Capa de Life is Strange: Double Exposure

Review Life is Strange: Double Exposure (PC) – Novas bagunças temporais

Com o tempo, a franquia Life is Strange se consagrou em um formato de antologia, mas isso mudou em 2024, quando os desenvolvedores da Deck Nine (e não os criadores originais da Don’t Nod) decidiram revisitar como Max Caulfield está após toda a situação de Arcadia Bay. Life is Strange: Double Exposure retrata uma protagonista mais velha, sem usar seus poderes e agora trabalhando com arte em uma universidade, até que ela se vê envolvida em um mistério sobre a morte de sua melhor amiga — que, apesar de começar de forma envolvente, decepciona por tomar rumos péssimos.

Desenvolvimento: Deck Nine

Distribuição: Square Enix

Jogadores: 1 (local)

Gênero: Aventura

Classificação: 16 anos (drogas, violência, temas sensíveis)

Português: Interface e legendas

Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S, Switch

Duração: 13 horas (campanha)

Um mistério com reviravoltas estranhas

Safi em Life is Strange: Double Exposure

Em Life is Strange: Double Exposure, vemos uma Max que é incapaz de voltar no tempo, sem utilizar seus poderes há anos e vivendo uma vida normal, enquanto trabalha com fotografia em uma universidade. Em certo momento, Max encontra Safi, uma amiga, morta em uma praça e, em meio ao luto, sente o pulso de uma realidade diferente. Com isso, ela descobre uma linha do tempo na qual Safi não foi assassinada e começa a viajar entre mundos diferentes para investigar o caso. O que ocorreu em uma linha temporal pode não ter acontecido em outra, e isso vai, aos poucos, levando Max para uma grande confusão — que, claro, tem efeitos completamente imprevisíveis.

O jogo tem um elenco diverso, com personagens multifacetados que propiciam interações e conversas realistas, o que é ótimo, já que boa parte da campanha é dedicada ao desenvolvimento deles. O problema é que muito da proposta do game, indo além da sinopse, não funciona totalmente. Max e Safi não parecem ser melhores amigas, pois elas mal interagem na trama e, quando conversam, têm diálogos meio ríspidos, no mínimo. A principal decisão do primeiro Life is Strange não importa para os rumos de Double Exposure, e muito do que é mostrado nesse jogo não vai para algum lugar e é escanteado pelo roteiro.

Moses e Max

É um pouco óbvio que todo jogo narrativo baseado em escolhas não permite uma liberdade total para que o jogador dite os rumos da trama. Sempre há uma lógica prevalecendo por trás de tudo, até para que essa fórmula funcione. No caso, o pessoal da Deck Nine decidiu, já no começo, perguntar diretamente ao jogador qual foi a decisão tomada no final do primeiro Life is Strange. Isso, porém, não chega a afetar tanto a trama de Double Exposure. Chloe pode, sim, ter morrido, mas, caso o jogador tenha optado por destruir Arcadia Bay, ela e Max ficam afastadas e interagindo pela internet, em uma relação ruim que não é característica das personagens, justamente para que os eventos de Double Exposure possam acontecer independentemente da opção feita pela Max lá atrás.

No geral, a narrativa começa até de uma forma interessante, mas perde seu rumo lentamente, tanto porque a resolução do mistério não é satisfatória. Os desenvolvedores também exageraram nos poderes de Max e dos outros personagens, e em pouco tempo, a protagonista já é capaz de transmutar objetos de uma linha do tempo em outra, por exemplo. Então, Double Exposure foge do tom da franquia em si por conta desses exageros. Em vez de só flertar levemente com o sobrenatural, certos pontos da narrativa chegam até a lembrar X-Men, sendo, de fato, uma trama que não funcionou para a série Life is Strange.

Alternando entre mundos

Sentindo mundos em Double Exposure

Assim como no restante da franquia, a jogabilidade de Life is Strange: Double Exposure consiste em explorar as fases e conversar com os personagens. É necessário decidir o que Max deve falar para eles, moldando cada relação entre a protagonista e o elenco com base nas escolhas feitas durante os diálogos. A diferença agora é que há, essencialmente, duas versões de cada personagem: uma afetada pela morte de Safi, em um clima mais nebuloso, e outra em que tudo está normal.

É possível alternar entre esses dois mundos em locais específicos do mapa, bastando apertar um botão para que Max vá de uma realidade para a outra. É fascinante como esse aspecto do jogo funciona, porque todos os personagens têm duas versões, exceto a Max. Ela literalmente some de uma dimensão enquanto está em outra, e isso é algo que vai sendo notado pelos outros personagens, com implicações até nos relacionamentos que Max pode ter ao longo do game.

Diálogo em Double Exposure

Em vários momentos, a protagonista precisará ir até uma realidade para verificar um detalhe para progredir em seus objetivos em outra. É um loop de gameplay parecido com as voltas no tempo, mas com diferenças suficientes para dar um ar de novidade à franquia. Um detalhe que é digno de atenção, apesar de não ser tão importante, é a possibilidade de escolher roupinhas para Max sempre que um novo capítulo se inicia. Há DLCs à venda com roupas adicionais, incluindo uma colaboração com Final Fantasy VII, além de um arco narrativo pago envolvendo um gatinho perdido — um conteúdo que com certeza deveria estar no jogo base.

Lado técnico atrapalha tudo

Outra Max em Double Exposure

A direção artística de Life is Strange: Double Exposure é agradável, principalmente porque cada realidade tem sua paleta de cores — uma retrata a normalidade com cores claras, enquanto o mundo em que Safi morre é escuro e visivelmente melancólico. Essa discrepância gráfica funciona e dá um bom peso para a trama, mas o desempenho na versão de PC não é bom e chega a atrapalhar a experiência cinematográfica proposta pelo game.

O jogo é excessivamente pesado, não traz suporte a tecnologias de upscaling como o FSR e possui bugs que atrapalham a apresentação constantemente, como serrilhados em cenas com efeitos de blur e de profundidade de campo. Até a tela inicial, por vezes, conta com bugs em reflexos, sendo um ponto em que o jogo não deveria ter falhas. É muito mais fácil reparar em qualquer defeito visual em algo que passamos mais tempo assistindo do que efetivamente jogando.

Mapa de Double Exposure

Entretanto, a localização para o português é excelente. Os responsáveis fizeram boas adaptações no texto original, e a interpretação de Hannah Telle, a atriz de Max que retornou para esse título, resulta em uma protagonista cativante, por mais diferente que ela seja de sua versão do primeiro jogo da franquia. O game também acerta em sua trilha sonora, com faixas calmas — só faltou atenção ao lado técnico, infelizmente.

Não é tão empolgante

Life is Strange: Double Exposure mexe em um vespeiro e entrega uma narrativa que tem, sim, seus pontos positivos, mas que sofre com uma infinidade de decisões questionáveis por parte dos desenvolvedores. Mesmo com a volta da Max, Double Exposure não é um Life is Strange que valha a pena ser prestigiado por si só. No entanto, o game é praticamente obrigatório para conseguir compreender os eventos de sua sequência direta, que traz uma história melhor, por mais que alguns elementos desse jogo que não deram certo continuem sendo desenvolvidos na continuação — e esse sim, embora imperfeito, propicia uma boa experiência.

Cópia de PC adquirida pelo autor

Revisão: Jason Ming Hong

Life is Strange: Double Exposure

7

Nota Final

7.0/10

Prós

  • Jogabilidade entre realidades é legal

Contras

  • Bugs na versão de PC
  • Jogo base é incompleto
  • Trama não funciona