James Bond dá as caras nos videogames há muito tempo, mas o agente criado pelo escritor Ian Fleming nunca recebeu uma adaptação tão boa como esse novo lançamento da IO Interactive, o estúdio que consagrou a série Hitman. 007 First Light narra o início da vida profissional do espião, em uma experiência que conta com uma jogabilidade sensacional e um foco cinematográfico incrível.
Desenvolvimento: IO Interactive, Delphi Interactive, Amazon MGM Studios
Distribuição: IO Interactive
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Tiro
Classificação: 16 anos (drogas lícitas, violência extrema, compras no jogo)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 22 horas (campanha)
Um agente em treinamento

Situado nos tempos modernos, em 2026, 007 First Light começa mostrando um James Bond completamente inexperiente, trabalhando como um aviador da marinha britânica. Sem querer, ele acaba se intrometendo em uma missão do MI6 (o serviço de inteligência estrangeira do Reino Unido) e é recrutado pela organização. Em meio ao seu treinamento, Bond precisa investigar e agir numa situação envolvendo um ex-agente que decidiu trair o governo, se vendo num jogo de gato e rato que vai se escalando constantemente — o protagonista sempre vai indo atrás de peixes cada vez maiores, contrariando suas ordens.
No geral, a campanha apresenta uma aventura espetacular e que tem um ritmo agradável, embora algumas fases, principalmente mais próximas ao final do game, se arrastem demais. O título retrata uma versão inédita do espião, não associada a nenhum dos atores que já o interpretaram no cinema. O Bond de 007 First Light é o Bond dos games, interpretado pelo ator Patrick Gibson (conhecido pela série “Dexter”) em um estilo canastrão e carismático que se enquadra perfeitamente com o personagem.

A narrativa é profunda e desenvolve bem os personagens que são adições originais do estúdio, como John Greenway, o mentor de Bond, interpretado por Lennie James, de “The Walking Dead”. O jogo não parte para uma ação constante, fazendo várias pausas para mostrar mais da relação do agente com seus parceiros. Não à toa, o game é estruturado quase como uma série de TV, com 10 capítulos distintos, que duram cerca de duas a quatro horas cada. As transições entre a gameplay e as cutscenes são fenomenais, e há até um tema musical feito pela Lana Del Rey em parceria com o compositor David Arnold, que participou da produção da abertura de cinco filmes da franquia.
Jogabilidade livre

007 First Light é puro Hitman. A jogabilidade une elementos de stealth com grandes cenas de ação, em mapas enormes e com centenas de NPCs neles. As missões podem ser completadas de diferentes formas, no estilo sandbox dos jogos do Agente 47. O game, porém, não é tão claro nisso, precisando ativar indicadores manualmente no diário, já que apenas pequenas dicas são liberadas enquanto Bond interage pelos cenários. Essa falta de clareza, claro, funciona bem para dar uma sensação de liberdade única para o jogador abordar as situações da maneira que quiser. É o ponto mais alto possível do jogo, porque a trama em si é afetada pelas ações dos jogadores nesses momentos.
James pode sair na porrada contra seus rivais, contando com controles bem responsivos e uma infinidade de mecânicas ao seu dispor — como um relógio, que tem habilidades secretas úteis tanto para o combate quanto para a exploração. Bond pode ouvir conversas para saber mais sobre o que precisa fazer para avançar em seus objetivos, podendo roubar itens na furtividade ou assumir identidades de outras pessoas. Realizar essas atividades furtivas eleva o medidor de instinto do protagonista, permitindo que ele foque na mira, blefe e convença civis de que não é um espião. O agente pode atirar quando ganha licença para matar, nos momentos em que outros inimigos iniciam confrontos armados contra ele, necessariamente — fora dessas ocasiões, o stealth e a porradaria são obrigatórios.

Além da história principal, 007 First Light oferece um modo secundário com missões táticas. Nelas, Bond precisa cumprir objetivos altamente específicos nos mapas em que a campanha se desenrola, justamente como a série Hitman, de uma forma mais direta. Não é um simples minigame, mas sim um modo completo, com seus próprios sistemas de progressão e desbloqueios, atrelados aos desafios propostos a Bond nessas missões. Essa foi uma sacada genial da IO Interactive, garantindo uma rejogabilidade extrema ao game, ainda mais porque o estúdio anunciou que irá suportar o título com atualizações por um ano.
Lado técnico decepciona

007 First Light tem uma cinematografia ótima. Os desenvolvedores realmente conseguiram entregar uma boa união entre um game propriamente dito e um filme, com uma iluminação sensacional e animações boas. O jogo foi feito através do motor gráfico proprietário do estúdio, mas o lado da renderização na versão de PC deixa bastante a desejar.
Mesmo rodando nas configurações máximas, os visuais são extremamente embaçados, sem nitidez alguma. As texturas e modelos são visivelmente detalhadas e feitas com cuidado, mas não é possível notar isso no decorrer de toda a jogabilidade, porque elas se tornam um borrão depois de uma curta distância. Os objetos também vão sumindo da tela, as sombras bugam e há vários fantasmas na imagem, causados por um uso agressivo de técnicas de antiserrilhamento. Há falhas nos reflexos, por conta da falta de um ray tracing completo, e não há suporte para todas as tecnologias da AMD, como a geração de quadros do FSR ou até a versão mais recente do filtro, por exemplo.

Pelo menos, o desempenho é ótimo, sem quedas na taxa de quadros ou travamentos durante as cenas. O game consegue esconder bem seus tempos de carregamento, criando transições suaves entre uma fase e outra. O título chegou apenas com legendas em português, sem dublagem — fora os problemas técnicos, esse é o único item que faltou para que 007 First Light seja uma experiência totalmente fenomenal, pois é meio complicado prestar atenção nas legendas enquanto se tenta passar pelas fases furtivamente.
Uma aventura imperdível
007 First Light traz uma campanha sensacional que junta com sucesso aventuras grandiosas, como as que costumam ser propiciadas por sagas como Uncharted e Tomb Raider, com as características da série Hitman, resultando em uma jogabilidade tão livre que chega a ser inovadora para esse ramo específico de games cinematográficos. Ao mesmo tempo, o título é um grande filme de espionagem e um jogo sandbox, sendo uma experiência rejogável por esse aspecto e pelo modo tático. Vale muito a pena prestigiar o melhor videogame de 007 já feito.
Cópia de PC adquirida pelo autor
Revisão: Jason Ming Hong




