Capa de ONE PIECE: Grand Gourmet

Review ONE PIECE: Grand Gourmet (PC) – O All Blue ainda está longe

Para quem acompanha One Piece, o Baratie dispensa apresentação. Foi nesse restaurante flutuante, ainda nos primeiros arcos do East Blue, que Luffy conheceu Sanji, o cozinheiro mulherengo que viraria o chef do bando. Faz todo o sentido que um jogo de culinária da franquia comece por ali. ONE PIECE: Grand Gourmet junta a Bandai Namco e a Kairosoft, o estúdio japonês por trás de Game Dev Story, e chegou no fim de outubro ao PC, às duas gerações do Switch e aos celulares, com a proposta de transformar o mundo de Eiichiro Oda num simulador de restaurante em pixel art.

Quando vi o anúncio, confesso que imaginei outra coisa. Pensei em algo na linha de Chef RPG, em que a gente controla o próprio cozinheiro, sai para coletar ingredientes e toca o restaurante com as próprias mãos. Grand Gourmet é um gerenciador visto de cima, em que organizamos o salão enquanto os personagens fazem o serviço. Fiquei um pouco decepcionado, mas a frustração é minha, e não é justo cobrar do jogo aquilo que ele nunca prometeu. Deixando a expectativa de lado, fica a dúvida de qualquer cliente novo. Será que o restaurante dos Chapéus de Palha merece a reserva?

Desenvolvimento: Kairosoft Co.,Ltd
Distribuição: Bandai Namco Entertainment Inc.
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Simulação
Classificação: 12 anos (conteúdo sexual, linguagem imprópria e violência fantasiosa)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, Switch, Switch 2, Android, iOS
Duração: 19,5 horas (campanha)/30 horas (100%)

Pedi um RPG, veio um gerenciador

Sanji reclamando com o Luffy

Quem já jogou algum título da Kairosoft vai se sentir em casa. O estúdio vive do celular desde o começo dos anos 2000 e tem uma fórmula tão reconhecível que seus jogos viraram quase um gênero à parte, com cenário visto de cima, números subindo na tela e uma lista infinita de coisas para desbloquear. Não é a primeira vez que ela empresta essa receita para uma franquia famosa (Doraemon ganhou o mesmo tratamento em 2024), e aqui ela foi aplicada praticamente sem ajustes.

A história começa com um problema de reputação. Um restaurante impostor anda se passando pelo Baratie e manchando o nome da casa, e Luffy e Sanji, separados do resto do bando, abrem o Baratie Número Dois para limpar a barra do original e, de quebra, reencontrar os companheiros. Assumimos o papel de um aprendiz de cozinheiro criado no início da aventura (são só seis visuais para escolher) e seguimos viagem pelas ilhas na ordem do mangá, passando por lugares como a Vila Syrup, Loguetown e Alabasta. A trama não tem grandes pretensões, mas é gostosa de acompanhar e carrega o humor da obra.

Evento de encontro do personagem jogável

No dia a dia, Sanji comanda a cozinha, os tripulantes servem as mesas e o nosso trabalho é montar o salão e cuidar do cardápio para manter a clientela feliz. Os pratos se organizam em combos com prato principal, acompanhamento, bebida e sobremesa, e acertar a combinação aumenta o preço e a procura. Inclusive, existem até pratos inspirados nas Akuma no Mi. Os ingredientes vêm de expedições cronometradas às ilhas da história, que no começo só o Luffy pode fazer e que também rendem receitas e boatos sobre outros personagens.

Os clientes são o coração do sistema. Cada personagem tem gostos próprios, e acertar o prato favorito ou dar o presente certo transforma o visitante em fã e depois em superfã, o que libera recompensas e, em alguns casos, um novo funcionário ou uma lojinha dentro do restaurante. Tem ótimos detalhes, como os gigantes, que só aparecem se houver mesas do tamanho deles. Boa parte da rotina, porém, roda sozinha, e o próprio jogo se oferece para montar os cardápios automaticamente, priorizando lucro, fidelidade ou equilíbrio. Quem procura desafio de verdade pode se frustrar, porque Grand Gourmet tem muito mais a ver com colecionar personagens do que com apertar as contas.

Um bando de personalidade

Evento de encontro do Zoro

Se, por um lado, a jogabilidade não é lá grande coisa, por outro, o visual é uma das melhores partes do jogo. A pixel art é linda demais, com cenários cheios de detalhes e personagens reconhecíveis à primeira vista, mesmo com tão poucos pixels para trabalhar. As animações são a cereja do bolo, da fumaça do Smoker ao tornado de areia do Crocodile, passando por Luffy despachando uma pilha de pratos como se fosse aperitivo. Dá vontade de pausar só para ficar olhando o salão funcionar.

Melhor ainda é perceber que os personagens têm a mesma vibe e a mesma personalidade da obra, e o jogo transforma isso em mecânica com um carinho que qualquer fã reconhece na hora. Nami, claro, garante desconto de 50% numa compra por dia. Franky amplia o restaurante, Jinbe busca passageiros pelo mar e Hatchan, que no mangá vende takoyaki, vem atrelado ao bolinho. Barba Negra só vira fã depois que a casa passa a servir torta de cereja e até a Rika, a menininha que levou bolinhos de arroz para o Zoro em Shells Town, tem tudo a ver com os onigiri.

Acho que já deu pra perceber que é muita gente. São mais de 400 personagens entre funcionários e clientes, com uma enciclopédia interna para acompanhar quem já passou pelo salão e encontros entre figuras que nunca se cruzaram no mangá. Para quem acompanha a obra há anos, ver quem vai entrar pela porta no dia seguinte vira o verdadeiro motor do jogo, bem mais do que os números do caixa. Os textos ainda chegam todos em português do Brasil, o que faz diferença num jogo com tanto texto para ler. Mas é justamente na hora de ler que a refeição começa a desandar.

Comanda embolada

Momento inicial no restaurante

Num gerenciador, a interface é a principal ferramenta de trabalho, e é exatamente nela que Grand Gourmet escorrega feio. Tudo tem cara de jogo de celular transplantado para o PC sem o mínimo de cuidado, a começar pelos balões de texto sem personalidade nenhuma, escritos numa fonte Calibri genérica que parece saída de um editor de texto e que briga o tempo todo com a pixel art caprichada do resto da tela. É prato de chef anunciado em cardápio plastificado de lanchonete.

Os menus seguem a mesma linha. São poluídos, cheios de abas, listas compridas e pontos de exclamação por todo lado, e o mouse nunca parece ter sido a prioridade. A câmera não gira, mover ou apagar um móvel exige mais cliques do que deveria e procurar um personagem específico para aumentar a fidelidade vira uma caçada numa lista sem fim. Entendo quem diz que essa é a cara da Kairosoft há mais de uma década, e é verdade, mas isso não justifica a versão de PC chegar com uma interface claramente pensada para o dedo na tela do celular.

O outro problema é o excesso de coisa acontecendo ao mesmo tempo. Missões surgem de repente no meio da tela, diálogos se sobrepõem, um cliente pede atenção enquanto outro anuncia novidade e o texto avança sozinho se você se distrair. Seguir a história nesse meio é confuso e mais de uma vez me peguei sem saber o que tinha acabado de acontecer. Os desenvolvedores já corrigiram em parte, com uma atualização que permite desligar o avanço automático de alguns textos e até dá para minimizar parte das notificações nas opções, mas ainda está longe da perfeição.

Menu de expansão do navio

Melhora com o tempo? Um pouco. Se você ignorar os problemas e jogar mais horas verá que esse começo, com uma enxurrada de tutoriais, é a pior parte, sua cabeça se acostuma com o ritmo depois. Mesmo assim, a sensação de desordem nunca some completamente. Para um jogo que deveria ser relaxante, Grand Gourmet muitas vezes deixa a gente mais estressado do que tranquilo.

O som também não ajuda. A trilha praticamente se resume a uma música em loop que quase nada lembra os temas do anime, além de não possuir dublagem e os efeitos sonoros serem básicos. Do ponto de vista técnico, o jogo roda travado em 30 quadros por segundo em todas as plataformas, o que não chega a atrapalhar um gerenciador em pixel art, mas vários bugs menores prejudicam a experiência, como um erro que pode impedir o carregamento do save em certas condições.

A conta, por favor

Na hora de pagar, a conta pesa um pouco. Grand Gourmet custa R$ 82,90 na Steam, praticamente o mesmo que a versão de celular (R$ 79,90 na App Store), o que reforça a sensação de que o PC recebeu o mesmo prato sem nenhum tempero a mais. Pelo menos, não há microtransações. O fã de One Piece, que vai amar cada personagem que cruza a porta, encontra aqui uma experiência divertida, enquanto quem procura um bom gerenciador e nem liga para a obra tem opções mais bem servidas por aí. O tempero de Sanji está todo ali, só falta alguém na Kairosoft reimprimir o cardápio e mandar o garçom parar de interromper a refeição a cada minuto.

Cópia cedida pelos produtores

Revisão: Julio Pinheiro

ONE PIECE: Grand Gourmet

6.5

Nota final

6.5/10

Prós

  • Pixel art belíssima
  • Personagens fiéis à obra
  • História divertida
  • Textos em português
  • Sem microtransações

Contras

  • Interface confusa
  • Fontes e balões genéricos
  • Excesso de avisos na tela
  • Cara de port de celular
  • Trilha repetitiva