No universo expansivo e muitas vezes saturado dos jogos de zumbis, é extremamente difícil encontrar uma obra que consiga evocar um verdadeiro sentimento de pavor e tensão constante. Desenvolvido pela Torn Banner Studios e publicado pela Green Man Gaming, No More Room in Hell 2 finalmente abandonou as amarras de um longo período de acesso antecipado para entregar sua aguardada versão 1.0 no Xbox Series X — disponível também no PC através do Play Anywhere, bem como em outras lojas. E a boa notícia? A espera valeu a pena.
Desenvolvimento: Torn Banner Studios
Distribuição: Green Man Gaming
Jogadores: 1-8 (online)
Gênero: Tiro, Ação, Aventura
Classificação: 18 anos (violência extrema, conteúdo sexual, drogas lícitas)
Português: Interface e legendas
Plataformas: Xbox Series X|S, PC, PS5
Duração: Sem registros
Muito mais que apenas atirar

Distanciando-se de shooters frenéticos onde você é um super-herói imbatível, No More Room in Hell 2 é um jogo de sobrevivência cooperativa que decide seguir um caminho muito mais sombrio, implacável e metódico. É uma experiência onde a morte não é apenas um inconveniente, mas sim uma constante assustadora que pune os desavisados.
Se a sua expectativa é entrar no jogo, pegar uma metralhadora e dizimar hordas inteiras enquanto dá risada com os amigos no chat, é melhor ajustá-las. A jogabilidade exige paciência, planejamento cuidadoso e comunicação constante. O jogo coloca você e mais sete “Socorristas” em mapas gigantescos e não lineares. A missão central inicial é encontrar uns aos outros no escuro, para então completar objetivos dinâmicos gerados a cada partida, como religar geradores, explorar áreas de quarentena, procurar suprimentos e tentar extrair a equipe com vida.

O verdadeiro diferencial mecânico aqui é o peso das suas ações. O jogo implementa uma impiedosa mecânica de morte permanente para o seu personagem. Conforme você sobrevive a missões, seu Socorrista ganha níveis, desbloqueando vantagens passivas e melhorando os equipamentos iniciais. No entanto, se você for encurralado e dominado pela horda, todo esse progresso e afinidade com o personagem são perdidos para sempre. Isso transforma completamente a forma como você joga, uma simples busca por bandagens no banheiro de um hospital escuro se torna uma missão de altíssimo risco.
Para piorar (ou melhorar, do ponto de vista do terror), há a mecânica de infecção. Ser mordido ou agarrado drena a sua saúde e inicia um cronômetro mortal. Se você não encontrar pílulas a tempo, a sua visão começará a embaçar e, inevitavelmente, seu personagem sucumbirá, transformando-se em mais uma ameaça para o próprio esquadrão. Isso força os jogadores a decidir sob pressão: “avançamos mais fundo no mapa hostil para salvar nosso companheiro infectado, ou chamamos a extração agora para garantir nossa própria vida?”
Beleza no caos

No Xbox Series X, o jogo roda com solidez, embora apresente bugs visuais e nas texturas, mas é a direção de arte e a iluminação volumétrica que roubam a cena. Os mapas, que variam da escuridão dos corredores de um hospital às ruas devastadas de Nova York e usinas rurais na Pensilvânia, são incrivelmente detalhados e opressivos. A escuridão atua como um inimigo tangível.Muitas vezes, você se verá dependendo de uma lanterna fraca que ilumina apenas o suficiente para revelar a silhueta de um infectado escondido nas sombras.
A sonoplastia complementa a atmosfera. O título possui um sistema de horda reativo à acústica. Um disparo acidental ou um alarme de carro disparado ecoará pelos arredores, atraindo dúzias de mortos-vivos raivosos. Por conta disso, o silêncio é uma arma tão importante quanto as de fogo. Os gemidos guturais variados, os passos se arrastando na madeira e a trilha sonora opressiva que cresce dinamicamente de acordo com o perigo mantêm os nervos sempre à flor da pele. O chat de voz por proximidade também é incrivelmente imersivo. Ouvir os gritos de socorro do seu parceiro sumirem lentamente através das paredes enquanto ele é isolado do grupo é uma experiência perturbadora e cinematográfica.
Peso morto

A Torn Banner Studios aproveitou toda a sua prestigiada expertise em combates medievais da sua franquia Chivalry e a aplicou de forma genial neste apocalipse. As armas brancas têm um peso absurdo e real. Acertar um zumbi com um martelo, um machado de bombeiro ou uma simples pá não é apenas assistir a uma animação flutuante, pois você sente o tranco, percebe o impacto afundando no inimigo e observa o sistema dinâmico de desmembramento em ação. As armas de fogo, embora poderosas e adaptáveis com silenciadores ou miras, são esporádicas e a munição deve ser conservada com inteligência.
Apesar desses louvores, nem tudo é um mar de rosas ensanguentadas. Há claras falhas e decisões de design frustrantes, principalmente relacionadas à interface e à navegação nos consoles. Os menus são problemáticos e confusos. Navegar pelo inventário, selecionar equipamentos ou até mesmo tentar personalizar a cor da roupa do seu Socorrista usando os direcionais do controle do Xbox pode se provar um exercício de pura irritação. Certos botões parecem não responder bem, passando a nítida impressão de ser uma interface projetada inteiramente para mouse no PC que não foi devidamente repensada para os consoles. Em um jogo que pune deslizes com a morte permanente, lutar contra um menu desajeitado para equipar uma cura no meio do pânico é uma falha inaceitável

É inevitável não comparar este lançamento com titãs da indústria como Left 4 Dead, Back 4 Blood ou World War Z. Enquanto World War Z baseia todo o seu apelo na escala absurda de milhares de zumbis agindo como um tsunami, e Left 4 Dead foca em uma ação frenética ditada por inteligência artificial, No More Room in Hell 2 se alinha filosoficamente a jogos como GTFO ou Hunt: Showdown devido ao foco pesado em extração e alta punição.
Ele foge deliberadamente da fórmula “herói de ação”. A necessidade de microgerenciar um inventário restrito, a alta letalidade dos monstros de elite blindados e o andamento arrastado e estratégico das incursões o tornam um verdadeiro simulador cooperativo de desastre. Para quem busca interação social significativa onde a negligência de um jogador arrogante que correu na frente sozinho pode efetivamente acabar matando o esquadrão inteiro, poucos jogos oferecem um loop de cooperação tão maduro.
O veredito do sobrevivente
No More Room in Hell 2 encerra sua jornada de acesso antecipado chegando aos consoles ciente de sua própria identidade. Ele é um pesadelo brutal, lento, difícil e puramente dependente de tática. Suas decisões questionáveis de usabilidade de interface ofuscam momentaneamente o brilho, mas são esquecidas nos últimos segundos de partida, quando seu esquadrão esgotado consegue entrar no veículo de fuga enquanto a horda esmurra o metal atrás de vocês. Se você conta com um bom grupo de amigos e busca uma experiência hardcore cooperativa em que cada bala atirada tem peso e consequências absolutas, definitivamente vale a pena adentrar nesse mundo.
Cópia de Xbox Series X cedida pelos produtores
Revisão: Júlio Pinheiro




