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Revisitando Uncharted: The Nathan Drake Collection (PS4) – Um ótimo trabalho da saudosa Bluepoint Games

Com o fechamento do estúdio Bluepoint Games, que pegou muita gente de surpresa após entregar remakes e remasterizações excelentes, surgiu a ideia de revisitar um dos ótimos trabalhos deles: Uncharted The Nathan Drake Collection, uma coletânea quase impecável dos três primeiros jogos lançados originalmente para PlayStation 3. E rejogá-los em pleno 2026 é como provar um bom vinho.

Desenvolvimento: Naughty Dog, Bluepoint Games
Distribuição: Sony Interactive Entertainment
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura (violência, linguagem imprópria)
Classificação: 14 anos
Português: Dublagem, legendas e interface
Plataformas: PS4
Duração: 31 horas (campanha)

Uncharted: Drake’s Fortune

O começo de uma nova saga
O começo de uma nova saga

Ao contrário do que costuma acontecer em análises de coletâneas remasterizadas, em vez de falar do pacote como um todo, aqui prefiro ir por partes. Há uma evolução muito perceptível entre os jogos, começando pelo primeiro título da trilogia, Drake’s Fortune, que serviu de pontapé inicial para uma das maiores franquias da PlayStation em sua terceira geração de consoles.

Em Drake’s Fortune, acompanhamos o protagonista e caçador de tesouros Nathan Drake, que acreditava ser descendente do lendário navegador Sir Francis Drake. Ao lado da jornalista Elena Fisher e de seu parceiro Victor Sullivan, eles partem em busca de um antigo tesouro ligado à mítica cidade de El Dorado, seguindo pistas deixadas em um diário herdado de sua família. A expedição rapidamente se transforma em uma luta pela sobrevivência quando mercenários armados também estão atrás de descobrir esse mistério. As coisas ficaram um tanto perigosas. 

Um jogo que tinha boas intenções, mas ainda sem algo marcante

Espírito aventureiro
Espírito aventureiro

O primeiro Uncharted recebeu muitas comparações com os jogos da saga Tomb Raider, e muita gente dizia que Nathan não passava de uma versão masculina de Lara Croft — algo bastante equivocado. O jogo claramente se inspira nas aventuras da arqueóloga mais famosa dos games e também em Indiana Jones, mas constrói personalidade própria: um jovem mulherengo, sarcástico e dono de um humor inabalável, que hoje em dia, em alguns momentos, chega a irritar.

Uncharted logo se revela a aventura que aquela geração precisava: comandos bons, pequena dose de exploração, foco claro em combate e tudo isso em cenários muito bonitos. Diferente de Tomb Raider, onde enfrentar humanos muitas vezes era algo tenebroso, aqui havia prazer em encarar hordas e mais hordas de homens armados até os dentes.

Muitos cenários para explorar
Muitos cenários para explorar

Drake’s Fortune chegou num momento em que os jogos de ação em terceira pessoa evoluíam mecanicamente junto com o salto gráfico da geração. A câmera livre ficava um pouco distante do personagem para valorizar os cenários, mas ao mirar com as armas assumia a posição sobre o ombro, mecânica que se popularizou muito depois de Resident Evil 4. Era uma combinação muito bem executada e mostrava que a modernidade daquele tipo de jogo já batia à porta.

Agora havia uma campanha com mais cenas de forte apelo cinematográfico (quase um clima de sessão da tarde), combate que permitia pegar armas dos inimigos abatidos, trocá-las livremente e ainda partir para socos diretos, além do sistema de cobertura em que bastava apertar o botão bola para se proteger, ainda que sem tanta precisão. Outro detalhe que me chamou atenção foi a quantidade alta de palavrões em todos os títulos, algo de que eu, sinceramente, não me lembrava.

Um gostinho do que viria nos próximos jogos
Um gostinho do que viria nos próximos jogos

Contudo, por se tratar de uma franquia nova, algumas coisas ainda pediam mais polimento: o pulo de Nathan era curto demais, a história abusava do número de vezes em que os vilões o deixavam vivo sem razão convincente, e os combates tinham pouca diversidade – quase sempre chegávamos a um cenário, usávamos uma parede de cobertura e eliminávamos os inimigos. Poucos momentos fugiam disso ao longo da campanha.

Uncharted 2: Among Thieves 

De brilhar os olhos até hoje
De brilhar os olhos até hoje

A aventura de Nathan Drake e seus amigos mostrou competência e potencial para algo maior, e dois anos depois chegou sua continuação, Among Thieves, em que a missão gira em torno da lendária cidade de Shambhala e de um misterioso artefato. Aqui surgem novos personagens, com destaque para Chloe Frazer, ladra habilidosa e um novo interesse amoroso de Drake.

Uncharted 2: Among Thieves já começa instigante ao mostrar Nathan ferido dentro de um trem prestes a despencar de um precipício. Depois, a narrativa volta ao início, quando ele e outros personagens se unem para descobrir novos artefatos.

Talvez o melhor da saga até hoje 

Um dos momentos mais memoráveis de toda a saga
Um dos momentos mais memoráveis de toda a saga

Among Thieves evolui tudo que Drake’s Fortune apresentou. Agora, os confrontos são mais variados e cinematográficos. Não basta mais atirar, se esconder e repetir: os cenários pegam fogo, desabam, mudam durante a ação ou colocam você em fuga constante.

O pulo foi corrigido, agora funcionando melhor dentro das exigências do jogo, apesar de continuar visualmente um pouco desengonçado. Ainda assim, o sistema de cobertura continua problemático – Nathan várias vezes escolhe a parede errada e isso custa caro em meio aos tiros.

Momentos de calmaria
Momentos de calmaria

A história também melhora, trazendo mais nuances aos personagens e justificativas mais convincentes para as escapadas do protagonista. Visualmente, chamam atenção os cenários diversos: áreas geladas, montanhas, templos escondidos, museus e muitos outros ambientes.

Aqui fica muito perceptível como Uncharted se inspira em Tomb Raider e depois também influencia o reboot da franquia, numa troca mútua. A sequência do trem lembra Tomb Raider: The Last Revelation, enquanto perseguições em cenários desmoronando reaparecem anos depois em Rise of the Tomb Raider. Se essas sagas fossem pessoas, seriam ótimas amigas.

Uma arte incrível
Uma arte incrível

Among Thieves mereceu o prêmio de jogo do ano em seu lançamento por entregar uma aventura como poucas em sua época: personagens carismáticos, reviravoltas bem colocadas, figuras melhor construídas e uma campanha que dosa muito bem momentos frenéticos com pausas narrativas.

Uncharted 3: Drake’s Deception 

Lembra um outro jogo muito famoso
Lembra um outro jogo muito famoso

Mais dois anos depois, eis que veio mais um título da franquia denominado Drake’s Deception. É um jogo excelente que entrega um fechamento de trilogia de forma competente com um Nathan mais maduro e sério, mas que por algum motivo, não causou o mesmo frenesi que seu antecessor. 

Nesta terceira aventura, Nathan Drake investiga pistas ligadas ao passado de Sir Francis Drake e uma antiga lenda sobre a cidade perdida de Ubar, conhecida como a Atlântida das Areias. Aqui, também vemos um pouco do passado dele com Sullivan, mostrando o começo daquela amizade – foi uma boa escolha no roteiro para compreendermos melhor a quase relação deles entre pai e filho. 

Fez o esperado e só

Quem lembra dessa parte no filme?
Quem lembra dessa parte no filme?

Drake’s Deception entrega exatamente o esperado pelos fãs: uma aventura grandiosa com momentos épicos. Ainda assim, algumas quebras de ritmo deixam a campanha arrastada e reforçam a sensação de que o jogo vive sob a sombra do antecessor. Houveram momentos em que eu realmente pensava estar diante de algo melhor que o segundo jogo, mas, em outros, achava cansativo resolver um enigma logo depois de uma sequência frenética.

Outra decisão que incomoda é a ampliação da luta corpo a corpo com quick time events, usados em excesso logo no início, especialmente na briga do bar, em que você enfrenta vários capangas praticamente idênticos, mudando apenas a roupa. Isso irrita mais do que deveria.

Momentos de pura diversão
Momentos de pura diversão

Algo esperado desde o primeiro jogo finalmente aparece aqui: devolver granadas lançadas pelos inimigos, o que foi uma grata surpresa. Outro destaque está nos cenários variados, embora haja predominância de áreas no Oriente Médio, lembrando bastante jogos como Assassin’s Creed. No fim, Drake’s Deception é competente – apenas encontrou uma régua alta demais deixada por Among Thieves.

Um remaster quase perfeito

De brilhar os olhos até em momentos escuros
De brilhar os olhos até em momentos escuros

Uncharted: The Nathan Drake Collection melhora graficamente os três jogos ao invés de apenas colocar em uma alta resolução e em 60 quadros por segundo, e adiciona dublagem em português do Brasil a todos eles, algo que antes existia apenas no terceiro título.

Talvez no início estranhe personagens recebendo tiros e parecendo esponjas, sem reagir como nos jogos mais recentes, mas aí falamos de títulos originalmente pensados para a geração do PS3 e, naquela época, isso passava sem grandes incômodos.

Vastidão
Vastidão

Outra situação que realmente incomodou, e esse incômodo permaneceu até o fim, foi a limitação do modo foto: em vários momentos, simplesmente não dá para capturar a imagem, com o aviso surgindo no canto inferior da tela. Isso vale para cenas, momentos de mira e até trechos aparentemente aleatórios. E, quando o recurso funciona, o jogo ainda reduz automaticamente o campo de visão.

Bluepoint Games fará falta

Mas, tirando esses pormenores, trata-se de uma coletânea que continua enchendo os olhos até hoje. O trabalho da Bluepoint Games foi quase impecável e eternizou a melhor versão da trilogia clássica do carismático Nathan Drake e sua turma.

Cópia de PS4 adquirida pelo autor
Revisão: Julio Pinheiro

Uncharted: The Nathan Drake Collection

9.5

NOTA FINAL

9.5/10

Prós

  • Ótima remasterização
  • Campanhas divertidas

Contras

  • Modo foto falho