Capa de Resident Evil Requiem

Review Resident Evil Requiem (PC) – Ação e terror, juntos e misturados

A Capcom tenta há tempos criar um Resident Evil que agrade a todos os fãs da franquia. São 30 anos de história, com várias fórmulas, jogabilidades e estruturas distintas, então é normal que nem todos gostem de tudo o que a desenvolvedora já fez durante todo esse tempo. Mas com Resident Evil Requiem, o nono título principal da saga, a sensação é a de que os responsáveis finalmente acertaram de vez nesse objetivo, simplesmente porque combinaram dois jogos quase totalmente diferentes em um só — e com um sucesso surpreendente, ainda que com algumas falhas.

Desenvolvimento: Capcom

Distribuição: Capcom

Jogadores: 1 (local)

Gênero: Terror, Tiro

Classificação: 18 anos (violência extrema, linguagem imprópria)

Português: Dublagem, interface e legendas

Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S, Switch 2

Duração: 15 horas (campanha)

Voltando ao pesadelo

Grace em Resident Evil Requiem

É difícil falar sobre Requiem sem lembrar dos acontecimentos de Resident Evil 3. Se nas duas versões de RE3 a conclusão que temos é a de que Raccoon City foi sumariamente apagada do mapa com uma bomba, em Requiem descobrimos que não foi bem isso que aconteceu — muito pelo contrário. Os eventos começam quando Grace Ashcroft, uma agente do FBI, recebe a missão de investigar uma morte suspeita ligada a uma doença que vem se manifestando em pessoas que sobreviveram ao incidente de 1998, justamente no hotel onde sua mãe, Alyssa, foi assassinada. Curiosamente, é onde Leon Scott Kennedy, trabalhando como agente da DSO (Divisão de Operações Especiais), está para averiguar a mesma situação, porque ele também está doente.

Logo, os dois protagonistas rapidamente se veem em um novo pesadelo. Afinal, a explosão em Raccoon foi falsificada, e a cidade agiu nos últimos 28 anos como uma central global de produção e tráfico de armas biológicas. O epicentro de toda a situação é a Elpis, um vírus supostamente criado para controle mental, no qual Grace é a chave para o sucesso de uma operação orquestrada por Oswell E. Spencer, um dos fundadores da Umbrella — mostrado aqui como um eugenista, mas agora com remorso de suas próprias ações.

Gameplay de Resident Evil Requiem

Portanto, temos uma campanha em que os dois protagonistas alternam suas posições de protagonismo ao longo do tempo, em diversos segmentos. É uma estrutura similar à dos dois games da sub-série Revelations, porque sempre há um baita gancho antes de cada troca de protagonista. A trama, no geral, é dinâmica e funciona, ainda que nem todos os seus aspectos, principalmente os relacionados à cidade de Raccoon, tenham sido devidamente desenvolvidos e bem trabalhados. Vários personagens clássicos que sobreviveram aos eventos de 1998 e estariam com a mesma doença de Leon deveriam ter sido no mínimo mencionados, mas estão ausentes de Requiem.

Uma proposta inusitada que funcionou

Licker em Resident Evil Requiem

Resident Evil Requiem, de certa forma, apresenta dois jogos diferentes em um só. São duas filosofias distintas de como a jogabilidade de um Resident deve funcionar se comportando perfeitamente juntas e mudando conforme cada personagem jogável. Grace é medrosa e ansiosa, com um notável pânico diante de todo o terror que vive, e isso é refletido em sua gameplay, que é mais cadenciada e focada na luta contra stalkers e na solução de puzzles, usando o mesmo sistema de inventário do primeiro jogo e dos outros que adotaram essa visão purista, que exige muito gerenciamento de itens.

Leon, por sua vez, é o Leon. Com uma jogabilidade construída em cima do trabalho feito no remake de Resident Evil 4, o agente tem um arsenal em sua maleta e não só pode, como deve, atirar, chutar e matar tudo que vê pela frente — com a opção de usar uma machadinha ou até de pegar itens do chão para usar contra os zumbis, incluindo motosserras. É um balanceamento entre terror e ação inusitado que resulta em um jogo divertido e alucinante, ainda que cada personagem suma por um tempo, já que cada um tem sua seção principal isolada entre os momentos de interação.

Leon numa moto em Resident Evil Requiem

Grace, aos poucos, vai se tornando uma heroína mais confiante em suas ações, enquanto Leon é um sujeito mais sério em Requiem do que em qualquer outro jogo da série — mas que, claro, não deixa de soltar piadas bregas e participar de cenas absurdas em toda oportunidade que tem. Não à toa, cada personagem tem seu próprio sistema de câmera, ideal para as situações que cada um enfrenta. Por padrão, uma visão em primeira pessoa é usada para Grace, se assemelhando ao RE7, enquanto Leon tem uma câmera sobre os ombros, igual à do RE4, mas há liberdade para escolher como jogar. As partes de Leon com a câmera em primeira pessoa chegam a lembrar games como Dead Island, e as fases com Grace em terceira pessoa parecem o remake de Resident Evil 2.

Quase tecnicamente impecável

Grace Ashcroft

A apresentação de Resident Evil Requiem é, sem dúvidas, a melhor de toda a franquia, visto que o game é uma experiência cinematográfica. O lado sonoro é impressionante, seja com uma soundbar ou um fone de ouvido, e a versão em português é sensacional e combina com as vozes originais — que também dão um show à parte, principalmente nas cenas mais pesadas da trama. Na versão deluxe, é possível alterar os efeitos sonoros para os dos primeiros jogos, que acabam combinando ainda mais com o título, que tem várias faixas clássicas remixadas marcando presença também na configuração normal, como o tema da sala de salvamento do RE2, por exemplo.

Embora constantes, as cutscenes não atrapalham o ritmo da jogabilidade e contam com uma fotografia e composição espetaculares, que realçam a boa direção artística do jogo — que faz um ótimo uso de técnicas de ray tracing, essenciais para a construção do visual do título. O traçado de raios, junto com uma tecnologia de fios de cabelo individuais da RE Engine, resulta em gráficos excelentes, para todos os personagens e cenários, ainda que haja um pequeno pop-in nos reflexos causado pelo carregamento dos raios traçados.

Raccoon City

A versão para PC está dentro dos padrões de qualidade usuais da franquia e, dessa vez, foi lançada sem nenhum esquema antipirataria que prejudica o desempenho. Há uma quantidade alta de opções e uma boa otimização que garante que o game seja compatível com um grande número de configurações. Porém, alguns mapas são mais pesados do que outros. As partes fechadas rodam de um jeito, e as seções nas ruínas de Raccoon de outro, por serem um mapa mais aberto. Pelo menos, isso não chega a ser um problema, porque os desenvolvedores implementaram suporte a várias técnicas de upscaling, junto com compatibilidade com geração de quadros, que garantem uma performance satisfatória a todo instante.

Algumas ideias não deram certo

Leon lutando contra inimigo em Resident Evil Requiem

A campanha dura cerca de 15 horas na primeira jogatina e é uma experiência cativante, apesar de Requiem mesclar sua originalidade com uma escoração no passado numa escala jamais vista antes na série. Isso funciona em certos momentos, como nos chefes dos três primeiros games da saga que retornam neste novo título, mas, em outros, causa somente preguiça.

Um exemplo é Zeno, um dos antagonistas, que é um clone de Albert Wesker, que foi jogado em um vulcão nos eventos do quinto game da série. É quando os desenvolvedores fazem referências só por fazer, sem realmente se aprofundar em aspecto algum delas — tanto que o jogador mal tem a oportunidade de também matar essa cópia. Além disso, as fases com Grace têm uma presença exagerada de perseguidores, a ponto de deixarem de causar tensão e, depois de um tempo, serem  irritantes acima de tudo.

Inimigo em Resident Evil Requiem

Um detalhe que chama a atenção é que dessa vez, é visível como cada zumbi que aparece nas seções de Grace já foi alguém que teve sua própria personalidade, porque acabam apresentando traços do que faziam antes de serem transformados. Esse enfoque em inimigos que são prontamente mortos assim que aparecem na tela é inédito em um Resident Evil e contribui muito para a criação de uma atmosfera única, com uma profundidade raríssima para a franquia e que, com certeza, precisa ser repetida nos títulos subsequentes.

Imperdível

Ambicioso e grandioso, Resident Evil Requiem é o ápice de toda a era RE Engine da franquia, iniciada em 2017. É fascinante como o game reúne todos os acertos dos jogos recentes em um só pacote, que impressiona pelo feito incrível de ter colocado em prática, com sucesso, uma ideia insana como a de reunir dois jogos diferentes em um só. Nem tudo é perfeitamente balanceado e, em vários momentos, os desenvolvedores pesaram a mão na nostalgia sem explorá-la de uma maneira interessante, mas esse é certamente um Resident Evil inesquecível.

Cópia de PC adquirida pelo autor

Revisão: Jason Ming Hong

Resident Evil Requiem

9.5

Nota Final

9.5/10

Prós

  • Boa jogabilidade
  • Combinação inusitada deu certo
  • História legal

Contras

  • Referência ao Wesker não funcionou
  • Excesso de stalkers com Grace