Era 16 de agosto de 1896. Skookum Jim Mason, Dawson Charlie e George Carmack, três prospectores em busca de uma vida melhor, encontraram pepitas no Bonanza Creek, no território canadense de Yukon. A notícia, levada um ano depois pelos navios Excelsior e Portland até as costas de São Francisco e Seattle, desencadearia uma das maiores corridas migratórias da história moderna: mais de 100 mil pessoas rumando ao norte gelado em busca da fortuna prometida pela “febre do ouro”. É justamente nesse cenário que Alaska Gold Fever, mais recente produção da Baked Games, escolheu ambientar sua narrativa. Mas, afinal, será que o título consegue extrair algo de valor do mítico filão?
Desenvolvimento: Baked Games
Distribuição: Baked Games S.A.
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Simulação
Classificação: 10 anos (violência)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC
Duração: 18 horas (campanha)
A herança que ninguém pediu

Como em quase todo simulador do gênero, Alaska Gold Fever apoia sua trama numa premissa familiar: somos um sobrinho aspirante que herda os negócios de um tio falecido, no caso, um antigo hotel em ruínas localizado nos confins gelados do Alasca. O objetivo, em teoria, é simples: devolver ao estabelecimento os tempos áureos vividos durante o ápice da Klondike Gold Rush e, de quebra, conquistar um espacinho na história local. Sim, é uma abordagem batidíssima, dessas que provavelmente já vimos em uma dezena de outros simuladores de restauração, mas o jogo executa o clichê com competência suficiente para que não pese.
Para atingir esse objetivo, é necessário se relacionar com os habitantes da cidade, aprender ofícios variados e, claro, garimpar bastante ouro. As conversas com os NPCs cumprem o duplo papel de empurrar a narrativa e abrir o leque de atividades disponíveis: cada personagem ensina uma habilidade ou destrava algum tipo de serviço, seja a caça, a carpintaria, o refino do minério ou a venda dos espécimes coletados. Aqui, a Baked Games optou por uma fórmula segura, mas que funciona. A sensação de progresso é constante e a curva de aprendizado nunca desestabiliza o ritmo da jogatina.
Vale destacar, ainda, o cuidado com a ambientação histórica. Pequenos detalhes, como a divisão dos tipos de ouro encontrados — poeira, escamas e pepitas — e o uso de ferramentas inspiradas em métodos do século XIX, demonstram que houve um mínimo de pesquisa por parte do estúdio, e isso merece reconhecimento.
Picareta, pá e bateia

Quanto à jogabilidade, Alaska Gold Fever segue a cartilha tradicional dos simuladores em primeira pessoa: ele faz o básico, mas faz bem. A produção dedica suas primeiras horas a um tutorial generoso, no qual cada nova mecânica é introduzida por meio de missões direcionadas, desde os passos iniciais com a picareta e a pá até a operação dos carrinhos de mina e o preparo da bateia para a separação do minério. Para os fãs do gênero, é fácil se localizar; para os mais novos, a curva é convidativa.
Ao todo, são nove minas espalhadas pelo mapa, com tamanhos e níveis variados, todas oferecendo riscos próprios. Não me leve a mal, mas é bom não brincar com a estabilidade dos túneis, sob pena de presenciar um desabamento e perder progresso. A esse aspecto, soma-se ainda o sistema de sobrevivência ao frio extremo, que adiciona uma camada interessante de gerenciamento: alimentar-se regularmente, manter-se aquecido e administrar os recursos com sabedoria são tarefas tão importantes quanto a própria extração do metal.
A árvore de habilidades também merece menção. As melhorias adquiridas com o tempo permitem refinar técnicas de extração, aumentar a eficiência das ferramentas e até automatizar parte do trabalho com a contratação de empregados. É possível, inclusive, traçar paralelos com produções como Gold Rush: The Game e House Flipper, embora Alaska Gold Fever opte por uma escala mais modesta e contida.
Quando o ouro perde o brilho

Se em termos de proposta a Baked Games acerta na mosca, o mesmo, infelizmente, não pode ser dito sobre os aspectos técnicos. O grande calcanhar de Aquiles aqui é, sem qualquer sombra de dúvida, a otimização. Mesmo possuindo uma configuração consideravelmente acima dos requisitos mínimos divulgados pelo estúdio (um Ryzen 7 5700X3D, 32GB de memória RAM e uma RTX 3070), minha experiência foi marcada por travamentos constantes e quedas bruscas de frames, mesmo após ajustes manuais das configurações gráficas em uma resolução de 1080p. É algo que, em um título lançado nos dias atuais, simplesmente não deveria estar acontecendo.
Os requisitos recomendados também levantam uma sobrancelha: pedir uma RTX 4060 e um Intel Core i7 de 13ª geração para rodar uma produção visualmente modesta soa, no mínimo, desproporcional. E aqui está outro ponto a ser ressaltado: graficamente, Alaska Gold Fever não impressiona. As texturas dos cenários e os modelos dos personagens cumprem o papel funcional, mas estão longe de figurar entre os mais detalhados da categoria. Em resumo, dá para o gasto, mas a relação entre exigência de hardware e fidelidade visual está bastante desbalanceada.
A trilha sonora, por sua vez, passa praticamente despercebida. As composições estão ali mais por uma obrigação contratual do que por intenção artística, sem qualquer melodia marcante ou sequer um tema que ajude a construir a atmosfera fria e melancólica que a ambientação merecia. É uma oportunidade desperdiçada, especialmente para um cenário com tanto potencial sonoro quanto o do Alasca do final do século XIX.
Garimpando esperanças
Alaska Gold Fever é, no fim das contas, um título de propostas honestas e execução parcial. A história, embora clichê, segura a barra com competência, e as mecânicas, ainda que simples, funcionam bem o suficiente para entreter por algumas boas horas de jogatina. Contudo, a otimização sofrível, somada a aspectos audiovisuais aquém do esperado, impede que a produção da Baked Games alcance o brilho que poderia ostentar. Resta saber se as atualizações futuras conseguirão resgatar o que está soterrado debaixo de tantos problemas técnicos. Será que o ouro está mesmo lá embaixo?
Cópia de PC cedida pelos produtores
Revisão: Julio Pinheiro




