Numa época em que remasters e remakes são lançados a torto e a direito, chega a ser surpreendente que uma franquia considerada um grande clássico por muitos jogadores não tenha recebido uma versão voltada para a atual geração mais cedo. Mesmo sendo uma série nichada, Gothic acabou influenciando diversos RPGs europeus ao longo dos anos. Agora, Gothic 1 Remake chega aos jogadores preservando o conteúdo original, mas com as mudanças necessárias para os padrões atuais. Diante disso, fica a pergunta: será que Gothic ainda consegue se manter relevante e entregar uma jornada memorável? Vamos descobrir.
Desenvolvimento: THQ Nordic
Distribuição: Alkimia Interactive
Jogadores: 1 (local)
Gênero: RPG
Classificação: 14 anos (drogas, drogas lícitas, violência)
Português: Legendas e Interface
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 29 horas (campanha)/71 horas (100%)
Herói sem nome em um mundo cruel

Iniciamos nossa jornada no reino de Myrtana sabendo muito pouco sobre o que está acontecendo: apenas que nosso protagonista sem nome, um criminoso qualquer, está sendo jogado dentro da Barreira de Khorinis, no Vale das Minas, uma colônia penal construída para minerar recursos e permitir que o reino humano continue sua guerra contra os orcs.
Porém, antes de sermos arremessados para dentro da barreira, nos é delegada a tarefa de entregar uma carta aos magos do fogo. Mas nosso verdadeiro objetivo é encontrar uma maneira de sair deste local no qual a morte está à espreita.
Vale salientar que os magos do rei ergueram uma barreira mágica ao redor da colônia penal para impedir que os criminosos fugissem. Isso acabou dando muito errado, pois, por algum motivo, a magia saiu do controle, fazendo com que a barreira não só se expandisse, como também impedisse qualquer um de sair sem morrer, apenas adentrar é possível.
Após esse começo dramático, nosso herói, cujo nome e crime desconhecemos, deve trilhar seu caminho e descobrir uma forma não só de sobreviver, mas também de escapar.
Exploração desafiadora e recompensadora

Gothic é o tipo de obra que definitivamente não pega na mão do jogador. Muito pelo contrário: ele te lança em um mundo impiedoso, onde praticamente tudo que se mexe quer te matar ou roubar, oferecendo pouquíssimas formas de se defender.
Nas primeiras horas, nosso herói é extremamente fraco, com pouca vida, força, destreza e mana. Mesmo na dificuldade padrão, os inimigos mais fracos podem nos matar com dois ou três golpes. Isso torna o início extremamente punitivo, podendo frustrar alguns jogadores, mas também faz com que a exploração seja muito recompensadora, já que podemos encontrar diferentes tipos de armas, armaduras, anéis, amuletos, poções e feitiços poderosos que ajudam a equilibrar o nível de desafio.
Aprendemos através do esforço. Para se ter uma ideia, levei mais de dez horas para começar a enfrentar os inimigos de forma um pouco mais segura, salvando manualmente com frequência para não perder progresso. Aqui, tudo depende da nossa cautela e paciência: saber quando atacar, defender, esquivar e até mesmo quando recuar para voltar mais forte.
Embora esse alto pico de dificuldade se arraste pelas primeiras horas do jogo, é possível construir um personagem extremamente poderoso conforme subimos de nível e distribuímos nossos pontos de habilidade, o que acaba tirando grande parte da dificuldade dos combates na segunda metade da jornada.
Outro ponto bastante positivo que percebemos durante a exploração é o rico nível de detalhes dos ambientes, que contam toda uma história. As diversas ruínas que exploramos, os esqueletos humanos dentro de covis de lobos e até mesmo os acampamentos de orcs transmitem uma forte percepção daquele mundo, já que se trata de áreas áridas, onde a vida não floresce, apenas a morte parece rondar tais lugares.
Apesar do mapa de Gothic 1 Remake não ser muito grande em extensão, ele é bastante vertical, o que aumenta o tempo que passamos imersos nesse universo. Seja percorrendo galerias e túneis que se estendem até os confins da terra, seja escalando torres e montanhas, a obra consegue manter o jogador constantemente envolvido com o ambiente.
Diferentes caminhos a seguir

Algo muito positivo em Gothic é a liberdade para alcançar o nosso objetivo final: sair da Barreira de Khorinis. Podemos fazer isso nos alinhando a qualquer uma das três facções formadas após a criação da barreira.
O Assentamento Antigo é composto por soldados e magos do fogo que ainda mantêm relação com o reino, enviando minérios em troca de recursos, e até mesmo mulheres, o que reforça o tom cruel do mundo de Gothic.
O Assentamento Novo é formado por bandidos, mercenários e magos da água, que planejam destruir a barreira. Já o Assentamento do Pântano é um culto religioso que reverencia uma entidade misteriosa como aquela que irá libertar todos.
Cada facção também oferece diferentes especializações para o protagonista. No Assentamento Antigo, por exemplo, podemos nos tornar um mago de fogo ou um guarda, mas apenas uma dessas escolhas pode ser feita em cada jogatina.
Problemas de performance e suporte dos desenvolvedores

Principalmente na primeira semana após o lançamento, Gothic 1 Remake sofreu com diversos problemas de performance, bugs de áudio, quedas de FPS e muitos crashes. A primeira atualização corrigiu parte desses problemas, mas a segunda trouxe de volta alguns travamentos, embora em menor quantidade.
O jogo também foi lançado inicialmente com uma trava de 30 FPS em todos os consoles, algo que foi corrigido posteriormente, liberando 60 FPS no PlayStation 5 Pro e no Xbox Series X, tornando a jogabilidade muito mais fluida.
Apesar da otimização ainda deixar a desejar, é positivo ver que os desenvolvedores estão atentos e trabalhando rapidamente para melhorar a experiência. Considerando que se trata de um estúdio pequeno, há um esforço notável e bastante competente. E isso já refletiu diretamente nas vendas, que atingiram a marca de 500 mil cópias na primeira semana, o que torço para ser o suficiente para garantir o remake dos próximos jogos da franquia.
O retorno de um clássico
Após muitas horas me aventurando pelo Vale das Minas, dentro da Barreira de Khorinis, conversando com vários personagens interessantes — sempre com uma pitada de humor sarcástico e acompanhando uma trama intrigante —, posso afirmar com certa tranquilidade que a franquia Gothic está de volta, e em grande estilo, mas se mantendo como um produto de nicho. Com uma jogabilidade modernizada (embora ainda um pouco travada), gráficos excelentes, uma trilha sonora muito boa e um mundo com uma ambientação impecável, o jogo cria uma atmosfera totalmente imersiva. Assim, Gothic 1 Remake se torna um título essencial na biblioteca de quem gosta de aventuras épicas em mundos cruéis e impiedosos, em que apenas os fortes sobrevivem, e onde você não terá suas mãos seguradas, sendo apenas mais um condenado dentro da Barreira de Khorinis.
Cópia de PS5 cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




