Em 2024, a Sony anunciou que estava “investindo na comunidade brasileira”. A gigante dos games havia firmado uma parceria com a distribuidora Solutions 2 Go para a produção de jogos em disco na Zona Franca de Manaus, que seriam vendidos nacionalmente e exportados para os outros países da América Latina. A ação envolveu até a presença de uma equipe de especialistas da Sony japonesa no Brasil, além da instalação de equipamentos de última geração para a fabricação de discos Blu-Ray em 4K, com capacidade de 100 GB, o padrão utilizado nos jogos para PS5.
Porém, de repente tudo mudou: a mesma Sony informou que irá parar de fabricar novos lançamentos em disco a partir de 2028, por causa da queda na demanda pelo formato. De acordo com várias fontes da imprensa internacional, apenas jogos anteriores a esse ano continuarão sendo fabricados, em escala menor, enquanto novos lançamentos serão quase exclusivos da PS Store, com distribuição externa limitada a códigos para resgate na loja da Sony. Essa é uma notícia que praticamente muda toda a forma de jogar videogame para uma boa parcela da comunidade, e, nesse momento, há mais dúvidas do que respostas.
O boom da IA e a necessidade de faturar

O mercado de videogames, no geral, vive um momento um pouco delicado porque a preferência de grande parte dos jogadores não é por jogos de campanha, mas sim por experiências online sem fim e sempre com a adição de novos conteúdos, os famigerados games com o modelo “live service”. Eles são distribuídos principalmente pelas lojas digitais, sem um lançamento em mídia física, até porque muitas vezes esses games são gratuitos para jogar, como o Fortnite, por exemplo. Mat Piscatella, analista que cobre o mercado americano, reporta semanalmente que esse tipo de jogo figura entre os mais jogados nas plataformas da Sony, Microsoft e Valve. Com isso, e com uma adoção massiva das lojas digitais devido ao número maior de jogos disponíveis a preços mais baixos e pela comodidade dos downloads, a venda de discos acabou caindo. Para muitos, colocar um CD no console não é a forma padrão de jogar videogame há um bom tempo.
Ao mesmo tempo, a situação do mercado de hardware também não é boa, porque a demanda provocada pela adoção da inteligência artificial pelas grandes empresas de tecnologia está causando um aumento direto nos preços de componentes como memórias, SSDs e processadores. Tudo está encarecendo, e os consoles das três principais fabricantes já sofreram vários reajustes por conta disso. Com isso, fica complicado para as empresas venderem videogames. A tendência sempre foi de uma queda no valor dos consoles com o passar dos anos, porque os componentes iam ficando mais baratos com o tempo, mas isso está longe de ocorrer na atualidade.

Num mundo em que a lógica dominante é a do crescimento infinito, a decisão da Sony, em meio a um mercado com expansão ameaçada por produtos excessivamente caros, foi monetizar ainda mais a base de jogadores já existente. Lin Tao, diretora financeira da Sony, avisou em uma apresentação aos investidores que o plano da empresa perante esses desafios era minimizar o impacto com um aumento no faturamento da venda de jogos e serviços online. Isso incluiria reajustes no valor da assinatura da PlayStation Plus, por exemplo, mas o que ninguém esperava era uma decisão como o fim da fabricação de mídia física, que faz muito sentido financeiro para as empresas. Afinal, as margens da venda de discos são menores tanto para a Sony quanto para as produtoras de jogos.
De acordo com a firma de consultoria Kantan Games, a venda de um jogo físico costuma envolver uma comissão de 15% para a fabricante do console, uma margem de lucro de 30% para os lojistas e um custo de fabricação de 5%, sobrando 50% do valor para a desenvolvedora do jogo. Numa venda digital, a conta muda: o mesmo jogo destina somente 30% de seu valor ao fabricante do console, com os 70% remanescentes indo para os produtores do game. Ou seja, a dona da plataforma e os desenvolvedores faturam muito mais quando um jogador prefere comprar digitalmente em vez de optar por uma edição física, que exige uma cadeia bem maior para chegar aos gamers do que um mero download.
E os preços?

Para muita gente, o que importa não é se um jogo é físico ou digital, mas sim o preço. A PlayStation Store, em específico, historicamente nunca se preocupou em oferecer bons valores aos jogadores nacionais, já que os games vendidos nas lojas de outros consoles e na Steam frequentemente custavam menos do que sua versão na plataforma da Sony. Mesmo com os custos da mídia digital sendo inferiores aos da versão física, os preços costumam ser tabelados entre os formatos: um novo lançamento de peso pode custar entre R$ 299 e R$ 450, dependendo da empresa.
Mesmo na fase de lançamento de um game com versão em mídia física, é possível pagar menos na edição em disco por causa de promoções de lojas e cupons de plataformas como Mercado Livre e Shopee. Aqui no Brasil, no entanto, há uma diferença importante em relação ao que costuma ocorrer em outras partes do mundo, pois os games em disco não costumam perder tanto valor e ficar cada vez mais baratos como acontece com os jogos digitais de quase todas as grandes publishers.

Enquanto um lançamento pode ser mais barato em sua edição física, um jogo mais antigo provavelmente já estará disponível em alguma assinatura ou sairá mais em conta numa compra digital pelos descontos feitos pela própria desenvolvedora — mas importante ressaltar que isso ocorre apenas nos momentos esporádicos em que eles entram em promoção nas lojas online, fazendo com que o consumidor tenha que esperar a boa vontade das empresas para pagar um preço menor. Ainda assim, a existência futura de um jogo físico para novos jogadores é mais garantida do que a do mesmo título em mídia digital, dado que, dependendo do caso, os games digitais costumam deixar de ser vendidos com o tempo por problemas de licenciamento, como acontece com a série Forza Horizon, por exemplo.
O problema principal é que não há muita clareza sobre qual formato a Sony pretende adotar a partir de 2028, pois a empresa só informou que permitirá que lojas externas vendam códigos para jogos digitais, mas sem maiores detalhes. Ou seja, há um grande risco dos jogadores perderem a possibilidade de pagar menos em novos lançamentos, reduzindo ainda mais o acesso a um tipo de produto que já é elitizado por seu preço relativamente alto.
O mercado de PC é um modelo a seguir?

A escolha pela mídia digital como preferência popular é uma tendência de anos. No Brasil, a Microsoft não comercializa discos de Xbox desde 2023, enquanto publishers enormes como a Capcom e a Square Enix informam que mais de 80% de suas vendas globais são de jogos digitais. No ano fiscal de 2025 da Sony, apenas 22% das vendas de jogos completos foram de mídia física.
Mas há, com certeza, um nicho a ser explorado. As pessoas que ainda insistem no formato, além da questão do preço, também continuam nele simplesmente por gostar da experiência de ter um disco, de poder presentear ou emprestar, colecionar na prateleira, entre outros motivos. É difícil pensar que esse movimento da Sony, que está forçando uma transição completa para o digital, realmente valha a pena para a comunidade gamer, ainda mais pela infinidade de problemas e falhas presentes nas lojas digitais da empresa — que, por ironia, anunciou que também desligará as lojas do PS3 e do PS Vita em breve.

Jogadores do PlayStation, por exemplo, não têm o mesmo direito ao reembolso do valor pago por um jogo que os jogadores de PC (um mercado totalmente digital) possuem, podendo solicitá-lo até duas horas de gameplay ou 14 dias corridos após a compra na Steam ou na Epic. O pessoal do PC também conta com a possibilidade de comprar jogos em lojas externas aos principais launchers e não é restrito a decisões que podem cortar o acesso a um game digital de forma arbitrária. A Nintendo, por sua vez, vem empurrando seus jogadores para a mídia digital com o seu Switch 2, mas unindo a tecnologia com quase todos os pontos positivos das mídias tradicionais com os Game Key Cards (Cartão de Acesso ao Jogo) — o game é digital, mas o acesso a ele é físico, existindo a possibilidade de colecionar, emprestar e vender.
Um alerta
É necessário ter mais liberdade para os jogadores de console, além de preços na PlayStation Store que condizem com os das outras plataformas, justamente para compensar a ausência dos vários benefícios dos discos físicos a partir de 2028. Os jogadores precisam exigir isso, ou simplesmente mudar de plataforma caso sejam ignorados. Afinal, é de se lamentar essa perda de uma parte importantíssima da cultura dos games, e cabe sempre questionar se essa mudança realmente trará benefícios para todos. Nesse cenário em que os custos para as empresas não param de aumentar e de ser repassados aos jogadores, o caminho para o futuro está longe de ser tão empolgante quanto poderia ser.
Revisão: Ailton Bueno




