Quando os talentos responsáveis por jogos aclamados se reúnem para formar um novo estúdio, o mundo dos games inevitavelmente para e presta atenção. A Rebel Wolves, desenvolvedora composta por ex-integrantes da equipe de The Witcher 3: Wild Hunt, entregou sua aguardada obra de estreia sob a publicação da Bandai Namco. The Blood of Dawnwalker é uma aposta imensa no saturado gênero de RPGs de ação em mundo aberto. Transportando o jogador para uma Europa do século XIV devastada pela Peste Negra e mergulhada no desespero, o título se consolida como uma experiência incrivelmente atmosférica e mecânicamente ousada.
Desenvolvimento: Rebel Wolves
Distribuição: Bandai Namco
Jogadores: 1 (local)
Gênero: RPG
Classificação: 18 anos (violência extrema, jogos de azar, conteúdo sexual)
Português: Interface e Legendas
Plataformas: Xbox Series X|S, PC, PS5
Duração: 15 horas (campanha)/50 horas (100%)
Entre a luz e as trevas

Coen, amaldiçoado a manter sua essência humana durante o dia, e forçado a assumir uma forma vampírica ao cair da noite. A força motriz da história é a extrema urgência: uma corte de vampiros aproveitou o enfraquecimento da humanidade durante a peste para tomar o controle de um vale nas montanhas Cárpatos no leste Europeu, e você tem um limite de tempo restrito para salvar sua família dessas criaturas.
O que faz a narrativa brilhar é o respeito pela agência do jogador. Não há uma linha narrativa clássica e engessada, pois o desenrolar da trama depende inteiramente das missões que você escolhe realizar e de quem você decide abandonar. A genialidade estrutural se destaca caso você falhe no resgate: em vez de punir o jogador com uma tela de “Game Over”, o jogo sofre uma mutação orgânica, transformando a jornada principal em uma implacável história de vingança contra seu mestre vampiro. O peso das escolhas aqui é real e palpável.

A mecânica de passagem do tempo é o grande diferencial de Dawnwalker e molda cada minuto da sua jogatina. O jogador possui exatos 30 dias e noites para alcançar seu objetivo principal, sendo cada dia fracionado em oito segmentos de tempo. Aceitar missões cruciais, prosseguir na história ou até mesmo o simples ato de subir de nível consomem ativamente esses segmentos.
Essa pressão constante garante que não seja possível ver tudo ou ajudar todos os NPCs em uma única campanha, fazendo com que o jogador tenha que rejogar tomando diferentes escolhas e missões que não completou anteriormente. O mapa não é um parque de diversões passivo, porque a ampulheta que precede cada atividade obriga o jogador a analisar friamente o custo-benefício de suas ações heróicas. Felizmente, a exploração pura do cenário não drena o relógio, permitindo que o mundo seja apreciado e vasculhado sem penalidades abusivas
A balança do combate

Os controles e a jogabilidade são divididos pela própria maldição do protagonista. Sob a luz do sol, Coen é um espadachim que utiliza magia rúnica. O combate humano é cadenciado e exige posicionamento, focado em ataques e bloqueios baseados em direções específicas.
À noite, a experiência é subvertida. Sem o uso de armas, o combate foca na brutalidade de presas e garras, e Coen adquire uma agilidade sobrenatural. Sua mobilidade noturna é fantástica: o jogador ganha o poder de rastejar por paredes e tetos ou se teletransportar a curtas distâncias. Isso destrava um design de níveis vertical maravilhoso e permite abordagens furtivas que simplesmente não existem durante o período diurno. Contudo, dominar a transição constante entre essas duas mecânicas tão distintas exige uma adaptação árdua. Embora existindo essas habilidades vampíricas, o jogo peca pela ausência de uma mecânica de furtividade propriamente dita.

Visivelmente, a Rebel Wolves extraiu um desempenho belíssimo da Unreal Engine 5. Os cenários construídos à mão apresentam florestas exuberantes, ruínas místicas e aldeias medievais lamacentas com um grau absurdo de realismo.
O design sonoro reforça a desolação da praga. As vozes ecoam a desesperança da população e a trilha sonora se divide com o ciclo diário: melodias instrumentais pesadas com arranjos de época durante a tarde dão lugar a cordas estridentes e composições frenéticas quando os vampiros dominam as madrugadas, elevando a tensão das lutas.
De bruxo a vampiro

Tamanha ambição cobra seu preço, e o calcanhar de Aquiles do jogo reside no seu polimento técnico e em pequenos deslizes no game design. Bugs existem e podem ser punitivos, personagens travam na geometria do terreno e há instantes frustrantes onde é impossível sacar sua arma antes de sofrer dano fatal. Além disso, o sistema de trava de mira é confuso e tende a prejudicar o jogador quando cercado.
Uma outra falha severa é que alguns inimigos frequentemente se comportam como “esponjas de dano”, fazendo com que alguns embates se arrastem artificialmente em vez de exigir táticas novas. Pior do que isso é a ausência total de armas de longo alcance para o jogador, como bestas, arcos ou bombas. Caso um inimigo fique preso em um declive atacando a distância, Coen torna-se indefeso. Por fim, o sistema de progressão da árvore de talentos peca por grande parte das habilidades serem incrementos numéricos rasos (por exemplo, “maior dano”), com uma divisão rígida entre os estilos de dia e de noite. O jogo perde a chance de introduzir mecânicas que incentivassem uma fluidez e sinergia entre as duas naturezas do protagonista.
Ao jogar Dawnwalker, as inspirações ficam evidentes. O peso atmosférico e a maturidade moral das missões invocam os melhores dias de The Witcher 3. O combate direcional aproxima-se do sistema de Kingdom Come: Deliverance. A maior semelhança, contudo, é com Lightning Returns: Final Fantasy XIII e The Legend of Zelda: Majora’s Mask. A urgência e o gerenciamento de tempo elevam a experiência de exploração a algo muito além da complacência típica de mundos abertos contemporâneos, porém aqui o tempo é muito mais parecido com uma moeda de troca em que você decide com o que gastar, ao invés de ser algo ao que você luta contra.
Vale o seu tempo?
A obra de estreia da Rebel Wolves é um lembrete fascinante de que a ambição, por vezes, supera a execução. Mesmo com os tropeços técnicos evidentes, o título conquista pela extrema audácia de suas mecânicas. The Blood of Dawnwalker desafia a norma de mundos abertos passivos, entregando uma experiência densa que passa longe da proposta de ir apenas jogando casualmente para relaxar no fim do dia. O peso do relógio de 30 dias e a mutabilidade da narrativa exigem dedicação constante e um planejamento estratégico que recompensam o jogador investido. A atmosfera imersiva de uma Europa devastada e a brilhante dualidade entre o espadachim diurno e o predador noturno compensam as frustrações. É uma jornada inegavelmente imperfeita, mas essencial para quem busca um RPG sombrio e maduro, onde as consequências das próprias falhas não resultam em uma tela de fim de jogo, mas sim no verdadeiro motor da história.
Cópia de Xbox Series X|S cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




