A febre dos jogos de construção de baralho (também conhecidos como deck builders) e roguelites parece longe de acabar, mas de tempos em tempos, surge uma obra capaz de revigorar a fórmula e nos lembrar por que o gênero é tão viciante. Desenvolvido pelo estúdio austríaco Mi’pu’mi Games GmbH e publicado pela Skystone Games, Black Jacket chega ao mercado como uma aposta ousada. Em vez de criar um sistema de batalha complexo do zero, o jogo pega emprestado um dos jogos de cassino mais antigos e conhecidos do mundo, o Blackjack (ou o famoso 21), e o distorce em uma jornada lúgubre de sobrevivência no submundo.
Desenvolvimento: Mi’pu’mi Games GmbH
Distribuição: Skystone Games
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Estratégia, Simulação
Classificação: 18 anos (violência, temas sensíveis, linguagem imprópria)
Português: Interface e legendas
Plataformas: Xbox Series X|S, PC, PS5, Switch
Duração: 8 horas (campanha)/29 horas (100%)
Sombras e pecados

A premissa é simples, mas morbidamente cativante. Você é uma alma perdida presa em uma espécie de cassino no purgatório. Para escapar da danação eterna e comprar sua passagem de volta à vida, é necessário apostar contra outros espíritos amaldiçoados, roubar suas moedas de alma e, eventualmente, subornar o Barqueiro. Com uma atmosfera pesada e um loop de jogabilidade refinado, esse jogo prova que ainda há muito espaço para inovação no cenário indie.
Se você sabe como jogar Blackjack, você já entende a base de Black Jacket. O objetivo inicial permanece o mesmo: comprar cartas para que a soma da sua mão chegue o mais perto possível de 21, sem ultrapassar esse valor. Quem tiver a melhor pontuação na mesa, leva as moedas. No entanto, é aqui que as semelhanças com o jogo de salão terminam.

Em Black Jacket, você não divide um baralho de 52 cartas com a mesa. Cada jogador possui o seu próprio deck customizado. A magia, e o caos, acontecem porque as cartas não carregam apenas valores numéricos, mas também efeitos e habilidades especiais. Durante a partida, você pode jogar modificadores que alteram drasticamente as regras do jogo. O oponente parou no 20 e você tem 18? Jogue uma carta que reduz o valor da mão dele em 3 pontos. Ele está ganhando? Use uma habilidade que obriga o adversário a comprar mais uma carta, forçando-o a estourar o limite de 21.
A estratégia por turnos ganha um peso colossal. É possível espiar as próximas cartas do seu baralho, trocar sua mão inteira com a do oponente, ou criar combos devastadores de cartas que aumentam a aposta na mesa contra a vontade do adversário. Esse nível de manipulação de regras substitui a sorte pura do Blackjack por um pensamento estratégico profundo, onde montar um deck coeso é a diferença entre a salvação e a falência espiritual.
As cartas na mesa

Para um jogo de cartas, a interface de usuário e os controles são fatores cruciais, e Black Jacket entrega uma experiência mista neste departamento. Sendo essencialmente um jogo de apontar e clicar no PC (ou de navegação pelos direcionais nos consoles), os controles são responsivos e intuitivos. Selecionar cartas, analisar a mesa e confirmar apostas é um processo fluido.
Contudo, a interface sofre no início para comunicar o excesso de informações. Como as cartas possuem valores base e efeitos atrelados, a tela pode ficar um pouco poluída durante os estágios finais de uma partida, quando há múltiplos modificadores, artefatos e maldições em jogo simultaneamente. Falta um registro de ações mais claro para ajudar jogadores novatos a entenderem exatamente qual sinergia o chefe acabou de usar para virar a partida no último segundo.
Visualmente, Black Jacket aposta em um minimalismo sombrio. Você nunca vê o rosto inteiro dos seus oponentes, pois a perspectiva do jogo foca inteiramente na mesa de madeira gasta e nas mãos dos espíritos que jogam contra você. Essa escolha de direção de arte é fantástica. As mãos (algumas enrugadas, outras cadavéricas, algumas adornadas com jóias amaldiçoadas) transmitem a personalidade e o histórico de cada chefe sem a necessidade de modelagens 3D.
Quando a banca vence injustamente

O maior diferencial de Black Jacket é como ele estrutura seu loop de roguelite. Diferente de muitos jogos do gênero, em que você apenas sobe por andares aleatórios, aqui o objetivo financeiro dita a progressão. Você precisa acumular riqueza.
Apesar de seu brilhantismo mecânico, Black Jacket tropeça em algumas decisões de game design. O primeiro grande problema é a curva de aprendizado punitiva. O jogo é francamente brutal nas suas primeiras horas. Até você desbloquear cartas melhores e compreender as sinergias, você será esmagado repetidas vezes, o que pode dar a falsa sensação de que o jogo depende inteiramente de ter um RNG (sorte) favorável ao seu lado, quando, na verdade, ele exige que você aprenda a manipular essa aleatoriedade.
A segunda e mais grave falha reside na forma como a narrativa é entregue. Mesmo com um universo fascinante com personagens ricos, os desenvolvedores escolheram apresentar a história através de blocos de texto estáticos e transições que parecem “PowerPoints dinâmicos”. Para um jogo que lida com temas sensíveis e tem uma premissa tão emocional (almas tentando escapar do inferno), o apelo narrativo é entregue de forma muito rasa. As histórias de fundo dos oponentes, que deveriam ser o coração pulsante da progressão, acabam parecendo apenas linhas de roteiro jogadas apressadamente na tela.
Vale a pena apostar tudo?
Black Jacket é um triunfo do design de jogos independentes que prova que ainda há muito espaço para inovação em gêneros aparentemente saturados. Ao misturar a tensão secular do Blackjack com mecânicas modernas de roguelite e uma estética opressora, a Mi’pu’mi Games criou uma joia que recompensa a paciência, a malícia e a experimentação. Se você conseguir suportar a surra das horas iniciais e não se importar com a entrega narrativa modesta, encontrará aqui um dos jogos de cartas mais viciantes e atmosféricos dos últimos anos.
Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




