onimusha

Review Onimusha: Way of the Sword (Xbox Series X) – O melhor caminho sempre é o da espada

Após duas décadas de ausência, a franquia Onimusha retorna triunfante, reafirmando sua relevância histórica no cenário dos games. Com Onimusha: Way of the Sword, a Capcom resgata com maestria o prestígio de sua era de ouro, entregando uma obra que dialoga perfeitamente tanto com veteranos quanto com uma nova geração de jogadores. Indo muito além da mera nostalgia, o título prova que certas propriedades intelectuais possuem um valor atemporal e jamais deveriam ser esquecidas.

Desenvolvimento: Capcom

Distribuição: Capcom

Jogadores: 1 (local)

Gênero: Ação, Aventura

Classificação: 18 anos (violência extrema)

Português: Dublagem, legendas e interface  

Plataforma: Xbox Series X|S, PS5, PC, Switch 2

Duração: 21 horas (campanha)

Sua indesejada missão

Miyamoto Musashi
Receba o fardo pesado da missão

Onimusha: Way of the Sword apresenta Miyamoto Musashi em uma jornada marcada pela dualidade entre a ambição e o destino. Seu objetivo inicial de tornar-se o maior espadachim do Japão é tragicamente interrompido por uma morte prematura nas mãos dos Genma. Ressuscitado pela manopla Oni, Musashi renasce como um Onimusha, mas carrega o fardo da relutância ao depender de um poder que não é fruto de sua própria disciplina. A narrativa se desenvolve justamente em torno dessa contradição: enquanto percorre o país enfrentando hordas demoníacas para impedir a abertura dos portões do Inferno, ele busca decifrar o verdadeiro significado da força. O jogo, assim, transcende os combates intensos ao propor uma reflexão profunda sobre identidade, sacrifício e a natureza do poder. 

Musashi é construído como o eixo narrativo mais sólido de Onimusha: Way of the Sword, funcionando como o verdadeiro catalisador da experiência emocional do jogador. Seu comportamento despreocupado, aliado a uma confiança serena, é traduzido de forma consistente pela direção, reforçando sua identidade como um guerreiro que encara qualquer desafio sem perder a compostura. O grande destaque, porém, está na expressividade inédita que a Capcom atribui ao personagem: ele apresenta uma rica gama de gestos e micro expressões faciais que revelam nuances sutis de sua personalidade, tornando-o profundamente humano. Esse avanço escancara a evolução do estúdio em animação e captura de performance, posicionando Musashi como uma das figuras mais complexas e bem trabalhadas da empresa até hoje. Assim, o título resgata uma lenda e demonstra como a tecnologia pode ampliar a profundidade dramática de uma franquia clássica. 

Musashi observa ao fundo, uma região devastada pelos demônios.
Explore regiões dominadas por demônios

A representação inicial do personagem pode soar arrogante, sobretudo por sua relutância em aceitar o poder concedido pela Manopla Oni. No entanto, esse traço narrativo funciona como um forte ponto de identificação para o jogador, já que traduz o orgulho genuíno de quem busca se aprimorar exclusivamente pelo próprio esforço. O jogo explora essa tensão ao longo da jornada, mostrando como Musashi gradualmente reconhece o valor da oportunidade recebida. A Manopla Oni, antes vista como uma imposição incômoda, passa a ser encarada como um instrumento indispensável, permitindo-lhe enfrentar adversários ainda mais fortes e lendários. Essa evolução transforma a narrativa em uma reflexão sobre os limites da força individual e a necessidade de adaptação diante do inevitável. 

Musashi não é o único elemento de destaque em Onimusha. O jogo constrói um elenco secundário primoroso que, em diferentes momentos, consegue rivalizar com o carisma do protagonista. Desde o estoico Ono no Takamura, que atua como guia e mentor ao representar a figura de um Onimusha tradicional, até a vibrante Izumo no Okuni, cuja energia alegre quebra a solenidade excessiva da jornada, cada figura acrescenta uma dimensão única à narrativa. Shizuka Gozen, por sua vez, desempenha um papel fundamental ao habitar a própria Manopla Oni, oferecendo orientação e suporte direto que moldam a motivação de Musashi. Essa diversidade de personalidades evidencia a habilidade da Capcom em criar coadjuvantes capazes de roubar os holofotes, demonstrando uma enorme maturidade e evolução na construção de personagens dentro da franquia.

Musashi fechando o portal que transporta os demônios para o nosso mundo.
Feche portais para impedir novas aparições

Os antagonistas também se destacam como alguns dos mais memoráveis já concebidos pela Capcom. Sasaki Ganryu é apresentado como a personificação da ambição descontrolada: um guerreiro que busca poder pelo caminho distorcido da absorção de almas humanas. Sua presença escancara o contraste entre a disciplina de Musashi e a corrupção que nasce da busca pelo tipo “errado” de força. Já Dokyo representa outro arquétipo igualmente perturbador, o da ”cientista maligna”. Sua postura calculista e a constante sensação de que há um motivo oculto por trás de suas ações geram um desconforto latente, tornando-a uma vilã que transcende o mero estereótipo da insanidade. Ao reunir oponentes tão distintos e bem definidos, o jogo amplia sua profundidade narrativa, explorando diferentes faces da corrupção que se contrapõem à jornada do herói.

Seja o melhor

O personagem chegando de forma furtiva, atrás de um inimigo.
A furtividade também está presente no jogo

O sistema de combate se estrutura em uma base aparentemente simples, mas que revela grande profundidade estratégica ao longo da experiência. O jogador dispõe de dois tipos de investidas: o ataque rápido, executado com uma mão e voltado para o dano direto, e o golpe pesado, desferido com ambas as mãos, cuja função principal é estourar a postura dos inimigos. Essa mecânica é reforçada pela presença de dois medidores distintos em cada adversário (vida e estabilidade), que criam um ciclo constante de risco e recompensa. Ao quebrar a estabilidade do oponente, abre-se uma janela de oportunidade para infligir danos massivos, incentivando o uso tático dos movimentos pesados. Contudo, essa mesma lógica se aplica ao nosso personagem, cuja barra de equilíbrio também é vulnerável. Essa simetria adiciona uma tensão permanente às batalhas, obrigando o jogador a dosar agressividade e defesa em um sistema que promove complexidade emergente e reflete o tema central da obra: a busca pelo equilíbrio entre força e disciplina.

As ferramentas defensivas são projetadas para equilibrar acessibilidade e profundidade estratégica. O jogador pode optar por esquivas rápidas, capazes de evadir múltiplos golpes, ou recorrer ao bloqueio e ao contra-ataque imediato. Essa dualidade cria um cenário onde certos ataques exigem respostas específicas (seja esquivar ou repelir), demandando uma leitura precisa de cada situação. Para garantir a consistência na curva de aprendizado, o jogo sinaliza visualmente a parte do corpo com a qual o inimigo irá golpear. Embora essa mecânica funcione como um tipo de tutorial estendido até trechos avançados, ela assegura clareza e justiça nos confrontos.

Musashi enfrentando um chefe gigante, que utiliza armadura por todo seu corpo.
Algumas lutas exigem mais do jogador

A mecânica de parry, em especial, adiciona camadas fascinantes de complexidade: quanto mais utilizada sequencialmente, menor se torna seu impacto sobre o medidor de estabilidade do oponente, incentivando o jogador a dominar o Deflect. Este recurso, por sua vez, exige um timing muito mais rigoroso, mas entrega recompensas massivas ao reduzir drasticamente a postura adversária. O resultado é um ecossistema que não apenas valoriza a habilidade técnica e consolida a defesa como uma estratégia ativa que dita o ritmo das batalhas.

Além da base sólida do combate, Onimusha: Way of the Sword introduz um rico arsenal de armas secundárias que são desbloqueadas ao longo da jornada. Cada uma delas possui efeitos únicos que instigam o jogador a experimentar diferentes abordagens estratégicas. Um ótimo exemplo são as adagas capazes de extrair as almas dos inimigos, recurso que amarra perfeitamente a mecânica de combate à temática central de absorção de poder. A lança, por sua vez, evoca um breve turbilhão ao redor de Musashi, funcionando como uma excelente ferramenta de controle de grupo que pode evoluir para uma tempestade de fogo ao interagir com elementos do cenário. Já os martelos duplos se destacam pelo impacto brutal, projetados especificamente para estraçalhar a estabilidade dos adversários e consolidar a força bruta como uma alternativa viável. Essa variedade fortalece o senso de progressão e torna os confrontos mais variados, dinâmicos e recompensadores.

A base do desempenho

O personagem armando o arco, pronto para disparar contra um inimigo adiante.
O arco é essencial em muitos momentos do jogo

A Capcom demonstra, mais uma vez, sua dedicação em aprimorar a RE Engine, o motor gráfico proprietário da empresa. Embora a tecnologia apresente limitações conhecidas em cenários de mundo aberto, as melhorias em otimização são perceptíveis em Onimusha: Way of the Sword. O game surge como a prova cabal desse avanço, mantendo uma taxa de quadros estável e consistente mesmo em duelos caóticos e cenários densamente povoados. O título evidencia que a desenvolvedora soube refinar seu motor proprietário para contornar desafios técnicos e entregar uma fluidez impecável. 

Jogando no Xbox Series X, a consistência técnica impressiona, pois o título crava 60 quadros por segundos estáveis no modo desempenho. Esse desempenho é acompanhado por um refinamento visual que exalta a qualidade da direção de arte, perceptível em cenários ricos em contrastes de iluminação, folhagem densa e na impressionante renderização de cabelos. Embora algumas áreas internas apresentem uma iluminação mais plana, esse sutil recuo estético parece uma escolha deliberada em prol da estabilidade absoluta. 

A forma final do personagem. Com armadura e uma espada em chamas. A personificação do verdadeiro Onimusha.
Alcance o poder absoluto

Porém, essa escolha técnica gera uma sensação de vazio ou falta de impacto visual em locais como Kyoto, onde a ambientação deveria transmitir maior riqueza estética. Ainda assim, o resultado é uma experiência que prioriza a fluidez técnica, provando que a Capcom atingiu a maturidade ao colocar o gameplay responsivo como o verdadeiro coração do jogo. Por outro lado, durante os combates contra chefes, o jogo compensa essas falhas com efeitos intensos e pirotecnias visuais bem trabalhadas, que elevam a dramaticidade das batalhas e reforçam a imersão.

A trilha sonora merece destaque especial: composta quase exclusivamente por instrumentos tradicionais japoneses, ela não busca ser memorável fora do jogo, mas sim funcional dentro dele. Sua cadência intensa e atmosfera sombria amplificam o caráter sobrenatural da jornada, criando uma identidade sonora que dialoga diretamente com o tema da obra. Assim, mesmo com limitações visuais pontuais, Way of the Sword equilibra técnica e estética, sustentando-se pela força de sua direção artística e musical.

O Japão lhe espera

Onimusha: Way of the Sword sela um retorno marcante para uma franquia que esteve adormecida por anos, provando que a Capcom conseguiu unir com precisão a essência que tornou a série icônica ao refinamento dos jogos de ação modernos. O resultado é uma obra que se posiciona como referência no mercado, equilibrando uma narrativa envolvente e um combate escalável. Com opções de acessibilidades e níveis de desafio distintos, o título entrega o que muitos consideraram a definição de um hack ‘n slash perfeito, tanto em ritmo quanto em execução, sendo imperdível para veteranos e altamente acessível para novos jogadores. Por fim, o jogo mostra que tradição e inovação podem coexistir em perfeita harmonia, consolidando Way of the Sword como um dos melhores retornos dos tempos recentes.


Cópia de Xbox Series X|S cedida pelos produtores

Onimusha: Way of the Sword

8.5

Nota Final

8.5/10

Prós

  • Arte e design
  • Diversão
  • Gameplay
  • Duração

Contras

  • Quests
  • Iluminação em alguns pontos