A profissão de detetive no mundo dos games costuma oscilar entre dois extremos: ou somos super-heróis da dedução com “visões de águia” que destacam pistas em neon, ou somos meros entregadores de itens em aventuras point-and-click. The Empty Desk – Detective Bennet: Solved Cases, desenvolvido pela Cheesecake Games e distribuído pela JanduSoft, tenta encontrar um meio-termo nesse espectro, focando em uma experiência de investigação bem contida e direta.
Desenvolvimento: Cheesecake Games
Distribuição: JanduSoft
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: 16 anos (violência extrema, linguagem imprópria)
Português: interface e legendas
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 2,5 horas (campanha) / 3,5 horas (100%)
O silêncio do detetive

O título do jogo carrega um simbolismo imediato. Em The Empty Desk, assumimos o papel do detetive Bennet, um investigador cujos casos resolvidos são o alicerce de sua reputação. No entanto, o jogo não se perde em longas exposições cinematográficas. Ele confia na narrativa ambiental para contar suas histórias. Cada cenário funciona como um diorama de um crime ou mistério que precisa ser desvendado.
A premissa de “Casos Resolvidos” sugere uma retrospectiva, uma análise minuciosa de arquivos que definiram a carreira de Bennet. No entanto, a execução narrativa é minimalista. Não espere diálogos densos ou reviravoltas dignas de um romance de Agatha Christie, pois o foco aqui é o objeto, a pista física e a lógica imediata de causa e efeito.
Entre o clique e o pensar

A jogabilidade de The Empty Desk gira em torno da exploração de cenários em busca de pistas. O loop principal consiste em observar o ambiente, interagir com objetos e conectar os pontos para avançar na resolução do caso.
Um diferencial interessante é a tentativa de fugir do “pixel hunting” (caça ao pixel) tradicional de jogos de objetos ocultos em 2D. Por ser um ambiente 3D, a perspectiva muda tudo. Você precisa olhar sob as mesas, abrir gavetas e rotacionar itens para encontrar detalhes escondidos. As mecânicas são simples, talvez até demais para veteranos do gênero. O sistema de inventário é funcional, permitindo que o jogador colete itens que serão usados em quebra-cabeças lógicos ou para desbloquear novas áreas do cenário.
Comparado a títulos como Sherlock Holmes: Crimes & Punishments, The Empty Desk carece de um sistema de “dedução mental” mais robusto. Enquanto Sherlock permite errar e condenar a pessoa errada, aqui o caminho é totalmente linear. O progresso é ditado pela descoberta da próxima “chave” lógica, o que garante que o jogador nunca fique verdadeiramente perdido, mas também diminui a sensação de ser um gênio da investigação.
Charme ou limitação?

Existem indicações claras de que o jogo utiliza ferramentas de inteligência artificial em diversas áreas do seu desenvolvimento. As ilustrações dos personagens, retratos e algumas artes ambientais em duas dimensões exibem características típicas de geração por IA, com um aspecto “plástico” e artificial que destoa dos cenários 3D.
O jogo também utiliza vozes geradas por sintetizadores de IA, que sendo sincero, soam desprovidas de alma que parece que o detetive Bennet está lendo um manual de instruções ao invés de investigar um crime. Falta aquele “tempero” humano e a variação emocional que realmente nos fazem mergulhar de cabeça em um bom mistério. Há indícios de que a tradução e a adaptação de textos para diferentes idiomas também foram feitas com auxílio de IA ou ferramentas de tradução automática, resultando em frases gramaticalmente estranhas ou expressões que não condizem com os cenários. Alguns dos elementos visuais utilizados nos momentos de susto são imagens 2D estáticas que também aparentam ter origem em geradores de imagem por IA.
Esta integração tem sido um tema central nas discussões sobre jogos, ao qual eu pessoalmente acredite que embora a tecnologia acelere a produção, o resultado final por vezes carece do “toque humano” necessário para a imersão, principalmente nesse caso, um thriller psicológico, criando um contraste visual e auditivo que pode retirar o jogador da experiência.
O veredito de Bennet
The Empty Desk – Detective Bennet: Solved Cases é uma experiência sólida, embora segura demais. Ele entrega exatamente o que promete: uma série de dioramas investigativos que testam sua percepção e lógica básica.
Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores.
Revisão: Júlio Pinheiro




