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Review Directive 8020 (Xbox Series X) – O enigma de Tau Ceti f

Marcando o início da aguardada segunda temporada da The Dark Pictures Anthology, Directive 8020 abandona as casas mal-assombradas e os assassinos em série em favor do frio e implacável vácuo do espaço. Assumindo de forma independente o papel de desenvolvedora e publicadora, a Supermassive entrega uma experiência de horror de sobrevivência de ficção científica que busca expandir, de uma vez por todas, as fronteiras do que um “filme interativo” pode ser. 

Desenvolvimento: Supermassive Games
Distribuição: Supermassive Games
Jogadores: 1-5 (local)
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: 18 anos (violência extrema, linguagem imprópria)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S
Duração: 8 horas (campanha)/16 horas (100%)

Síndrome do impostor espacial 

Acorde no espaço profundo para viver um pesadelo.

A premissa de Directive 8020 bebe diretamente e sem pudor das fontes mais puras do horror psicológico e da ficção científica. A Terra está agonizando, e a humanidade aposta suas últimas fichas na imensa nave-colônia Cassiopeia, enviada para explorar e preparar o planeta Tau Ceti f, localizado a distantes 12 anos-luz de casa. 

O pesadelo ganha contornos reais quando, nos estágios finais da viagem, um impacto de meteoro traz um organismo alienígena desconhecido para as entranhas da nave, capaz de mimetizar fisicamente e perfeitamente suas presas. O que se desenrola a partir disso é um thriller psicológico sufocante, onde a maior ameaça não espreita apenas nos dutos de ventilação, mas na assustadora possibilidade de que o tripulante caminhando ao seu lado não seja humano.

O roteiro acerta em cheio ao construir uma atmosfera de desconfiança absoluta. O elenco, liderado por Lashana Lynch (no papel da piloto Brianna Young), entrega performances que elevam o peso dramático do material. A sensação de claustrofobia e isolamento é palpável desde os primeiros minutos, com a narrativa ramificando-se não apenas em torno da sobrevivência contra o monstro, mas também através de uma intrincada subtrama que envolve a megacorporação Corinth e escusas conspirações corporativas. 

Muito além do filme interativo 

Qualquer um pode ser o inimigo.

Se nos títulos anteriores da antologia a jogabilidade era amplamente restrita a explorar pequenos cenários engessados e depender de reações rápidas em QTEs (eventos de ação rápida) exaustivos, Directive 8020 finalmente tenta quebrar essas amarras introduzindo uma camada genuína de horror de sobrevivência. O grande trunfo deste novo ciclo de gameplay é a adição de mecânicas de furtividade ativas.

Em vez de apenas assistir a uma cinemática e reagir no último segundo, o jogador agora precisa ativamente se esgueirar pelas sombras da nave, evitar meticulosamente o campo de visão dos alienígenas e utilizar o ambiente a seu favor. 

O jogo implementa o “pulso ambiental”, uma mecânica que permite rastrear a posição dos inimigos e objetos interativos por alguns breves segundos, criando momentos tensos e dinâmicos de gato e rato. Há uma ênfase muito maior no gerenciamento, a movimentação pelos cenários e a resolução de pequenos quebra-cabeças integrados para restaurar a energia ou consertar sistemas vitais fazem com que você sinta o peso de cada passo. O jogador não é mais um espectador passivo, mas sim o responsável direto pela gestão de risco da tripulação.

Sistema de Pontos de Virada faz com que seja fácil mudar os acontecimentos.

A maior inovação de Directive 8020 é, indiscutivelmente, o sistema de Turning Points (Pontos de Virada). No passado, um único deslize no controle ou um QTE falho resultava na morte injusta de um personagem, forçando o jogador a aceitar a perda ou a recomeçar capítulos extensos do zero. Agora, o jogo permite retroceder cirurgicamente para momentos-chave e encruzilhadas narrativas para explorar rotas alternativas sem a necessidade de repetir horas de gameplay maçante. Essa funcionalidade respeita enormemente o tempo de quem deseja explorar todos os caminhos, embora o modo Sobrevivente sabiamente bloqueie o recurso até a conclusão da história, preservando a tensão intocada para os mais puristas.

Outro diferencial mecânico importante é o sistema de Destinos. Conforme o jogador toma decisões menores e escolhe linhas de diálogo específicas, os personagens desenvolvem e cristalizam traços de personalidade (como Seriedade, Lealdade ou um tom Brincalhão), o que eventualmente os aprisiona a rotas narrativas mutuamente exclusivas. Essa dinâmica adiciona uma complexidade bem-vinda, fazendo com que as atitudes iniciais tenham ecos severos nas horas finais da jornada.

A beleza sombria da Cassiopeia 

Destinos travam seu personagem com base em como eles tem se comportado no passado.

Rodando na Unreal Engine 5, o visual do jogo é um verdadeiro espetáculo de iluminação dinâmica e texturas realistas. A direção de arte realiza um trabalho fenomenal ao criar uma nave espacial que soa crível: utilitária, fria e completamente opressiva. 

No entanto, há uma falha de apresentação que inevitavelmente quebra um pouco a imersão para os veteranos da franquia. Para um projeto que se posiciona como um grande reinício, a Supermassive optou por reutilizar severamente os modelos faciais de atores de seus jogos anteriores para compor a maior parte da tripulação de apoio. Ver os mesmos rostos familiares interpretando personagens totalmente diferentes diminui o impacto e tira um pouco do brilho de “novidade” que a segunda temporada tanto alardeia.

Num terror espacial, onde a furtividade é essencial, o design de áudio precisa assumir o protagonismo, e aqui ele não decepciona. A trilha sonora entende a importância do silêncio e sabe exatamente quando ser opressivamente grandiosa e quando recuar para dar espaço aos perturbadores sons ambientes da nave Cassiopeia. O ranger de metais estressados sob pressão no vácuo, passos ecoando em decks vazios e, principalmente, os grunhidos inarticulados e sintéticos dos mimetizadores criam um palco sonoro de pura ansiedade.

Quando a furtividade se torna um fardo 

Enfrente a si mesmo

Apesar dos avanços criando um jogo de terror mais encorpado, Directive 8020 escorrega em algumas decisões de game design. A principal adição, a furtividade livre, que nas primeiras horas é instigante e envolvente, acaba sendo esticada até o seu limite. 

Como a premissa do jogo retira qualquer poder de fogo das mãos da tripulação, cada encontro tenso acaba decaindo para o exato mesmo ciclo de gameplay: agachar-se nas sombras, utilizar o pulso ambiental, desviar rotas e jogar objetos para distrair a inteligência artificial. Ao chegar no terço final da aventura, essas seções perdem totalmente o frescor do medo e transformam-se em obrigações mecânicas repetitivas. Falta criatividade ou mecânicas secundárias para variar esses encontros.

Faça escolhas que definirão quem chega vivo até o final.

O design de níveis no primeiro ato também peca pela redundância. O jogador se vê forçado a caminhar por seções da nave exageradamente lineares e claustrofóbicas que se assemelham a corredores sem fim, restringindo a exploração orgânica. 

Outro grande problema está ligado ao inovador sistema de Destinos. Embora adicione profundidade, na prática, essa mecânica ocasionalmente trava o jogador, impedindo-o de tomar a decisão lógica de sobrevivência em um momento de vida ou morte simplesmente porque, horas antes, o personagem acumulou pontos no traço de personalidade “errado”. Remover ativamente o controle e a agência do jogador em prol de manter a coerência predefinida de uma ramificação vai diretamente contra a principal premissa da antologia.

Um salto quântico ou apenas mais do mesmo? 

Em comparação direta a grandes sucessos passados como Until Dawn e The Quarry, esta é inegavelmente a investida mais madura e ousada da equipe. Para o leitor assíduo, o aviso final é claro, mesmo com o considerável desgaste furtivo na reta final e algumas escolhas narrativas ocasionalmente engessadas, o grande avanço da fórmula de terror da Supermassive é totalmente inegável. A jornada sombria de Directive 8020 entrega uma dose perversa, muito inteligente e genuinamente assustadora de pavor sideral que definitivamente vale o seu valioso tempo e toda a sua gigantesca coragem.

Cópia de Xbox cedida pelos produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

Directive 8020

8

Nota Final

8.0/10

Prós

  • Sistema de “Pontos de Virada”
  • Atmosfera de terror e paranoia
  • Evolução da jogabilidade

Contras

  • Furtividade repetitiva na reta final
  • Sistema de destinos restritivo
  • Linearidade excessiva no primeiro ato