Já há alguns bons anos, a Square Enix vem acertando em cheio na produção de RPGs no estilo gráfico HD-2D, combinando técnicas gráficas modernas com uma direção artística e de game design retrô. Agora, a desenvolvedora está elevando esse conceito ao atualizar justamente a jogabilidade com The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, que deixa de usar sistemas de turno em favor de uma ação em tempo real, em uma trama bastante ambiciosa.
Desenvolvimento: Team Asano, Square Enix, Claytechworks
Distribuição: Square Enix
Jogadores: 1-2 (local)
Gênero: RPG
Classificação: 12 anos (violência, drogas lícitas, interatividade online)
Português: Não
Plataformas: Switch 2, PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 30 horas (campanha)
Uma confusão temporal

Assinado pelo Team Asano, que trabalhou em Octopath Traveler e em Bravely Default, o game apresenta uma narrativa que se passa em múltiplas eras, sempre situada no continente de Philabieldia – um mundo lotado de ameaças, com apenas uma pequena região protegida por um poderoso feitiço. Elliot, o protagonista, é um aventureiro especializado em explorar terras desconhecidas, conhecido por aceitar missões perigosas e nunca falhar.
Com um desenvolvimento bem lento, mas com a profundidade condizente com um RPG da Square Enix, o enredo põe o personagem principal em um jogo de intriga envolvendo portais que vão para diferentes épocas em tentativas de reescrever a história. É aqui que entra o “The Millennium Tales” do nome do jogo, pois Elliot precisa sair de sua era e conhecer versões diferentes do mundo em que vive para conseguir evitar que o pior aconteça. É sempre fascinante ver versões completamente distintas do mesmo mapa, principalmente porque elas vão em extremos distintos – uma é um universo em que a humanidade leva uma vida miserável, enquanto outra retrata o ápice da prosperidade humana, em uma época na qual a magia foi dominada.

A apresentação do jogo está em outro naipe, até quando comparada à de títulos anteriores que utilizaram a mesma estética HD-2D. Há ilustrações completas dos personagens durante as cenas, além de movimentos nos cenários, sendo uma narrativa que não se torna cansativa, por mais enrolada que ela seja. Ainda há uma trilha sonora sensacional que, junto com uma dublagem em inglês carismática, dão um tom excelente à aventura de Elliot. Só faltou uma localização para o português – infelizmente, o game não ganhou uma tradução, sendo obrigatório conhecer algum dos nove idiomas estrangeiros suportados para aproveitar o RPG plenamente.
O aventureiro não está sozinho

The Adventures of Elliot conta com uma gameplay que utiliza uma câmera vista de cima, adotando um sistema de batalha que larga os tradicionais turnos para colocar o personagem no controle de duas armas, em um estilo próximo ao hack ‘n’ slash. O foco está no ataque, movimentação e defesa em tempo real, mas com um ritmo consideravelmente cadenciado – há interações pelo mapa e a possibilidade de atirar objetos como bombas, resultando em uma gameplay dinâmica, que faz com que o RPG seja um bom título de ação.
A experiência não é tão desafiadora, porque há a opção de três dificuldades (os convencionais fácil, médio e difícil), além de um personagem acompanhando Elliot em toda a jornada. Inicialmente, uma princesa auxilia Elliot à distância, com um feitiço de audição, narrando a aventura para ele (e o jogador). Ela fala demais, e quase sozinha, uma vez que o protagonista não interage tanto com ela na gameplay propriamente dita, somente nas cutscenes – não à toa, é possível ajustar a frequência das reações dessa companheira nas configurações do jogo. Além de dar dicas, a princesa consegue curar o protagonista, o que é útil nas partes em que ela colabora com Elliot.

Logo depois, Elliot conhece Faie, uma fada que o salva de uma situação desesperadora. Ela pode atacar adversários, pegar itens e evitar que o protagonista seja stunado no decorrer do combate. É possível controlar todos os movimentos dela com o analógico direito e os direcionais do controle, mas também é permitido que um outro jogador use um joystick secundário para assumir o papel dela, transformando o RPG em uma ótima jornada cooperativa. A fadinha é realmente importante para a aventura, principalmente na solução dos pequenos puzzles que surgem durante a exploração das dungeons presentes no game.
Mecânicas de RPG, mas com um erro

O sistema de combate do jogo é complementado pelas Magicites, pequenas pedras mágicas que concedem diferentes bônus e habilidades aos equipamentos do protagonista, que podem ser trocados instantaneamente ao simplesmente segurar o botão R2 do controle. As Magicites possuem valores determinados e são obtidas de forma aleatória, com base em uma moeda recompensada ao derrotar oponentes. Com elas, é possível montar builds específicas de acordo com as necessidades do momento da campanha de Elliot, juntando diferentes pedras até chegar a um valor máximo, em um sistema acessível pelo menu de pausa.
As dungeons são o ponto alto da experiência, apresentando confrontos eletrizantes contra inimigos e chefes, além de uma boa variedade de quebra-cabeças que precisam ser resolvidos analisando os cenários minuciosamente. Toda essa mistura entre narrativa, cooperação, combate e exploração resulta em uma jogabilidade rica, que mantém o ritmo da aventura sempre interessante e nunca maçante.

No entanto, um problema é o minimapa, que deixa a desejar. Em vez de exibir uma representação adequada da área explorada, o elemento da interface não mostra nada além dos ícones, tornando a navegação pouco intuitiva. É bem desorientador, inclusive, porque o minimapa não gira junto com a direção do jogador e não destaca determinados conteúdos secundários. Essa é uma falha que não deveria estar presente no game, que acaba exigindo diversas visitas ao menu de pausa para conferir onde ir em sequência. Uma ferramenta de navegação completa, como a de qualquer outro jogo que utilize um minimapa, certamente teria contribuído para tornar a experiência mais fluida do que é.
Problemas na versão de PC

Apesar dos desenvolvedores terem novamente entregue um projeto com uma direção artística impecável, existem problemas técnicos que atrapalham esse lado do jogo. Na versão para PC, lançada tanto pela Steam quanto pela plataforma Xbox Play Anywhere, os elementos em 3D são serrilhados, havendo até quedas na taxa de quadros e bastante pop-in neles, sempre quando um novo cenário é carregado. Além disso, os visuais, no geral, poderiam ser mais limpos do que são, já que em certos momentos, não há uma clareza gráfica tão nítida como ao longo da exploração dos mapas, por exemplo.
Ambicioso e agradável
The Adventures of Elliot: The Millennium Tales é provavelmente o mais próximo que um RPG no estilo retrô produzido por um grande estúdio pode chegar a uma combinação bem-sucedida entre as características clássicas e modernas do gênero. Todo o lado narrativo foi executado com maestria, sendo uma boa trama que não se torna cansativa quando ela tem tudo para ser exatamente isso, enquanto a gameplay é rica, diversa e longe de ser antiquada como sistemas baseados em turnos são. Não é um game perfeito, principalmente pelos problemas visuais e de exploração, mas é uma experiência totalmente recomendável seja para quem já prestigiou os outros RPGs no estilo HD-2D quanto para quem nunca jogou nada parecido.
Cópia de PC cedida pelos produtores
Revisão: Jason Ming Hong




