Desenvolvido pelo estúdio australiano Beethoven and Dinosaur, Mixtape é um jogo na linha de um filme interativo no estilo “coming of age” que retrata o último dia de uma jovem em sua cidade natal antes de uma grande mudança. É, no geral, um título curto e bem apresentado, mas prejudicado por uma história derivativa, que não vai além de suas inspirações.
Desenvolvimento: Beethoven and Dinosaur
Distribuição: Annapurna Interactive
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Aventura
Classificação: 16 anos (drogas ilícitas, linguagem imprópria, violência)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, Switch 2, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 3 horas (campanha)
Sessão da tarde

O “coming of age” é um estilo de filme que foca no amadurecimento de seus personagens, narrando a transição da adolescência para a vida adulta e funcionando como uma cápsula do tempo desse período específico. Alguns dos filmes mais conhecidos e renomados desse tipo, tanto modernos quanto clássicos, são “Lady Bird: A Hora de Voar”, “Booksmart: Fora de Série”, “Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco”, “As Vantagens de Ser Invisível” e “Jovens, Loucos e Rebeldes”.
Mixtape é praticamente algo que você pode ver nesses filmes. O título tem uma estrutura reconhecível por conta disso e chama a atenção mesmo de quem não é da época que o game tenta emular, porque os temas tratados são universais, ainda que tudo seja centrado na vida numa cidade pequena nos Estados Unidos nos anos 90, sendo algo bem regional.

Sob a ótica de uma trilha sonora perfeita, Mixtape retrata o último dia de Stacey Rockford em sua cidade natal. A protagonista sonha em trabalhar com supervisão musical (quem escolhe o que toca em filmes, comerciais, séries, entre outros) e decide ir para Nova York, para tentar convencer uma produtora renomada a contratá-la. Em clima de despedida, o jogo vai fundo nas memórias dela com seus dois melhores amigos, mexendo com o tema de como as músicas reproduzidas durante o game estiveram presentes em vários momentos marcantes da vida de Stacey.
Jogabilidade simples e linear

A campanha, que dura cerca de três horas, se desenvolve quase como uma coletânea de videoclipes distintos. Os flashbacks, em boa parte do tempo, agem como uma ótima maneira de introduzir cada personagem, mas Mixtape só engrena de verdade perto de seu final, quando supera essa fase inicial – momento em que tudo fica mais interessante, porque lembrar é legal, mas não tanto quanto colecionar novos momentos. Nada apresentado por Mixtape é fora de série ou algo que nunca tenha sido feito pelos filmes mencionados acima, mas resulta em uma experiência carismática e cativante, embora rasa.
No entanto, a jogabilidade não é o foco exato de Mixtape. O jogo oferece apenas interações básicas, que só existem para complementar a trama e interagir com itens que levam o jogador para novas cenas. Ou seja, é possível rebobinar fitas, andar de skate, soltar fogos e até explodir objetos, realizando as ações dos personagens conforme o que vai acontecendo na história. O título tem muitas partes diferentes entre si, e algumas são extremamente criativas, enquanto outras são flashbacks menos musicais que atrapalham o ritmo da narrativa.

O que talvez tenha faltado em Mixtape é a opção de poder realizar determinadas escolhas em certos pontos-chave da narrativa, justamente para que ela não seja totalmente linear no decorrer de toda a sua duração e dê interatividade para quem joga e assiste. Por isso, Mixtape não tem valor de replay e funciona, com o mesmo impacto, somente na primeira jogatina.
Gráfico de filme, mas que não se adapta a jogos

Mixtape adota o estilo de animação 3D em stop motion que vem sendo bastante popular nos últimos anos, consagrado por filmes como “Guerreiras do K-Pop” e “Homem-Aranha no Aranhaverso”. Então, os personagens são animados em uma taxa de quadros menor do que o restante dos cenários e objetos, mas, em compensação, com mais detalhes do que o usual.
Esse estilo funciona para as cutscenes e resulta em uma experiência com visuais incríveis, que só não parece totalmente um filme porque há alguns problemas típicos de renderização em tempo real, como os reflexos bugados por causa da falta do ray tracing, por exemplo. Porém, a gameplay, que também segue o mesmo tipo de animação, fica desorientadora, causando um efeito semelhante à cinetose que se agrava em telas que vão além dos 60 fps. Essa escolha estética dá certo quando é algo para ser assistido, mas, se é um jogo que exige interatividade, a fluidez é necessária. A versão de PC não apresenta falhas de desempenho nem travamentos, embora haja bastantes telas de carregamento entre as cenas da história.

E, claro, temos a questão central do jogo: a trilha sonora. Os desenvolvedores licenciaram várias músicas para compor as cenas da trama, marcada por faixas de bandas e artistas como Devo, Joy Division, The Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Silverchair e muitos outros. Um detalhe é que o jogo, apesar de ser situado nos anos 90, não se prende a faixas dessa década, aproveitando a ideia de a protagonista ser meio hiperfocada em música e indo bem atrás para trazer ótimas canções que dão o tom pensado e calculado por ela em quase todas as cenas da campanha do jogo. É algo que funcionou, no melhor estilo “Baby Driver”.
É legalzinho
Mixtape teria sido mais interessante se tivesse uma essência mais próxima do que os produtores australianos realmente viveram em vez de ser uma mera cópia do cinema estadunidense. O desenvolvimento de grandes games não é concentrado em um lugar só, então há sempre esse espaço para visões diferentes e que fogem de padrões que foram estabelecidos por uma cultura mais hegemônica e exportada para outros países ao longo do tempo. Mas, para quem gosta de games que seguem a linha de filmes interativos, Mixtape é um verdadeiro deleite. O título poderia ter sido um pouco mais original em termos de roteiro, já que os desenvolvedores acertaram demais em relação à apresentação e em vários dos videoclipes jogáveis, valendo a pena dedicar três horas para acompanhar alguns pedaços da vida da protagonista por isso.
Cópia de PC adquirida através do Xbox Game Pass
Revisão: Jason Ming Hong




