Uma tensa jornada de pesquisa cheia de reviravoltas se desenrola em South of the Circle, em meio a constantes flashbacks do protagonista, Peter. Trata-se de um romance dramático que se passa em 1964, capaz de manter vidrada qualquer pessoa.
O título foi lançado em 2021, inicialmente, apenas para o serviço de assinatura de jogos Apple Arcade, mas ganha seus ports agora para todas as plataformas atuais e de próxima geração, incluindo PC. Os consoles e computadores ganham, portanto, uma obra singular. Mas o que a torna tão especial?
Desenvolvimento: State of Play
Distribuição: 11 bit Studios
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: Livre
Português: Interface e Legendas
Plataformas: PC, PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series, iOS, Switch
Iniciativas científicas

Antártida, 1964. Você se depara com um avião caído no meio da neve em meio a uma tempestade. Tudo está branco e, ao seu redor, há apenas um grande vazio branco e nevado. Peter Hamilton, o protagonista, desperta ao lado do piloto, Floyd. Desesperado, ele o acorda e ambos se dão conta de onde estão, e Floyd sente a dor de uma das suas pernas quebrada entre os pedais do pequeno monomotor. Dada a situação perigosa, Peter precisa seguir a pé em direção a uma luz vermelha piscante no horizonte e, a partir daí, terá de ser extremamente resiliente.
Passando por bases de diversos países, Peter encontra mistérios inesperados e vai perdendo seu fôlego, à medida que perde as esperanças de sair desse inóspito continente de gelo. É difícil contar mais a respeito dessa magnífica história sem entrar em spoilers, mas é importante situá-la: se passa nos anos de 1960, em meio a tensões geopolíticas da Guerra Fria (quando os blocos capitalista e comunista do mundo se rivalizam em decisões políticas e militares pós-Segunda Guerra Mundial, mas nunca entraram em conflito direto, explicando de modo resumido e grosseiro), e a premissa de Peter é a de estar naquele continente para fazer pesquisas climáticas, que é o objeto de seu estudo acadêmico.

A história toda também é contada via flashbacks de cenas do passado remoto ou próximo de Peter, o que costura pouco a pouco a narrativa central e a deixa cada vez mais encantadora e instigante, além da direção de arte jogar sempre a favor dessa forma de narrativa.
Na Universidade de Cambridge, onde Peter leciona, se desenrolam diversos diálogos entre diversos personagens importantes. Peter é constantemente cobrado por seu professor superior a respeito de um artigo e convive com bloqueios mentais, mas que logo são quebrados por Clara, uma encantadora jovem estudante de Edimburgo, quando a conhece numa viagem de trem e, tão logo, ficam próximos no ambiente acadêmico. Ambientes hostis e confortáveis são trocados em cenas quase sem cortes o tempo inteiro por uma maravilhosa direção de arte, baseando aspectos da personalidade de certos personagens ou explicando os porquês da situação presente.
Mecanicamente, o jogo é interessante e extremamente simples: se conversa com outros personagens apenas reagindo com comportamentos humanos previstos nas falas, então cada reação é distribuída para cada botão do controle (no caso do Switch, Y, X ou A), sendo ela de pânico/preocupação, carinho/honestidade, assertividade/intensidade, interesse/curiosidade ou negatividade/timidez. Ele ainda conta com ações contextuais nos cenários e momentos de decisão, mas não ramifica a narrativa central em momento algum, se diferenciando dos títulos da DON’T NOD e da Telltale. É possível fazer 2 finais diferentes, aliás, mas apenas fazendo uma escolha mínima, muito próxima do final.
Dados esses importantes planos de fundo, Peter e Floyd precisam sair do Polo Sul e rápido, mas encontram diversos problemas no caminho e em bases britânicas, norueguesas e soviéticas. Essa narrativa é sustentada perfeitamente por gráficos meio cartunizados e sem traços, mas que não deixam perder nem um pouco das expressões corporais e faciais, representando a atuação ímpar – na dublagem – do brilhante elenco do jogo como Gwilym Lee, Olivia Vinall, Richard Goulding e Anton Lesser.
O despertar

South of the Circle pode ser bastante simples em jogabilidade e mecânicas, mas é um feito e tanto para jogos do gênero. Seu poder de narrativa com personagens muito bem elaborados e aprofundados, direção de arte e estética gráfica surpreendem do início ao final. Em outras palavras, ele contribui enormemente para o gênero de jogos. Todo diálogo nele construído corrobora na construção de uma narrativa intensa e tão instigante, tornando-o ágil, carregado de sentido e bastante criativo, que é algo raro de se encontrar nos videogames.
A cronologia tangencia a Guerra Fria de forma muito interessante e inteligente, provocando grande reflexão e até a conscientização ao tocar pontos importantes contemporâneos, sem sutilezas ou agressividade, como manifestações públicas, relações trabalhistas, direitos humanos, posicionamento político, preconceitos estruturais da sociedade que se formam a partir de políticas autoritárias, entre outros. Um exemplo claro disso é um protesto pacífico pró-desarmamento nuclear das potências mundiais, em que está participando uma amiga de Clara, a Molly.

Em vários e muito bem posicionados flashbacks, se constrói pouco a pouco a narrativa principal, a qual se passa no presente (1964). Com isso, South of the Circle cria uma linha de raciocínio extremamente coerente para criar uma história sem igual, a qual é experienciada em fragmentos diferentes entre si nessa produção da linha cronológica, coberta por uma trilha sonora contextual muito surpreendente, composta por Piotr Musiał e Ed Critchley.
A trama envolve e cativa gradualmente, não demorando nem um pouco. Em poucos minutos de jogo, é possível criar bastante interesse por ele e, quando você se der conta, as pouco mais de três horas de duração que ele tem já se passaram. E muito suavemente, essa obra-prima toca em diversos sentimentos, entregando personagens profundamente desenvolvidos ao longo da sua narrativa, capazes de dialogar muito profundamente com quem está jogando.
A conexão

É difícil pensar em jogos tão tocantes quanto South of the Circle. Talvez obras como essa sejam produzidas de tempos em tempos e, agora que ele chega aos consoles e PC, saber que estará mais acessível é de aquecer o coração. Sua mensagem, embutida nessa obra-prima de pouco mais de 3 horas, é importantíssima para refletirmos sobre o passado, o presente e o futuro, tocando em geopolíticas épicas e temas sensíveis sem ser muito agressivo, e evidenciando como a humanidade pode ser fragilizada (ou simplesmente estúpida) quando submissa a políticas alienantes e/ou extremistas. Para a atualidade, em que a desinformação e a cultura do ódio se disseminam, vejo essa obra como um produto bastante indispensável a todos.
A distribuidora tem postado alguns conteúdos extras, focando nos expoentes artísticos do jogo: entrevistas com as grandes estrelas da TV e do cinema citadas anteriormente. Mesmo se destacando, ele ainda tem questões pequenas a serem resolvidas, como o movimento um pouco travado e com delay do protagonista pelos cenários e a ausência de avisos de gatilho ao abordarem temas mais sensíveis.
De todo modo, diria que South of the Circle não deve passar despercebido, dentre tantos outros bons jogos, em 2022. Nessa empreitada, tanto a 11 bit Studios quanto a State of Play apostaram extremamente alto – e acertaram em cheio – com diversos fatores magníficos dentro de um só jogo, o que o torna difícil de ser descrito, inclusive. Por isso, apenas jogue e sinta a emoção de ter um coração bem aquecido por muita tensão, aventura e amor nessa incrível narrativa, a ponto de derreter qualquer gelo ao seu redor.
Cópia de Switch cedida pelos produtores
Revisão: Jason Ming Hong