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Review Ace Combat 8: Wings of Theve (PS5) – Os céus lhe pertence

Ace Combat pertence a um grupo de franquias que transformaram o combate aéreo em verdadeiras obras de arte, combinando a adrenalina de pilotar caças supersônicos com narrativas densas, onde sempre há muito mais em jogo do que o cumprimento da próxima missão. Agora, assumimos os controles em Ace Combat 8: Wings of Theve, um capítulo que nos desafia a carregar o peso de uma lenda em meio a um complexo conflito internacional. O novo jogo amplia significativamente a escala das batalhas nos céus e a profundidade das tensões políticas e humanas que dão sustentação à sua trama.

Desenvolvimento: Bandai Namco Aces Inc.
Distribuição: Bandai Namco Entertainment Inc.
Jogadores: 1-8 (online)
Gênero: Ação, Aventura, Simulação
Classificação: 14 anos (violência, linguagem imprópria)
Português: Legendas e interface  
Plataforma: Xbox Series X|S, PS5, PC
Duração: 18 horas (campanha)

Voe mais alto que puder

Um caça de combate em meio as nuvens, enquanto um inimigo é abatido ao fundo.
Aprecie cenários deslumbrantes

Ace Combat 8 nos transporta para julho de 2029, período em que a Federação Central de Usea enfrenta o pior momento de sua história recente. A invasão pela República de Sotoa deixou grande parte do território ocupado, as forças armadas praticamente desmanteladas e os civis sobreviventes lutando para subsistir com os poucos recursos disponíveis. O jogador assume o papel de um piloto resgatado no mar pelo Endurance, um porta-aviões veterano retirado da linha de frente, cujos conveses agora abrigam refugiados. Esse ponto de partida já sinaliza a gravidade da situação: antes mesmo de planejar a reconquista do lar perdido, é necessário encontrar meios para simplesmente continuar respirando. O jogo estabelece, desde os primeiros minutos, um clima de urgência e precariedade que reforça a dimensão dramática do conflito, transformando cada surtida em um verdadeiro ato de resistência.

A bordo do porta-aviões, somos apresentados ao mito personagem principal de Wings of Theve, um lendário duplo ás da aviação cujo nome, diretamente ligado à capital da federação, tornou-se o último bastião de esperança da população. Em um cenário assolado pela escassez crônica de pilotos, a crença de que ainda existe um herói capaz de desafiar os céus inimigos possui um valor imensurável. No entanto, a realidade por trás desse codinome logo se revela bem diferente, pois a lenda não passa de um artifício, uma narrativa forjada para sustentar a moral de um povo que já perdeu quase tudo. Essa reviravolta adiciona uma bem-vinda camada de cinismo à experiência, provando que a guerra não se trava apenas nos céus, mas no campo psicológico, onde a esperança pode ser um recurso tão estratégico quanto o mais destrutivo dos mísseis. 

O caça de combate atravessando as chamas de um inimigo que foi abatido no ar.
Destrua seus inimigos com agressividade

As circunstâncias acabam nos forçando a assumir essa identidade falsa e a assumir o comando do Esquadrão Coringa, ladeados por três novos companheiros de asa. O aspecto mais instigante dessa abordagem é o fato de não começarmos como o herói consolidado que todos acreditam ver — em vez disso, precisamos lutar para corresponder à reputação que o codinome carrega. Para os nossos aliados, essa face simboliza a reconquista de suas terras, mas para os inimigos, representa o alvo mais valioso dos céus, digno de ser abatido a qualquer custo.

Ficamos, portanto, no centro dessa imensa pressão, com a responsabilidade de transformar uma mentira (que remete, em brilhante simetria, à lenda da última batalha de El Cid Campeador) em um feito concreto capaz de alterar os rumos do conflito. Essa dualidade entre o mito e a realidade confere à narrativa uma profundidade singular, explorando como símbolos abstratos podem ser tão decisivos quanto a habilidade técnica de um piloto dentro do cockpit.

Faça um rasante perfeito

Visão de dentro do cockpit do caça.
O nível de detalhes é surpreendente

Assumir o manche utilizando o controle do PlayStation pode, inicialmente, parecer um pouco desconfortável para quem não está habituado ao gênero. No entanto, Ace Combat 8 torna os primeiros passos surpreendentemente acessíveis, oferecendo comandos intuitivos que permitem ao jogador se divertir sem a necessidade de estudar um manual de aviação. É preciso, claro, aprender a gerenciar as variáveis de voo: controlar a velocidade, evitando frear demais e perder sustentação (o que pode levar a uma espiral descontrolada), manter o inimigo na mira e desviar de projéteis. Ainda assim, não demora para que o piloto atue com relativa fluidez. Ainda assim, dominar manobras avançadas e sobreviver a combates fechados (dogfights) exige prática e refinamento. Essa curva de aprendizado bem calibrada equilibra acessibilidade para iniciantes com a profundidade necessária para recompensar a dedicação de veteranos.

O título oferece dois perfis de pilotagem que mudam drasticamente a física de navegação. No modo padrão, as manobras são simplificadas e ideais para iniciantes, especialmente aqueles que jogam no controle. Já o modo avançado exige que o piloto execute comandos de rolamento e arfagem para curvar, tornando a experiência desafiadora, mas infinitamente mais precisa. Os entusiastas equipados com um sistema HOTAS, com manche e acelerador independentes, certamente encontrarão um nível superior de imersão, mas o DualSense do PS5 cumpre bem o seu papel. Um detalhe vital: o analógico direito serve estritamente para movimentar a câmera, portanto qualquer toque equivocado nesse comando em combates tensos pode resultar em desorientação espacial e perda de controle da aeronave.

Um esquadrão de caça inimigo.
Enfrente inimigos habilidosos

A câmera, aliás, é um ponto que não convence totalmente. Durante curvas acentuadas ou frenagens bruscas, o caça tende a se deslocar para as extremidades da tela em vez de permanecer centralizado, o que compromete a percepção tridimensional e dificulta o travamento de mira no inimigo. Embora seja um comportamento ao qual o piloto eventualmente se habitue, nas primeiras horas isso gera uma frustração desnecessária e eleva a curva de adaptação.

Uma vez no calor do combate, o arsenal básico de mísseis guiados e metralhadoras é expandido pelas armas especiais exclusivas de cada aeronave. O sistema de miras traz funções ágeis para travar e alternar alvos. Ao segurar o botão triângulo, por exemplo, a câmera fixa no oponente selecionado — um recurso indispensável para manter a consciência situacional. Além disso, três modos de radar auxiliam na leitura do posicionamento relativo em relação às forças hostis.

A verdadeira dificuldade reside em coordenar todas essas ferramentas enquanto se manobra para fazer o dogfight, buscando se posicionar na cauda do inimigo. O piloto também pode emitir ordens ao esquadrão, comandando os flancos para oferecer suporte, atacar de frente ou executar manobras específicas. Essa enxurrada de decisões em frações de segundo pode parecer esmagadora no início, mas a sensação de evolução é nítida a cada surtida, graças a uma campanha que introduz novos desafios de forma cirúrgica e gradual. 

O inimigo sendo abatido por um míssil.
Uma boa manobra aérea pode lhe garantir a vitória no combate

Fora do combate, logo após a segunda missão, desbloqueamos recursos adicionais como o Hangar (o espaço dedicado à contemplação dos caças e gerenciamento de seus arsenais), além de missões de treinamento e o modo Voo Livre. Essas opções são valiosas para se familiarizar com a física de navegação e explorar os limites de cada aeronave sem a pressão de ameaças hostis ou objetivos de tempo.

O Voo Livre, em particular, revela-se um excelente instrumento de aprendizado e contemplação. O modo permite testar manobras arrojadas e apreciar a vastidão dos cenários, transformando o ato de pilotar em um exercício de pura descoberta. Longe de ser um mero capricho secundário, esse ambiente de experimentação reforça a imersão e expande o senso de liberdade — uma assinatura que continua diferenciando a franquia no gênero.

Uma pintura acima de todos

Visão de frente do caça com montanhas nevada ao fundo.
Quase sempre você estará acompanhado

Ace Combat mantém um compromisso nítido com a estética militar realista, perceptível desde as primeiras missões no design meticuloso das aeronaves e do próprio porta-aviões Endurance. Os caças possuem uma presença imponente nos céus, marcados por uma riqueza de detalhes estruturais que reforça a sensação de se comandar máquinas de combate autênticas. Esse mesmo esmero se estende às demais embarcações e equipamentos que compõem os cenários. Há uma coerência visual minuciosa que confere credibilidade ao universo ficcional, sem exigir do usuário conhecimento técnico sobre engenharia aeronáutica, fortalecendo a imersão com uma ponte perfeita entre a fantasia geopolítica e a verossimilhança técnica.

Grande parte do apelo visual do jogo reside dentro do cockpit, justamente onde passamos a maior parte do tempo. Nuvens volumétricas, o reflexo do oceano e o jogo de iluminação moldam cenários espetaculares, onde a imensa sensação de escala frequentemente nos tira o fôlego — especialmente em momentos de pura tensão, como ao evadir um míssil inimigo colado à fuselagem enquanto mergulhamos em direção a uma metrópole.

Este não é um título focado em explorar cada esquina, mas em contemplar horizontes vastos em altíssima velocidade. A direção de arte soube aproveitar essa perspectiva aérea, transformando o firmamento em um palco grandioso que valoriza a experiência da pilotagem. A silhueta de um caça recortada contra as nuvens ou o oceano estendendo-se ao infinito sob as asas é um espetáculo tão marcante quanto qualquer cenário densamente povoado, provando que a verdadeira beleza reside na escala. 

Visão de fora da cabina do piloto.
Lá do alto a vista é mais bonita

Pequenos detalhes reforçam a sensação de cortar fisicamente os céus. Ao cruzar uma densa camada de nuvens, por exemplo, gotas de água cobrem o para-brisa e evaporam instantaneamente — afinal, estamos a bordo de um jato viajando a milhares de quilômetros por hora. É um efeito sutil, mas que intensifica tanto a percepção de velocidade quanto o contato direto com o ecossistema.

Por outro lado, as cenas no solo (ou, mais precisamente, nos convéses do porta-aviões) mantêm um bom nível técnico, mas exibem uma estética plástica característica de projetos desenvolvidos na Unreal Engine 5. Embora funcionais, esses trechos não alcançam o fotorrealismo avassalador que os voos proporcionam. É no ar que Wings of Theve encontra sua verdadeira identidade, onde todos os elementos visuais e mecânicos se encaixam para consolidar a experiência como um espetáculo aéreo.

Cada detalhe conta

Visão principal da aeronave, com informações na tela sobre munição, mapa e velocidade.
A vista de cima é sempre melhor

A sonoplastia de Ace Combat 8: Wings of Theve brilha ao nos ambientar de forma visceral no cockpit. O ronco dos motores, o disparo dos armamentos e os alertas sonoros de colisão que ecoam durante o voo acompanham a ação com maestria. Os caças soam imponentes e ameaçadores, mantendo o mesmo nível cirúrgico de atenção aos detalhes visto no departamento visual. As comunicações via rádio desempenham um papel central, cruciais tanto para coordenar as táticas quanto para construir o entrosamento do esquadrão.

A dublagem em inglês entrega excelente naturalidade e urgência em meio aos confrontos caóticos. No entanto, os diálogos rápidos e cheios de jargões militares exigem uma fluência total no idioma estrangeiro para serem assimilados de ouvido. É aqui que reside o calcanhar de Aquiles para os jogadores brasileiros: embora o título conte com legendas precisas, desviar os olhos da mira ou de um míssil na sua cola para ler textos na parte inferior da tela é uma receita certa para o desastre. É um daqueles títulos onde a ausência de uma dublagem em nosso idioma faz uma falta imensa, pois o áudio localizado permitiria acompanhar a densa trama sem nunca tirar o foco da pilotagem. 

Visão de cima do caça de combate.
Na imensidão do céu, você garante sua segurança

Um detalhe fascinante é a possibilidade de direcionar as comunicações via rádio para o alto-falante do controle. Ouvir as transmissões diretamente pelo DualSense adiciona uma camada extra de imersão, simulando perfeitamente a sensação de operar um rádio militar de curto alcance. É uma solução de engenharia simples, mas que se molda com perfeição à proposta do jogo. Quanto à trilha sonora, com exceção do tema do menu principal, que é dotado de um tom épico e solene, as demais composições funcionam como um suporte competente. Ainda assim, nos momentos de combate, a sonoplastia das turbinas e os diálogos estalados no rádio assumem o protagonismo da atmosfera, relegando a trilha de fundo a um papel meramente complementar para que os efeitos sonoros traduzam a verdadeira intensidade dos confrontos. 

Embora pareça surpreendente, essa é uma das marcas registradas pelas quais a franquia se tornou lendária: a mistura singular de arranjos orquestrais com o vigor do rock clássico ao estilo de Top Gun. Em Wings of Theve, essa tradição ganha um contorno inesperado. O título aposta alto em sua identidade musical ao introduzir um esquadrão aliado que também atua como uma renomada banda de rock, enquanto o esquadrão de arqui-inimigos é anunciado por um tema próprio e intimidador. Esse contraste sonoro amplia a dimensão da narrativa e transforma a trilha em uma poderosa ferramenta de caracterização para personagens e facções, com a música assumindo um papel simbólico capaz de inflamar rivalidades e injetar pura personalidade às forças em conflito.

Mais que um simples voo

No fim das contas, Ace Combat 8: Wings of Theve não tenta reinventar a roda, mas cada um de seus ajustes cirúrgicos faz dele um jogo muito superior ao anterior. A variedade de missões aumentou, os comandos estão mais amigáveis, os gráficos dão um show de escala e a trilha sonora mantém aquela energia absurda de sempre. É verdade que a história, às vezes, se estende um pouco mais do que o necessário, mas isso é um detalhe bobo perto do pacote completo. O que temos aqui é simplesmente o jogo de combate aéreo mais completo e divertido já lançado para consoles. Um jogo que equilibra perfeitamente o realismo técnico, o drama da guerra e a diversão acessível tanto para novatos quanto para veteranos dos céus.

Cópia de PS5 cedida pelos produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

Ace Combat 8: Wings of Theve

8.5

Nota Final

8.5/10

Prós

  • Arte e design
  • Combates
  • Gameplay
  • Co-op

Contras

  • Quebra de ritmo em alguns momentos