Há um vasto campo para explorar as obrigações, os ressentimentos e os relacionamentos complexos que emergem quando o legado de uma família se transforma em uma responsabilidade inevitável. The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline, aventura narrativa desenvolvida pela ONE-O-ONE GAMES, trabalha essas ideias por meio de quebra-cabeças e exploração em primeira pessoa. A experiência coloca o jogador no papel de um homem que tenta lidar com a maldição herdada de sua linhagem. No entanto, apesar da proposta promissora, o jogo não alcança o desenvolvimento necessário para sustentar plenamente sua premissa.
Desenvolvimento: One O One Games
Distribuição: Entalto Publishing
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura, Simulação
Classificação: 12 anos (medo, linguagem imprópria)
Português: Dublagem, legendas e interface
Plataforma: Xbox Series X|S, PS5, PC
Duração: 2 horas (campanha)
Considere a sua origem

A Divina Comédia é um monumental poema épico e teológico do século XIV que narra a jornada mística de Dante Alighieri através do Inferno, Purgatório e Paraíso, guiado pelo poeta romano Virgílio (que representa a Razão) e por sua musa Beatriz (que representa a Fé). Construída com uma rigorosa simetria baseada na numerologia cristã, a obra funciona como uma profunda alegoria sobre a salvação da alma humana, aliando discussões filosóficas e morais à lei do contrapasso (onde as punições no pós-morte refletem diretamente os pecados cometidos em vida), além de servir como uma contundente sátira política contra os inimigos que condenaram o autor ao exílio.
Gabriele Alighieri é retratado como um jovem que carrega um fardo de proporções quase míticas. Como descendente direto de Dante Alighieri, sua missão vai muito além de uma simples travessia: cabe a ele realizar um ritual capaz de selar o portal entre o Inferno e a realidade — uma responsabilidade cíclica transmitida como um legado inevitável. Essa herança, no entanto, não se resume a um dever mecânico; ela impõe um desgaste emocional e psicológico que torna o peso da tarefa ainda mais complexo.

À medida que avança em suas obrigações, Gabriele não apenas cumpre etapas místicas, mas também se depara com revelações sobre os segredos de sua linhagem. O processo expõe a natureza ambígua dessa tradição: o ritual exige um custo que não é meramente físico, mas profundamente psicológico. Ao mergulhar no abismo, o protagonista encontra um Inferno que deixa de ser um mero cenário externo para se tornar o reflexo distorcido de seus próprios dilemas internos. Esse espaço funciona como um espelho de suas fragilidades, trazendo à tona medos, ressentimentos e conflitos pessoais que intensificam a narrativa.
Essa abordagem confere ao título uma profundidade que transcende a fantasia sobrenatural. O Inferno, nesse contexto, atua como um dispositivo narrativo que traduz em imagens e desafios as angústias íntimas do personagem. Assim, o jogador é convidado a decifrar não apenas os obstáculos concretos, mas os significados simbólicos que emergem da jornada de Gabriele, tornando a experiência rica e multifacetada.

Embora esse seja o conceito central do jogo, a execução narrativa acaba se mostrando apressada e pouco consistente. A história falha em estabelecer uma base sólida para os temas que pretende desenvolver, resultando em uma progressão superficial. Gabriele, enquanto protagonista, carece de tridimensionalidade: suas motivações são pouco exploradas e até mesmo os cenários infernais — que deveriam refletir seu íntimo — raramente entregam camadas que enriqueceriam sua caracterização.
Além disso, o título dedica tempo insuficiente ao desenvolvimento dos relacionamentos do herói antes de exigir que as revelações posteriores cobrem um preço emocional. Essa falta de preparação compromete a força dramática dos acontecimentos, tornando difícil para o jogador criar vínculos genuínos com o elenco.

Da mesma forma, as reviravoltas da trama falham em gerar impacto, já que não há uma construção prévia que sustente o peso das descobertas. O resultado é um enredo carente de substância, no qual temas como família, engano e sacrifício aparecem mais como conceitos abstratos do que como experiências palpáveis. Em vez de provocar reflexão, esses elementos acabam esvaziados, deixando a nítida sensação de que o jogo desperdiça o brilhantismo de sua própria premissa.
Deixai toda a esperança, vós que entrais

A aventura se desenvolve em um ritmo clássico de simulador de caminhada e investigação, estruturada em torno de três ações principais que se alternam ao longo das poucas horas necessárias para concluí-la: explorar ambientes, procurar objetos e resolver quebra-cabeças. Essa cadência simples, quase ritualística, cria uma sensação de progressão linear, mas também limita a profundidade da mecânica. Em contrapartida, os cenários oferecem uma variação fascinante. A vila italiana é retratada com rigor e realismo, transmitindo uma atmosfera quase documental, enquanto o inferno ou como o proprio jogo chama, “Abismo”, apresenta uma estética lisérgica, fincada no terror psicológico. Essa transição entre o concreto e o surreal reforça a dualidade da narrativa: o mundo real como espaço de responsabilidade e o submundo como projeção da mente.
No Inferno, o jogador recebe a companhia de um guia ancestral — evocando a relação entre Dante e Virgílio. A entidade explica que o Abismo materializa a paisagem de sua alma, uma ideia de grande potencial simbólico. É nesse ponto que a direção artística da ONE-O-ONE GAMES se destaca: o plano infernal é representado como um espaço calcificado, onde árvores e corpos humanos se fundem em esculturas orgânicas que giram lentamente à medida que Gabriele avança. Poças de sangue se expandem em lagoas carmesim sob um céu leitoso e fantasmagórico. Essa construção visual não apenas impressiona, mas funciona como metáfora das tensões íntimas do protagonista, transformando a exploração mecânica em um mergulho puramente alegórico.

A forma como os quebra-cabeças são apresentados revela um cuidado notável em seu design. O jogo encontra um equilíbrio primoroso: permite ao jogador decifrar a lógica de cada desafio sem nunca oferecer explicações diretas, estimulando a dedução. Há um trabalho consistente no uso de símbolos, na encenação e na disposição das pistas, que funcionam simultaneamente como elementos narrativos e mecânicos, exigindo atenção minuciosa aos detalhes do cenário.
Embora a variedade dos enigmas não seja extensa, ela se mostra altamente relevante. Alguns demandam percepção auditiva apurada; outros dependem de observação visual minuciosa, enquanto certos desafios exigem conhecimento prévio de temas específicos. Essa diversidade mantém a cadência da jornada, evitando a monotonia. Além disso, há momentos em que os mistérios dialogam entre si de maneira inteligente, criando um gratificante senso de interconexão dentro do universo do jogo.

No entanto, há uma limitação significativa: o título não oferece qualquer tipo de sistema de dicas ou orientação. Caso o jogador fique travado, pode gastar longos minutos andando em círculos para entender o que o game espera dele. Se por um lado essa ausência de suporte funciona como uma escolha deliberada para reforçar a imersão e o peso do desafio, por outro, ela gera uma frustração desnecessária para quem não está acostumado a dinâmicas baseadas puramente em paciência e persistência.
Em síntese, os enigmas representam um dos pontos mais fortes da obra por sua integração orgânica com o enredo. Contudo, a falta de recursos de acessibilidade pode limitar o alcance dessa qualidade, tornando a experiência restrita e, em alguns momentos, excessivamente punitiva.
A natureza é a arte de Deus

Embora a narrativa seja pouco envolvente, a jogabilidade e a atmosfera sustentam pontos fortes que dão identidade ao título. Os corredores do Inferno apresentam uma arquitetura visualmente imponente, com uso expressivo de cores — onde rios de sangue e tonalidades intensas reforçam a opressão daquele ecossistema.
A alternância entre a mansão e o plano infernal amplia a variedade da exploração. Enquanto o submundo aposta em imagens grotescas e espaços antinaturais, a mansão — com suas alas amplas e mal iluminadas — transmite uma inquietação mais familiar e psicológica. Os ecos que percorrem seus cômodos vazios intensificam o clima, transformando até a realidade aparentemente segura em algo ameaçador. Em determinados trechos, o jogo recorre a jumpscares previsíveis, mas guarda raros momentos de impacto genuíno. Embora essa escolha não seja sofisticada, cumpre a função de manter o jogador em estado de alerta.

Cada teste é estruturado em torno de um enigma que exige atenção e raciocínio. A satisfação surge quando o jogador interpreta corretamente as pistas e compreende como as peças se conectam, já que a resolução costuma ser comunicada de forma coerente. O primeiro desafio, por exemplo, é relativamente simples, mas sua real dificuldade está em localizar todas as obras de arte necessárias para decifrar a resposta. Essa dinâmica reforça que o jogo valoriza a observação, recompensando a persistência. Em síntese, mesmo que a história falhe em sustentar o impacto emocional pretendido, a atmosfera visual e os quebra-cabeças entregam a imersão e a tensão que dão ao jogo uma assinatura própria.
Analisados em seu conjunto, os enigmas se estabelecem como o verdadeiro ponto culminante da experiência. Eles atuam como a espinha dorsal mecânica, apresentando testes que vão além de simples barreiras de raciocínio para enriquecer a ambientação, fundindo-se de maneira natural aos cenários e à carga alegórica do enredo. Aqueles que optarem por uma exploração minuciosa encontrarão pertences abandonados e trechos de diários espalhados pelo mapa. Esses itens opcionais aprofundam a mitologia ao redor dos ritos e lançam luz sobre os dilemas da linhagem, recompensando os atentos com um entendimento mais amplo das motivações em jogo.

Contudo, obter a totalidade desses registros exige um empenho considerável. A localização sutil desses objetos demanda um olhar atento e paciência contínua, o que pode afastar quem busca um ritmo mais fluido. Essa abordagem firme de game design define com clareza o perfil do jogador ideal: aquele que aprecia a desaceleração para absorver cada minúcia. Em suma, a resolução de problemas e o conteúdo colecionável sustentam o título com admirável firmeza, entregando um equilíbrio entre atmosfera e desafio que supera a própria entrega narrativa da campanha principal.
Um inferno menos amedrontador
The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline apresenta quebra-cabeças bem elaborados e ambientes inquietantes, capazes de transmitir com fidelidade a sensação de uma descida a um Inferno personalizado. No entanto, sua narrativa não sustenta o potencial da premissa. O fardo herdado por Gabriele deveria aprofundar temas como família, sacrifício e ressentimento, mas a curta duração e o desenvolvimento limitado dos personagens esvaziam essas ideias. No fim, resta apenas o prazer momentâneo de superar provações individuais e coletar fragmentos da história — sem que haja o peso emocional necessário para tornar a jornada verdadeiramente memorável.
Cópia de Xbox cedida pelos produtores
Revisão: Ailton Bueno




