A Game Freak, que está por trás de todos os jogos principais de Pokémon, está lançando agora o título mais diferenciado de sua história, sem relação alguma com a franquia de monstros de bolso ou até mesmo com a Nintendo. Publicado pela Fictions, antes conhecida como Private Division, Beast of Reincarnation chega para PC, PS5 e Xbox, sendo um RPG de ação que cativa com sua trama e jogabilidade, em meio a um mar de problemas técnicos que poderiam ter sido evitados.
Desenvolvimento: Game Freak
Distribuição: Fictions
Jogadores: 1 (local)
Gênero: RPG, Ação
Classificação: 14 anos (linguagem imprópria, violência)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 15 horas (campanha)
Eliminando uma grande ameaça

Beast of Reincarnation é uma produção da Game Freak, mas feita em um formato fora do comum para títulos AAA. Basicamente, o estúdio de Pokémon reuniu uma equipe pequena para cuidar de toda a parte criativa e supervisionar o desenvolvimento do projeto, cujo trabalho pesado ficou nas mãos de estúdios independentes que foram contratados para produzir cada parte do jogo. Isso explica uma distinção dramática em relação ao que o estúdio costuma apresentar normalmente, uma vez que seus jogos, que parecem ser defasados tecnicamente até perto dos outros títulos da Nintendo — esse RPG, por sua vez, foi feito na Unreal Engine e conta até com suporte ao ray tracing.
O RPG tem uma narrativa interessante, que se desenrola aos poucos e de forma não cronológica. Na campanha, jogamos com Emma, uma protagonista sem memórias e que não sabe nada sobre si mesma além da missão de ter que proteger o mundo em que vive de profanos e da aterrorizante Fera da Reencarnação.

No universo pós-apocalíptico do jogo, a vida foi corrompida por um fenômeno chamado pestilência, que deu origem aos mutantes que a personagem principal precisa eliminar e absorver o poder deles para se preparar para o grande confronto com a Fera. Emma é acompanhada por Ko, um lobo que é metade animal e metade planta, que foi encontrado abandonado por ela. Juntos, os dois entram numa jornada para lutar contra essas ameaças — ao longo da trama, a protagonista vai conversando com o lobo e tentando entender o que os latidos significam, pois ambos possuem suas próprias trajetórias pessoais que tornam a aventura engajante de se seguir em frente.
Combate rápido, mas simples

Beast of Reincarnation adota um combate em tempo real em um estilo hack ‘n’ slash semelhante a jogos como Sekiro: Shadows Die Twice, mas com a adição de uma mudança importante: Ko, o lobo, tem suas habilidades especiais que podem ser ativadas por meio de um sistema de turnos, parando a batalha para acertar um QTE que determinará o quão bem-sucedido será o ataque feito pelo companheiro de Emma. Esse é um RPG de ação, com várias possibilidades de build tanto de equipamentos para Emma quanto de habilidades para Ko, além de skills para melhorar e aprender.
No geral, Beast of Reincarnation apresenta um combate um pouco mais rápido, mas sem ser punitivo, estratégico com stamina ou focado só na eliminação de chefes — pelo contrário, já que o game se concentra na exploração dos cenários, com mecânicas relacionadas ao cabelo de Emma e às características de planta de Ko. Há várias opções de dificuldade, indo de um modo designado para curtir a história que deixa qualquer confronto muito fácil até um modo mais difícil, que vai exigir diversas tentativas para passar pelos grandes embates da aventura.

O jogo já vai direto ao ponto e mostra a que veio desde o primeiro instante. Beast of Reincarnation começando praticamente já com quase todas as mecânicas liberadas, sem nem sequer explicar como elas funcionam — algumas delas são básicas e comuns para o gênero, mas outras já são bem diferenciadas. É um ponto positivo, já que a gameplay nunca é limitada de forma arbitrária, mas é difícil entender como tudo funciona logo de primeira, ainda mais porque a explicação só vem no decorrer da campanha, depois de um bom tempo de jogo.
O parry, por exemplo, libera um especial para Emma que a permite parar o tempo por alguns breves instantes e rapidamente abordar o adversário de alguma outra maneira, enquanto o uso das habilidades de Ko é, de certa forma, condicionado ao desempenho do jogador nas batalhas. A jogabilidade só não evolui tanto durante a campanha, então o RPG não muda. Isso não chega a ser um grande problema, porque os desenvolvedores construíram um bom loop de gameplay, com exploração e combate satisfatórios o suficiente para carregar a experiência.
Tecnicamente decepcionante

Mesmo com todas as configurações no máximo e com o suporte para novas tecnologias, a versão de PC do RPG está em um estado abaixo do esperado para um título atual do gênero. A distância de renderização é baixa, sendo perceptível o surgimento de novos detalhes do cenário do nada, e as texturas não são bem detalhadas. Parte da direção artística em si é bastante marcante, como o design da protagonista e de seu companheiro, mas os visuais são totalmente prejudicados por uma falta de nitidez geral na imagem.
Tudo é muito embaçado independentemente da opção gráfica, a ponto de ser fora do normal e de ter claramente um problema técnico grave comprometendo a experiência — também não há compatibilidade nativa com o formato de tela ultrawide, sendo preciso utilizar mods para retirar as faixas pretas da tela e ter uma câmera mais aberta. O jogo tem uma visão fechada principalmente quando se usa a mira automática, atrapalhando bastante a movimentação de Emma pelos cenários. Há várias pequenas automações nesse quesito que servem como auxílio para a jogabilidade, mas como elas costumam envolver a câmera, é melhor jogar com elas desativadas para se ter mais liberdade na jogatina.

As cutscenes são estáticas e paradonas, sem muita cinematografia, focando mais nos personagens e nos diálogos mais expositivos, e algumas delas são excessivamente escuras, sem razão narrativa para isso — algumas fases também sofrem com esse mesmo problema, com zero visibilidade para os elementos dos cenários e inimigos. Por padrão, as cutscenes rodam numa taxa de 24 quadros por segundo, o padrão utilizado em filmes, mas pelo menos, há um modo de desempenho que coloca a mesma framerate do restante do jogo nas cenas.
O principal problema é o tamanho das legendas, que são minúsculas até na distância de tela de um monitor — na versão do Windows 11, os textos são frequentemente cobertos pelo indicativo de que um novo troféu do Xbox foi desbloqueado, porque certas conquistas são liberadas no meio das cenas. A qualidade sonora também decepciona, dado que todos os efeitos possuem áudios que soam distorcidos e comprimidos em um fone de ouvido. A Game Freak já prometeu atualizações para o futuro, então pode ser uma boa ideia esperar que o jogo melhore, porque há potencial aqui, pois nada foi exatamente lapidado para essa versão de lançamento.
Um acerto da Game Freak
Beast of Reincarnation tenta entregar algo grandioso, mas fica longe de alcançar suas próprias ambições — talvez porque essa é a primeira vez que a Game Freak está investindo em um grande título como esse, com um tempo de produção mais longo do que qualquer um dos Pokémon lançados recentemente. Contudo, mesmo considerando que esse não é um jogo perfeito, mas sim bastante limitado em seu lado técnico, o RPG apresenta uma experiência única que certamente merece muita atenção. Valeu a pena o estúdio ter saído de todas as zonas de conforto imagináveis e arriscado no investimento do game, mesmo sob um modelo que envolve a terceirização de quase todo o desenvolvimento dele para outras equipes.
Cópia adquirida pelo Xbox Game Pass
Revisão: Ailton Bueno




