Ratatan apresenta uma proposta fascinante: transformar o campo de batalha em um espetáculo rítmico. Imagine liderar um exército onde, em vez de apenas ditar ordens, você cantarola para guiar seus soldados e cada comando melódico se traduz em ataques, defesas ou golpes especiais. O título funde ritmo e dinâmicas de roguelike, desafiando o jogador a avançar por cenários variados enquanto esmaga hordas de inimigos sob uma cadência precisa. Como sucessor espiritual do lendário Patapon, o game carrega a herança de um clássico, mas busca ir além. A música deixa de ser um mero detalhe estético para se tornar a engrenagem central da jogabilidade: manter o compasso significa manter o exército unido, eficiente e pronto para o combate.
Desenvolvimento: Ratata Arts
Distribuição: Game Source Entertainment
Jogadores: 1-4 (online)
Gênero: Música
Classificação: Livre
Português: Legendas e interface
Plataforma: Xbox Series X|S, PS5, PC, Switch 2
Duração: 10 horas (campanha)
Rumo ao desconhecido

Ratatan se posiciona como um roguelike fora do comum, apostando em uma abordagem rítmica para ditar a estrutura de sua jogabilidade. Na campanha, controlamos um herói encarregado de liderar o exército de Cobun — pequenas e carismáticas criaturas que obedecem cegamente às ordens de seu mestre para esmagar qualquer ameaça pelo caminho. Toda a ação se desenvolve no compasso musical ditado pelo cenário e pelo protagonista escolhido, criando uma dinâmica onde cada comando precisa ser cirurgicamente sincronizado com a batida. A premissa é simples, mas exige coordenação: nas primeiras horas, pode ser desafiador encaixar os botões no tempo certo enquanto se esquiva de investidas hostis. Com a prática, contudo, fica claro que dominar o compasso é o segredo para transformar o caos do combate em uma coreografia puramente estratégica.
Assim que os controles são assimilados e a mecânica revela sua lógica, Ratatan mostra a que veio. O jogador avança por cenários dinâmicos, enfrentando guarnições hostis até culminar em batalhas contra chefes colossais. Cada triunfo rende equipamentos valiosos que, ao retornar à base, servem para fortalecer as tropas — um ciclo essencial, já que a dificuldade escala progressivamente. O compasso é o coração da estratégia: ditar o comando no instante correto define os rumos do confronto. Ações como saltar ou erguer a defesa deixam de ser meros reflexos para se tornarem decisões táticas calculadas. O título não se resume a avançar e golpear; exige planejamento constante, pois, à medida que o caos da arena se intensifica, a preservação do ritmo é a única garantia de sobrevivência.
Veja tudo brilhar

A apresentação audiovisual de Ratatan é um deleite à parte, esbanjando personalidade por meio de uma estética cartunesca vibrante e extremamente carismática. Com traços desenhados pelo ilustrador Nelnal, o título brilha com sprites nítidos e animações 2D expressivas que saltam aos olhos, conferindo dinamismo até mesmo aos menores soldados do exército. Esse capricho gráfico encontra seu par perfeito na trilha sonora, que marca o retorno triunfal do compositor de Patapon, Kemmei Adachi. Composta por faixas incrivelmente cativantes e batidas tribais inspiradas em cantigas de piratas, a música dita o compasso da ação com maestria. O ápice dessa sinergia ocorre ao engatar o famoso modo de febre (Fever Mode): os arranjos ganham camadas intensas de guitarras e coros entusiasmados, enquanto o cenário e os personagens reagem fisicamente à empolgação da melodia, transformando a tela em um espetáculo de pura energia rítmica.
O verdadeiro coração estratégico de Ratatan reside na composição do seu exército, dividido entre os heróis titulares — os Ratatans — e suas tropas de seguidores. O jogo oferece uma lista variada de maestros jogáveis, cada um com estatísticas únicas, instrumentos específicos e uma função definida no campo de batalha. É o caso de Keroronpa, um agitador nato em forma de sapo que usa seu megafone para inflamar o moral dos aliados e desnortear inimigos, ou de Harigittan, focado na defesa por meio de riffs pesados de guitarra.

Sob o comando desses líderes marcham os Cobuns, que podem ser customizadas com um vasto arsenal de equipamentos coletados e forjados ao longo das partidas. O sistema de armas dita as classes e o comportamento do exército na arena, variando entre a clássica combinação de espada e escudo dos soldados de linha de frente, lanças de arremesso, arcos para dano de longo alcance, até bombas, foices e cetros mágicos. Como a dificuldade escala no formato roguelike, investir materiais da base para criar armas de maior raridade e equipar acessórios especiais torna-se indispensável para otimizar as formações e garantir a sobrevivência.
Não pode errar

Contudo, a experiência com Ratatan não é isenta de atritos, revelando falhas estruturais que quebram o fluxo da diversão. O principal problema reside na curva de dificuldade desequilibrada, que exibe picos brutais e injustos a partir dos mundos mais avançados. Nessas fases, os inimigos telegrafam suas investidas de forma tardia, exigindo respostas imediatas que colidem com as janelas de comando rítmico. Essa volatilidade é agravada pela extrema fragilidade do protagonista: como o herói não possui ataques próprios e a cura é escassa, o jogo frequentemente te força a abrir mão da cadência musical para focar em uma sobrevivência frenética no controle livre. Diante de chefes com barras de vida colossais, a habilidade técnica pura perde espaço para um loop de meta-progressão exaustiva, obrigando o jogador a repetir exaustivamente os estágios iniciais apenas para acumular recursos e grindar melhorias de atributos na base.
Um dos grandes destaques do jogo é o seu modo cooperativo online para até quatro jogadores, uma funcionalidade que expande drasticamente a escala e a diversão do título. Ao unir forças com outros maestros rítmicos, o campo de batalha se transforma em uma arena colossal com mais de 100 personagens simultâneos na tela. A dinâmica brilha quando as builds dos jogadores se combinam: é possível criar sinergias devastadoras unindo exércitos de arqueiros a tropas de linha de frente, derretendo a barra de vida dos chefes em poucos segundos. Contudo, essa cooperação rítmica exige sincronia absoluta nos botões e comunicação afiada. O revés dessa experiência reside no caos visual; com tantos Cobuns e efeitos estourando ao mesmo tempo, a tela frequentemente vira uma bagunça generalizada, dificultando a tarefa de decifrar os ataques dos chefes e manter o controle do próprio posicionamento.
O ritmo perfeito ou fora do compasso?
No balanço final, Ratatan consagra-se como o herdeiro legítimo e triunfante da fórmula que eternizou Patapon. O título entrega uma mistura viciante de ritmo, estratégia e roguelike, envelopada em uma das direções de arte mais carismáticas e vibrantes da atualidade. Embora os picos injustos de dificuldade no modo solo e a poluição visual nos momentos caóticos do multiplayer possam frustrar os menos persistentes, o brilho das sinergias em grupo e o espetáculo sonoro do Fever Mode compensam com sobras os seus pequenos atritos estruturais. Trata-se de uma jornada rítmica imperdível para os órfãos do clássico do PSP e altamente recomendada para quem busca uma experiência cooperativa genuinamente única e divertida. No compasso certo entre a nostalgia e a modernidade, Ratatan prova que o gênero musical ainda tem muita lenha para queimar.
Cópia de Xbox cedida pelos produtores
Revisão: Ailton Bueno




