A furtividade nos videogames frequentemente orbita em torno da paciência contemplativa e da espreita em cantos escuros. Em Ereban: Shadow Legacy, título de estreia do estúdio espanhol Baby Robot Games e publicado nos consoles pela SelectaPlay, essa premissa toma um rumo muito mais dinâmico: a sombra não é apenas um esconderijo, mas um meio de transporte acelerado e vertiginoso.
Desenvolvimento: Baby Robot Games
Distribuição: SelectaPlay
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: 12 anos (violência, linguagem imprópria)
Português: Não
Plataformas: Xbox Series X|S, PC, PS5
Duração: 4 horas (campanha)/15 horas (100%)
A arte de desaparecer na penumbra

No jogo, comandamos Ayana, a última descendente conhecida da raça Ereban, seres que possuíam uma conexão mística e simbiótica com as sombras, mas que foram misteriosamente varridos da história. Ela tem o poder de controlar a escuridão através de uma mecânica que é central para a jogabilidade, chamada Fusão Sombria. O poder hegemônico deste universo é a Helios, uma megacorporação celebrada como a salvadora da humanidade por fornecer uma fonte de energia universal, ilimitada e aparentemente livre de poluição. A corporação atua acima de qualquer governo tradicional, mantendo o controle social através de doutrinação midiática e um exército privado letal.
A protagonista inicia a campanha sem memórias claras sobre sua cultura, os costumes ou o trágico destino de seu povo. Sua jornada é essencialmente arqueológica e investigativa, buscando fragmentos do passado, memórias ecoantes e registros antigos para entender por que ela é a única sobrevivente de sua linhagem, e por que Helios tem algo a ver com isso.

Diferente de sistemas tradicionais de cobertura, Ayana desintegra sua forma física para se transformar em uma projeção fluida bidimensional que desliza diretamente sobre pisos, paredes, tetos e quaisquer superfícies cobertas por sombras. Enquanto está fundida, Ayana move-se com velocidade aumentada, torna-se totalmente silenciosa e ganha a capacidade de escalar estruturas verticais íngremes ou atravessar frestas e redes de contenção.
Essa mecânica é limitada por uma barra de energia que se consome continuamente, forçando o jogador a planejar saltos e trajetórias de sombra em sombra. O design dos cenários foi milimetricamente pensado para dialogar com essa habilidade: holofotes, drones e estruturas em rotação lançam projeções móveis no chão e nas paredes. Cada capítulo funciona como um grande quebra-cabeça ambiental no qual a luz é o obstáculo e a escuridão é o caminho.
Predador ou fantasma

A jogabilidade de Ereban: Shadow Legacy atua no cruzamento entre mecânicas de plataforma em 3D que exigem precisão e a infiltração tática. O fluxo de jogo é vertiginoso quando executado com maestria: você pode descer por um cabo suspensor, mergulhar na sombra projetada por um contêiner no ar, surgir atrás de um patrulheiro para um abate não-letal e desaparecer na parede adjacente antes mesmo que o segundo guarda perceba o que aconteceu.
Ayana possui uma árvore de habilidades alimentada pela coleta de “Ecos” espalhados pelas fases, além de um sistema de criação de utilitários. O jogo apoia a liberdade de estilo, permitindo abordagens completamente pacíficas ou uma postura de predador das sombras. O ritmo oscila entre trechos intensos de navegação acrobática e momentos de exploração mais cadenciados, embora a constante busca por materiais de crafting espalhados pelos cenários, por vezes, corte um pouco a fluidez do deslocamento.
A câmera em terceira pessoa comporta-se de maneira estável na maioria dos ambientes abertos e arenas industriais. No entanto, quando Ayana se funde a cantos internos apertados ou sob ângulos muito agudos de estruturas complexas, a câmera ocasionalmente pode apresentar um leve estrangulamento visual. Por fim, a narrativa perde força na segunda metade, com personagens secundários pouco desenvolvidos e escolhas morais que têm fraco impacto no desfecho da história.
O sussurro das sombras

A direção de arte combina um estilo cel-shaded com uma estética sci-fi distópica, onde ruínas antigas de uma civilização esquecida se mesclam a instalações hiper tecnológicas da corporação Helios. A escolha visual não é meramente cosmética, pois ela desempenha um papel mecânico vital ao garantir um alto contraste entre áreas iluminadas e sombreadas.
O trabalho de áudio é competente e essencial para a jogabilidade. O efeito sonoro abafado quando Ayana mergulha no chão transmite de forma imediata a sensação de isolamento e segurança da sombra. Os sons ambiente do complexo industrial, desde o zumbido dos drones até o estalo dos holofotes e os passos pesados dos guardas, funcionam como um sistema de radar auditivo que permite ao jogador mapear perigos sem depender exclusivamente da interface gráfica.

Apesar das qualidades na movimentação, Ereban: Shadow Legacy carrega falhas sérias em seu design. A principal delas é a fragilidade e previsibilidade da inteligência artificial dos inimigos. Os patrulheiros possuem cones de visão rígidos, rotas extremamente simples e uma tolerância quase absurda a perturbações no ambiente.
Essa permissividade da IA gera um problema grave de redundância nas mecânicas de utilitários. A habilidade de Fusão Sombria é tão absurdamente eficiente e gratificante que o jogador quase nunca sente a necessidade de utilizar as minas, sonares, bombas de fumaça ou melhorias de combate desbloqueáveis. Todo o complexo sistema de crafting e árvore de talentos acaba parecendo um adorno sem utilidade real, pois escalar uma parede por trás do guarda resolve praticamente qualquer situação sem custo ou risco.
Vale a pena mergulhar nesta escuridão?
Ereban: Shadow Legacy é um cartão de visitas de enorme potencial para a Baby Robot Games. Quando o jogo se concentra no que faz de melhor, a travessia tática e o uso criativo da escuridão em desafios de plataforma em 3D, ele entrega momentos genuínos de pura diversão e elegância mecânica. Embora seja prejudicado por uma IA permissiva e um roteiro que não acompanha a qualidade de sua movimentação, continua sendo uma boa recomendação para os entusiastas de stealth e plataforma no Xbox Series X.
Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




