos defender.

Além disso, cada tipo de arma possui uma forma diferente de ser utilizada. Lutar com uma espada é totalmente diferente de lutar com uma maça, pois cada uma possui características específicas, e até nisso os desenvolvedores da Warhorse Studios demonstraram bastante esmero.

Não é apenas o combate que exige paciência do jogador. Diversas outras mecânicas também pedem a nossa atenção. O sistema de arrombamento de fechaduras, por exemplo, exige precisão para que não quebremos a gazua ao executarmos o movimento de forma descuidada. E, claro, uma obra que preza tanto pelo realismo não poderia deixar de incluir mecânicas de fome e sono. É necessário sempre separar um momento para dormir e alimentar o nosso protagonista, pois ficar com fome ou privado de descanso afeta drasticamente a movimentação e o desempenho do personagem.

Até mesmo ler é uma mecânica dentro de Kingdom Come: Deliverance. Iniciamos o jogo sem saber ler, algo comum na época para quem não pertencia à nobreza, e somente após pagarmos para que um escrivão nos ensine o básico é que passamos a ter uma noção inicial da leitura. A partir daí, torna-se necessário adquirir e ler diversos livros para melhorar gradualmente essa habilidade, o que posteriormente nos permite comprar obras que aumentam habilidades específicas do personagem.

Sistema de níveis e equipamentos

Acessando o inventário do jogo e selecionando nossas armaduras.
Acessando o inventário do jogo e selecionando nossas armaduras.

O sistema de níveis de Kingdom Come: Deliverance é algo que muito me agrada e, na minha opinião, está entre as melhores mecânicas de evolução de personagem em RPGs. Similar ao sistema utilizado em Skyrim, aqui só aumentamos de nível conforme utilizamos determinada ação. Quer melhorar sua habilidade com a espada? Ataque com espadas. Quer subir seu nível de arquearia? Acerte flechas em inimigos ou animais com o arco. Quer aprimorar sua equitação? Então cavalgue com seu cavalo. Tudo funciona de forma muito orgânica.

Porém, o jogo não se limita apenas a isso. Também é possível pagar para que nos ensinem determinadas habilidades. Por exemplo, podemos contratar alguém que trabalhe nos estábulos para nos ensinar a cavalgar de maneira mais eficiente.

Quanto aos equipamentos, as armas e os arcos exigem níveis específicos de força e agilidade para serem empunhados de forma eficiente. Já as armaduras precisam ser administradas com cuidado, para que o peso não prejudique nosso desempenho. Embora uma armadura de placas aumente consideravelmente nossos pontos de defesa, ela impacta diretamente a movimentação e a furtividade, penalizando a velocidade e aumentando o consumo de energia.

Reputação e liberdade

Oferecendo ajuda ao capitão Robard para acabar com os cumanos das redondezas.
Oferecendo ajuda ao capitão Robard para acabar com os cumanos das redondezas.

Ao mesmo tempo em que os desenvolvedores da Warhorse Studios buscaram proporcionar um certo nível de liberdade para que os jogadores possam finalizar as missões de diferentes maneiras, as consequências dessa liberdade tornam-se evidentes conforme avançamos na campanha. 

Quer adquirir um item necessário para uma missão simplesmente matando ou roubando um personagem? É possível, mas não se surpreenda se os habitantes da cidade começarem a tratar Henry com hostilidade quando sua reputação estiver muito baixa. Vendedores irão cobrar preços mais elevados pelos itens, e os guardas frequentemente revistarão o protagonista em busca de objetos roubados. Por outro lado, manter uma boa reputação concede benefícios significativos. É um sistema pensado para abraçar e refletir as nossas decisões.

Uma aventura épica repleta de momentos memoráveis

Após todos esses tópicos, Kingdom Come: Deliverance pode até parecer um jogo perfeito e sem problemas, mas não é bem assim. Embora os pontos positivos sejam muitos e se sobressaiam, ele ainda sofre com bugs que podem atrapalhar o progresso, além de possuir um sistema de combate que, a princípio, pode parecer travado e acabar afastando algumas pessoas, especialmente ao enfrentar vários inimigos de uma vez, algo que aparentemente foi aprimorado no segundo título da franquia.

Mesmo com esses pequenos tropeços, Kingdom Come: Deliverance consegue entregar aos jogadores uma aventura verdadeiramente épica, repleta de momentos marcantes e personagens carismáticos ao longo de suas muitas horas de conteúdo principal e secundário. Por isso, não poderia deixar de recomendar este título a todos que apreciam uma boa aventura. Principalmente agora, que o jogo está na sua melhor forma, com a nova atualização para a atual geração, trazendo gráficos em resolução 4K a 60 quadros por segundo, além de uma tradução para o português brasileiro, algo indispensável para uma obra com tantos textos e com um códex repleto de informações sobre a Boêmia e o mundo em 1403.

Cópia de PS5 cedida pelos produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

Kingdom Come: Deliverance

9

Nota final

9.0/10

Prós

  • Ambientação incrível
  • Sistema de combate único e desafiador
  • História envolvente e personagens marcantes
  • Armas e armaduras com impacto real na jogabilidade
  • Tradução para pt-BR

Contras

  • Bugs ocasionais
  • Combate contra grandes grupos de inimigos