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Review Warhammer Classics (PC) – O Martelo atravessa as eras

No universo de Warhammer, o passado nunca morre, ele apenas espera pelo “ritual de ressurreição” adequado. Em abril de 2026, a SNEG Games lançou a coletânea Warhammer Classics, um esforço ambicioso para resgatar títulos que definiram o gênero de estratégia e ação muito antes do ray tracing se tornar o padrão da indústria.

Desenvolvimento: Vários
Distribuição: SNEG Games
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Estratégia, RPG, Tiro
Classificação: 12 anos (violência)
Português: Não
Plataformas: PC
Duração: Sem registros

Uma crônica da coletânea Warhammer Classics

Rites of War, jogue com os Eldar, os elfos espaciais de Warhammer.

A história dos videogames está repleta de heróis esquecidos e impérios enterrados sob o peso de sistemas operacionais obsoletos e resoluções que hoje parecem impressões digitais em uma tela de cinema. Para os fãs de Warhammer, essa dor era particularmente aguda. Títulos que definiram o gênero de estratégia e tática nos anos 90 e início dos 2000 estavam, até então, relegados a sites de abandonware ou versões de compatibilidade duvidosa.

Em abril de 2026, a SNEG Games, companhia formada por ex-membros da GOG, em uma colaboração quase divina com a Games Workshop, lançou a Warhammer Classics. Mais do que um simples pacote de jogos, esta iniciativa é um manifesto de preservação. Com mais de 20 títulos que abrangem desde o RPG tático até o tiro em primeira pessoa, a coletânea não apenas “roda” em sistemas modernos, como faz com que esses clássicos respirem novamente. Para essa review, recebemos um pacote com 10 dos jogos disponíveis na coletânea.

Mark of Chaos, os primórdios do que Total War implementaria.

A apresentação da coletânea é, em si, um deleite para o fã de Warhammer de longa data. A SNEG não apenas jogou os arquivos no Steam, pois houve um cuidado meticuloso na curadoria. O destaque imediato vai para os “Sete Magníficos”. que fazem sua estreia digital oficial: Shadow of the Horned Rat, Final Liberation, Chaos Gate (o original de 1998), Rites of War, Dark Omen, Fire Warrior e Mark of Chaos.

Para quem busca conteúdo denso, a coletânea é um poço sem fundo. Ao contrário de remasters modernos que costumam simplificar mecânicas para “atrair novos públicos”, a SNEG manteve o DNA intacto. Isso significa que a brutalidade e a complexidade que tornaram esses jogos lendários estão presentes, mas agora sem o trauma de ver o jogo travar ao minimizar a janela ou tentar configurar um monitor ultrawide.

Onde a estratégia encontra a tortura

Shadow of the Horned Rat um dos jogos mais complexos de estratégia do passado.

Falar da jogabilidade de Warhammer Classics é falar de uma era em que os manuais tinham 200 páginas e o jogador era punido severamente por cada erro. Em Shadow of the Horned Rat e seu sucessor espiritual Dark Omen, encontramos a gênese do que muitos hoje conhecem através da franquia Total War. O gerenciamento de unidades em tempo real, com foco em moral, terreno e flanqueamento, continua soberbo. A mecânica de “exército persistente”, onde as perdas em uma batalha afetam diretamente sua capacidade de vencer a próxima, cria um senso de urgência que falta em muitos títulos contemporâneos.

Já em Warhammer 40,000: Chaos Gate, as mecânicas de turno mostram por que ele foi o precursor espiritual de XCOM. A gestão de pontos de ação e a personalização dos Ultramarines oferecem uma profundidade tática que ainda desafia os padrões de 2026. A SNEG implementou melhorias na estabilidade e na resolução do combate que transformam a experiência outrora truncada em algo fluido, sem perder a cadência deliberada e tensa de cada turno.

Chaos Gate trouxe mecânicas que mais tarde fariam sucesso em XCOM.

Um dos maiores desafios de trazer jogos dos anos 90 para 2026 são os controles. Muitos desses títulos foram desenhados para uma era antes da padronização do “WASD” e da câmera livre.

A coletânea faz um trabalho sólido ao permitir o remapeamento de teclas e, em alguns casos, oferecer suporte a controles modernos via Steam Input. No entanto, é aqui que os jogadores mais novos sentirão o maior choque. Jogos como Shadow of the Horned Rat possuem uma curva de aprendizado íngreme no que diz respeito à interface. A SNEG optou por não alterar o design original da UI para preservar a experiência, uma decisão que aplaudo pelo purismo, mas que pode afastar os menos persistentes.

A beleza no grotesco

Man'o'War: Corsair copiou elementos de Assassin's Creed Black Flag.

Nem tudo é glória no campo de batalha. Algumas decisões de design originais permanecem frustrantes. A dificuldade de Shadow of the Horned Rat é, francamente, injusta em certos pontos. O jogo não explica suas mecânicas de forma clara, e o jogador pode se encontrar em um “soft lock” (impossibilidade de progredir) simplesmente por ter gasto ouro demais, reforçando uma unidade que morre no primeiro segundo da missão seguinte.

Em Fire Warrior, o design de níveis é linear ao extremo e a inteligência artificial dos inimigos é risível para os padrões de hoje. Embora seja divertido como curiosidade histórica, como FPS ele fica muito atrás de contemporâneos daquela época como Halo ou Half-Life.

Além disso, a ausência de um launcher unificado que permitisse transitar entre os jogos de forma integrada é uma oportunidade perdida. Você ainda precisa lançar cada executável individualmente, o que tira um pouco da sensação de “coleção coesa”.

Uma vitória tática para a preservação

Warhammer Classics é uma carta de amor aos tempos em que os jogos eram arriscados, complexos e, muitas vezes, esquisitos. A SNEG Games fez o que muitas empresas maiores falham em fazer: respeitar o material original enquanto fornece as ferramentas necessárias para que ele funcione no hardware de hoje. Para os veteranos, é o retorno ao lar. Para os novatos criados com Space Marine 2 e Darktide, é um batismo de fogo nas fundações que construíram o que o hobby é hoje. A relação custo-benefício, especialmente com os descontos de lançamento, é imbatível. É um pacote obrigatório para qualquer fã de estratégia e uma peça essencial na biblioteca de quem valoriza a história dos games e da franquia.

Cópia de PC cedida pelos produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

Warhammer Classics

9

Nota Final

9.0/10

Prós

  • Preservação técnica impecável de títulos que estavam "perdidos"
  • Melhorias sutis, mas vitais, em resolução e estabilidade
  • Variedade imensa de gêneros e estilos de jogo

Contras

  • Curva de dificuldade punitiva em alguns títulos
  • Interface de usuário de alguns jogos continua obtusa para padrões modernos
  • Falta de um sistema de integração maior entre os títulos da coleção