Remothered: Broken Porcelain

Review Remothered: Broken Porcelain (Switch) – Uma pequeníssima mudança

Sou um fã assíduo de jogos de terror desde que me conheço por gamer, e com certeza Silent Hill é uma de minhas franquias preferidas de todos os tempos no gênero. Junto a isso, também possuo um grande apego por Resident Evil e seus similares, mas cheguei também a dar uma chance para produtos mais recentes como Outlast e afins. Porém, preciso especificar o tipo de terror que gosto: survival. Gosto de poder me defender, por mais que meu personagem represente um cidadão comum, sem qualquer tipo de treinamento militar à la Leon S. Kennedy e Chris Redfield. Por isso, após desvendar alguns games que focam inteiramente em escapar de um perigo ou de um perseguidor incansável, percebi que esse tipo de jogabilidade não tem um grande apelo para comigo.

Recentemente conheci Remothered: Tormented Fathers – o primeiro jogo de uma planejada trilogia – e até fiz uma análise aqui no site. Achei a história intrigante e a atuação dos personagens muito acima da média, mas o gameplay me desagradou um pouco por passar a sensação de mal implementado. Cheguei a ficar tão animado quando a sequência foi anunciada que até entrei em contato com o autor via Twitter pedindo para que adicionasse novas mecânicas e, possivelmente, um combate no segundo jogo. A resposta foi “quem sabe”. E, bom, vejamos o resultado de Remothered: Broken Porcelain.

Desenvolvimento: Darril Arts
Distribuição: Modus Games
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Aventura, Terror, Puzzle
Classificação: 16 anos
Português: Legendas e interface
Plataforma: PC, PS4, Xbox One e Switch
Duração: 6 horas (campanha)

A origem explicada

Stealth

Remothered é uma série que foi planejada para ter três jogos debaixo de seu nome desde o início, porém é difícil dizer o quanto sua história foi planejada realmente ou se o criador foi “inventando” com o tempo. Remothered: Broken Porcelains na verdade é uma prequela de seu antecessor e conta a história de Jennifer, uma figura constantemente mencionada em Tormented Fathers pelo doutor Felton – o perseguidor principal. Gosto desse tipo de abordagem, em que uma continuação conta as origens que eram apenas contadas por fatos e diálogos numa obra anterior. Como o primeiro título de Remothered possui uma história bastante curta e sem profundidade em um universo gigantesco de personagens, o desenvolvedor teve o bom-senso e colocou uma recapitulação dos eventos do antecessor em Broken Porcelain num formato de cutscenes que remontam bem os fatos.

Porém, posso dizer com plena certeza de que essa sequência é bastante parecida com Tormented Fathers. Basicamente Remothered: Broken Porcelain segue a mesma linha de Outlast, e aqui também seu objetivo é fugir de perseguidores enquanto realiza tarefas pelo cenário. Para fazer com que qualquer ameaça perca seu personagem de vista, é necessário esconder-se em baús, armários, passar correndo por debaixo de mesas, amarrar maçanetas de portas, entre outras firulas já presentes também no primeiro jogo. Quando o perseguidor suspeita de sua presença mesmo que você esteja escondido em algum lugar, surge um quick time event (sim, eles estão de volta) para evitar com que a protagonista seja pega. Infelizmente, se torna algo maçante, repetitivo, nada desafiador e bastante dispensável.

Mais do mesmo, confusões semelhantes

O Porcelana man

A sequência de Remothered ainda é uma mistura de Tormented Fathers e qualquer outro jogo de terror em que você não possa atacar de forma direta o inimigo. Dizem por aí que a franquia é inspirada em Hunting Ground, um jogo ao qual nunca tive acesso e não posso afirmar se estão corretos. Felizmente, diferente do primeiro, em Broken Porcelain é possível agora “atacar” o perseguidor caso ele abaixe sua guarda e fique de costas para a protagonista – ou atirando com uma “pistola” de pregos -, porém essa é uma tarefa bastante chata de se fazer por causa das mecânicas ruins e controles péssimos. Muitas vezes me parece que a inteligência artificial dos inimigos simplesmente detecta sua presença por mais que o personagem se aproxime agachado ou faça um silêncio absoluto, o que se torna pior ainda com os confusos comandos de movimento e ação que são engessados e não permitem alteração.

É um erro tremendo, já que a maioria das interações em Remothered: Broken Porcelain são feitas com o botão B (no Switch), enquanto algumas bem específicas – como navegação entre menus – fazem o uso do botão A (também no Switch). Ou seja, são duas formas de confirmar ações, usando comandos diferentes em momentos distintos. Os botões para navegação em menus de criação de objetos e comando de equipar alguma faca ou algo do tipo também é feito de maneira diferente, equipando com Y e saindo com o X. No quesito coerência do mapeamento de botões, Broken Porcelain erra tão feio quanto o primeiro jogo ao não permitir um layout diferente destes controles – ou personalização.

Controlando outro personagem

Em geral, mesmo com pouquíssimas adições o segundo jogo da trilogia Remothered permanece mais do mesmo – o que é bem triste. É como se o primeiro jogo tivesse sido reaproveitado com a adição de algumas set pieces – uma sequência de ações pré-estabelecidas de forma linear sem real impacto na jogabilidade – e melhorias gráficas para deixar o rosto dos personagens menos “plastificados”.

Eu esperava muito uma evolução em relação ao primeiro jogo, mas parece que as mudanças por aqui tiveram mais um foco nos inimigos, que agora são bem pouco mais variados, atacam de formas diferentes, vem em maior quantidade, etc. Também foi criado um poder de Mariposa usado por Jennifer, porém numa execução péssima de uma forma inexplicável. Quando usado, a câmera se transforma em primeira pessoa, simulando o vôo de um inseto, com controles desesperadores, com aceleração de movimentação bastante alta que te fazem colidir com a parede em todo o tempo e passar uma raiva brutal. Bom, pra piorar este poder é capaz de ser usado apenas por alguns segundos, então boa sorte em sua briga com o controle e explosões de ódio por não conseguir seguir uma simples linha reta.

Cuidado com a expectativa

Borrões em excesso

A série certamente não é indicada para amantes de jogos em que o protagonista tem mais chance de se defender e contra-atacar seus inimigos, mas talvez quem gosta de algo voltado para a jogabilidade de Outlast possa se interessar mais. Me incomodo muito em ter que ir de um ponto ao outro no cenário ao mesmo tempo que preciso evitar inimigos que estão correndo atrás de mim. Por isso o jogo se estende mais do que o normal, já que a quantidade de mortes infla superficialmente sua duração, fazendo com que tudo pareça bem mais duradouro do que na verdade é. Comparado ao seu antecessor, Broken Porcelain tem pouquíssimos puzzles, e nenhum deles te fazem pensar de uma forma mínima. São coisas óbvias demais, e algumas soluções não fazem nem o menor sentido e passam a impressão de ser uma resolução feita às pressas.

Foi criado um sistema de upgrades que melhoram as habilidades de Jennifer – se é que podemos chamar assim -, como maior capacidade de andar silenciosamente, mais fôlego ao correr, maiores chances de encontrar um ponto adicional de upgrade, etc. Sinceramente, nada que agregue de verdade à jogabilidade em si, mas apenas que torna menos ruim as mecânicas de Broken Porcelain numa tentativa frustrada de dar um senso de progressão.

A história é interessante, mas usa o clichê do vilão que entrega toda a sua estratégia e planejamento uma vez que acredita ter vencido os “mocinhos”. Considero uma técnica bem preguiçosa que evita ter que desenvolver o enredo para contar melhor a história. Então, apesar de Broken Porcelain ter eventos mais interessantes do que Tormented Fathers, a impressão que fica é de que o jogo foi feito às pressas para evitar ser adiado – como foi tantas vezes, e isso é mais perceptível na seção a seguir.

Problemas que decepcionam

"Devolva meu dinheiro por este jogo"

Infelizmente, Remothered: Broken Porcelain não para de decepcionar desde os primeiros minutos de jogo. Tive acesso às versões de PC e Switch, sendo que esta segunda foi a qual usei para realizar esta análise de forma mais profunda. Jogando no computador, a experiência é bem melhor performaticamente falando, já que é possível ver à sua frente o que acontece, enxergar de fato o cenário e sentir-se realmente no ambiente onde se passa a história. Já a versão de Switch possui características visuais que chegam a ser piores do que o modo ultra low de Broken Porcelain para PC.

Algo similar havia sido feito em Tormented Fathers e no lançamento para o console da Nintendo era quase impossível visualizar qualquer coisa na tela de tantos downgrades que o produto final recebeu. E não, não é culpa apenas do hardware modesto do Switch, e sim uma falta de otimização e decisões de ajustes visuais que foram erroneamente tomadas. Em Broken Porcelain, é simplesmente medonho a experiência no modo portátil que apresenta visuais lotados de serrilhado, resolução baixíssima (por volta de 360p) e gráficos que parecem que estão prestes a desmanchar na sua cara. Várias vezes também fica difícil distinguir o rosto dos personagens, e parece que todos se tornam verdadeiros vultos que somem em clarões de brancos exagerados. A prova da falta de otimização é na visualização de estatuetas na galeria de coletáveis, em que apenas um modelo 3D sem fundo ou algo do tipo é apresentado e mesmo assim tem visuais tenebrosos e uma baixa taxa de quadros por segundo.

Já usando a Dock, as coisas ficam mais suaves, e mesmo assim ainda decepcionam por saber que o Switch é capaz de mais. A distância de renderização é triste, e objetos mais longe do personagem ficam irreconhecíveis e até mesmo piscando ou tremendo. Pontos de luz somem em poucos centímetros, apresentando um efeito bizarro similar à de luzes automáticas que acendem quando alguém se aproxima. Aliás, um aviso importante: as imagens existentes na página de Broken Porcelain na Nintendo eShop não são reais, mas provavelmente extraídas da versão de PC.

Apesar disso, nem de longe apenas os defeitos visuais são a pior parte do jogo. Broken Porcelain chegou repleto de bugs em todas as versões disponíveis. Além da pobreza e quantidade limitadíssima de linhas de diálogos que os perseguidores possuem e ficam repetindo sem parar, eles também simplesmente ficam parados se existe uma mesa em sua frente, por exemplo. Em dados momentos também o inimigo ficou travado numa porta e ficou saindo e entrando várias vezes, enquanto que a personagem estava escondida atrás do vidro do chuveiro.

Fora isso, os efeitos sonoros de “aaaAaaaAh” de Andrea (uma das perseguidoras do jogo) permaneceram mesmo depois de avançar na história, sendo necessário voltar ao último save para remover. A câmera também costumam atrapalhar bastante, e em vários momentos o ângulo se torna inviável e impossível de ver qualquer coisa. Isso apenas se agrava caso o perseguidor “trave” seu personagem em algum canto, o que torna quase impossível de escapar já que você fica imóvel e precisa ser arremessado para sair, enquanto um show de ângulos bizarros atrapalham sua localização. Nas fugas, muitas vezes não conseguimos utilizar o B como arrombamento de portas, e o resultado é 50% de chances abrir lentamente e 50% de chances de realizar o comando corretamente. Quando nosso personagem consegue o feito, é capaz de passar reto na porta demonstrando uma incompetência sem palavras.

Estatuetas

Além de todos estes devaneios, existem bugs também de certas ações que acabam não ocorrendo e não ativam o evento necessário para progredir – o que me fez ficar cerca de meia hora procurando o que devia ser feito. Pra minha infelicidade, o jogo simplesmente não estava avançando porque a ação havia sido tomada em uma ordem diferente que bagunçou a programação. Um sentimento de decepção indescritível foi o que tive nestes momentos.

Pra finalizar, coisas mais bobinhas mas que demonstram falta de cuidado também são facilmente vistas. O corpo dos personagens comumente atravessam paredes e o chão, além de que o jogo permite interações que resultam em algo parecido com uma programação incompleta por parte da inteligência artificial. Certas animações também são bem superficiais, como os inimigos sentando, personagens caminhando de forma flutuante, entre outras aberrações visuais.

Decepção é o que melhor define

Parcialmente, acho justo dizer que a culpa também é minha por elevar demais minhas expectativas com Remothered. Mesmo assim, é claro a falta extrema de cuidado presente em Remothered: Broken Porcelain. A trilogia possui uma proposta interessante no quesito história, mas o desenvolvedor parece ter se apegado ao estilo repetitivo e maçante de gameplay criado para a trilogia, e isso fica mais óbvio com a retirada de puzzles interessantes que existiam em Tormented Fathers. Depois de ter experienciado o segundo jogo da série, tenho sérias dúvidas se ainda quero saber o desfecho desse enredo como um todo. Remothered precisa urgentemente de uma mudança em sua forma de jogar, mas duvido muito que o terceiro jogo será um produto fruto do feedback de fãs e da crítica em geral. Se ainda quiser se arriscar, pelo menos fique longe da versão de Switch, que de longe é a pior em todos os sentidos. A de PC é visualmente bonita, mas não isenta Broken Porcelain de tantos problemas.

Esta review foi feita com uma cópia de Switch cedida pelos produtores

Revisão: Bia Bock

Remothered Broken Porcelain

3

Nota final

3.0/10

Prós

  • História engaja decentemente
  • Personagens interessantes

Contras

  • Jogabilidade engessada e imprecisa
  • Bugs em excesso
  • Mais do mesmo
  • Poder de mariposa terrível
  • Remoção de bons puzzles