Quem já passou por um consultório conhece a consulta de retorno. Você volta com os exames na mão, o médico confere se o tratamento funcionou e, se o prazo não estourou, nem cobra de novo. Two Point Hospital: Full Health Collection é uma consulta dessas. Seis anos depois de estrear no primeiro Switch, o simulador de hospital da Two Point Studios volta ao consultório da Nintendo, agora no Switch 2, com todas as expansões lançadas desde 2018 no prontuário, inclusive três que nunca tinham saído do PC.
Para quem chegou agora, Two Point Hospital é o herdeiro espiritual de Theme Hospital, clássico de 1997 da Bullfrog, e o parentesco não é coincidência. O estúdio foi fundado em 2016 por Mark Webley e Gary Carr, que trabalharam naquele jogo como produtor e artista principal, respectivamente. O game saiu no PC em 2018, chegou aos consoles em 2020 e passou por aqui pelas mãos do colega Jason Ming Hong, que deu 9,5 para a versão de Switch. Eu já tinha jogado no PC, onde ele é excelente, e cheguei a esta versão com uma curiosidade bem específica. Será que o paciente voltou melhor do que saiu?
Desenvolvimento: Two Point Studios
Distribuição: SEGA
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Simulação
Classificação: 10 anos (violência)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, Switch 2, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 37,5 horas (campanha)/127 horas (100%)
Cabeça de lâmpada, alma de clássico

A base continua a mesma de sempre. Assumimos a direção de hospitais espalhados pelo condado de Two Point, construímos consultórios, salas de diagnóstico e de tratamento, contratamos médicos, enfermeiros, assistentes e zeladores, e tentamos manter a engrenagem girando sem que as filas virem um caos ou o caixa afunde no vermelho. Cada hospital tem metas próprias e uma avaliação de até três estrelas, mas basta uma para liberar o mapa seguinte, e dá para voltar depois atrás das outras. Sempre achei esse o pulo do gato da série, porque tira a pressão de acertar tudo de primeira e deixa cada um evoluir no próprio ritmo.
O que separa Two Point Hospital da concorrência, porém, é o humor. As doenças são todas inventadas e quase sempre ridículas, como o Clarão na Cuca, que troca a cabeça do paciente por uma lâmpada (o tratamento, claro, é desatarraxar e encaixar uma cabeça nova), ou o Cubismo, que deixa a pessoa quadrada no sentido literal. Muitas pedem uma máquina própria, com animações que continuam engraçadas na centésima vez, e o hospital inteiro funciona como uma piada contínua, dos funcionários que reclamam de tudo aos pacientes que vomitam no corredor bem na sua frente. Por baixo do besteirol, no entanto, mora um simulador de gestão sério, que cobra planejamento de espaço e controle de gastos, e que aperta bastante da metade da campanha para o fim.
E aqui a coleção se justifica. O pacote reúne o jogo base, as sete expansões lançadas entre 2018 e 2022 e uma penca de pacotes de itens e fantasias, num total de 36 hospitais. Quatro dessas expansões (Bigfoot, Pebberley Island, Close Encounters e Off the Grid) já tinham passado pelo primeiro Switch, enquanto Culture Shock, A Stitch in Time e Speedy Recovery estreiam em console agora. Na prática, quem jogou a versão antiga ganha nove hospitais e mais de 80 doenças inéditas.

Inclusive, essas novas expansões não economizam na criatividade. A Stitch in Time abre fendas no tempo e leva a gestão a uma cidade medieval, a um povoado pré-histórico e a uma metrópole futurista nas nuvens, com pacientes de todas as épocas dividindo a mesma sala de espera. Culture Shock transforma o condado num polo artístico em crise, com hospitais num estúdio de cinema, num festival de música ao ar livre e numa academia de artes metida a besta. Speedy Recovery é a que mais mexe na rotina, porque põe ambulâncias (das mais absurdas, de carrinho de brinquedo para cima) para disputar pacientes com hospitais rivais pelo mapa, e cada médico que sai para uma ocorrência é um a menos atendendo lá dentro.
Outra boa notícia está no idioma. Em 2020, a falta de português era o principal contra da nossa análise, e hoje o jogo vem com interface e legendas em português do Brasil, numa tradução que pegou o espírito da coisa (o Clarão na Cuca não me deixa mentir). Só não tem dublagem, então parte do humor falado, como os avisos do sistema de som do hospital, continua dependendo do inglês.
Plantão de bolso

Se o conteúdo é o mesmo do PC, o que muda no Switch 2 é a forma de jogar, e é aí que o port mostra serviço. Os controles são o grande trunfo, e não é de hoje. A adaptação de 2020 agradou tanto que a versão de Switch fechou com média 85 no Metacritic, dois pontos acima da de PC, e aquele mapeamento continua de pé. Um analógico cuida do cursor, o outro da câmera, os botões de ombro dão zoom e passeiam por abas e listas, e boa parte dos menus dá para navegar direto pelo direcional. Em uns quinze minutos, a mão já vai sozinha. Construir uma sala, arrastar um móvel, pegar um zelador pelo colarinho e largá-lo na frente de uma poça de vômito, tudo acontece sem aquela briga com o controle que costuma acompanhar jogos de gerenciamento fora do PC.
É justamente por isso que o modo portátil funciona tão bem. Como cada função está a um ou dois botões de distância, jogar longe da dock é tão confortável quanto na TV, e eu diria até que combina mais com o ritmo do jogo. Two Point Hospital é daqueles de “só mais um mês” (o tempo corre num calendário, com premiação no fim de cada ano), e ter isso à mão, debaixo do lençol, é um perigo para quem acorda cedo. Entendo quem, vindo de Two Point Museum, ache alguns menus datados (a série evoluiu bastante de lá para cá), mas o básico está tão bem amarrado que isso nunca me incomodou.

A imagem também deu um salto. A SEGA não divulgou números oficiais de resolução, mas nem precisa de lupa para notar que tudo está bem mais nítido que no primeiro Switch, na TV e no portátil, e o traço cartunesco da Two Point segue charmoso oito anos depois. Os hospitais têm aquela cara de casinha de boneca, cheia de detalhes pelos cantos, que dá vontade de parar só para acompanhar os pacientes zanzando de um lado para o outro.
E roda bem. No primeiro Switch, os hospitais maiores faziam o console suar e a imagem engasgar, e no Switch 2 isso praticamente deixou de ser problema. Os carregamentos, que testavam a paciência na versão antiga, encolheram bastante, e o site eShopper Reviews chegou a cronometrar a entrada num hospital, que caiu de 1min06s no Switch original para 19 segundos no novo console. Só tem um porém técnico. A versão saiu sem limite de quadros, o que faz a fluidez oscilar quando o hospital lota, e a Two Point já anunciou um patch que trava o jogo em 30 fps no Switch 2 em nome da estabilidade. No papel, parece um rebaixamento, mas num simulador de gestão, constância vale mais que pico, e ninguém precisa de 60 quadros por segundo para ver um paciente com cabeça de lâmpada entrar na fila.
Efeitos colaterais

Com um controle desses, a pergunta que fica é por que a Two Point não foi além. Os Joy-Con 2 viram mouse quando deslizados numa superfície, e poucos gêneros pedem isso tanto quanto um simulador de gestão, em que passamos o tempo inteiro selecionando gente e arrastando coisas pela tela. A Full Health Collection, infelizmente, ignora esse recurso. O estúdio já passou por isso com Two Point Museum, que chegou ao console sem o modo mouse e ganhou o recurso por atualização em maio, então dá para ter esperança. Por enquanto, porém, não há nada anunciado.
O lançamento também veio com sua cota de bugs, tanto que a própria Two Point mantém uma lista pública dos problemas conhecidos. Ela inclui funcionários e pacientes que empacam no lugar sem motivo, avisos frequentes de funcionário perdido, lentidão no menu de equipe e personagens sem sombra (ironia das ironias, porque essa era justamente uma das limitações do primeiro Switch). Nada disso impede a progressão do jogo, mas uma fila parada na porta da sala de descanso irrita qualquer um que goste da operação redondinha. O mesmo patch que vai travar os quadros traz várias correções e saiu para PS5 e Xbox no dia 2 de outubro. No Switch 2, ele chega um pouco depois, porque a aprovação na Nintendo segue outro trâmite.

A importação de saves é outro ponto que poderia ser mais simples. Dá para trazer o progresso da versão original, mas o jogo só procura o save antigo na primeira vez em que a coleção é aberta, e o arquivo precisa estar guardado no próprio console (se estiver só na nuvem, nada feito). Perdeu essa janela? A saída é apagar o save novo para o jogo achar que está sendo aberto pela primeira vez. É mais burocrático que autorização de exame no convênio, e alguns jogadores ainda relataram que o jogo não carrega depois da importação, problema que também está na lista de correções.
Por fim, o bolso. A coleção custa R$169,90 na eShop brasileira, e quem tem a versão digital do jogo no primeiro Switch paga metade até o dia 14 de outubro, então, como em toda consulta de retorno, vale ficar de olho no prazo. Quem comprou em mídia física fica de fora do desconto. E por falar em mídia física, a edição de Switch 2 que chega às lojas em 6 de novembro é, segundo as listagens do varejo, um Game-Key Card, ou seja, o cartucho serve só de chave e o jogo precisa ser baixado inteiro. Para quem defende a mídia física como eu, é como sair do consultório com a receita e sem o remédio.
Alta com louvor
No fim, o diagnóstico que eu trazia do PC se confirmou no Switch 2. Two Point Hospital segue entre os simuladores de gestão mais divertidos que já joguei, e esta coleção é a forma mais completa de jogá-lo longe de um teclado. Para quem nunca encostou na série, não conheço porta de entrada melhor. Para quem já tem a versão do primeiro Switch, a decisão passa pelo interesse nas três expansões inéditas, e o desconto ajuda bastante nessa conta. Falta o modo mouse e a chegada das atualizações para o paciente ir para casa sem nenhuma recomendação médica. Mas o que se espera de uma consulta de retorno é que os exames venham melhores do que os da primeira vez, e vieram. Alta concedida, e com louvor.
Cópia de Switch 2 cedida pelos produtores.
Revisão: Julio Pinheiro




