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Review The Shore (PC) – Onde o luto se encontra com o horror cósmico

A adaptação de obras literárias para os videogames é sempre um terreno pantanoso, mas quando se trata do panteão de horrores cósmicos criados por H.P. Lovecraft, o desafio transcende a narrativa e invade a própria mecânica. Como traduzir o indescritível e a loucura que desafia a compreensão humana para um meio visual e interativo? The Shore, desenvolvido pelo estúdio independente Ares Dragonis, tenta responder a essa pergunta com uma ambição que beira a insanidade de seus próprios personagens. 

Desenvolvimento: Ares Dragonis
Distribuição: Dragonis Games
Jogadores: 1 (local)
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: 14 anos (violência, medo)
Português: Interface e legendas
Plataformas: PC, PS5
Duração: 2 horas (campanha)/3 horas (100%)

O desespero de um pai 

Explore a misteriosa ilha.

O jogo nos coloca na pele de Andrew, um pescador que acorda em uma ilha remota e desconhecida após um naufrágio. O seu único objetivo imediato é encontrar a sua filha, Eleanor, que estava com ele e desapareceu, mas o que começa como uma busca desesperada de um pai por sua filha rapidamente se transforma em um pesadelo indescritível quando a ilha se revela muito mais do que um simples pedaço de terra no oceano. 

À medida que Andrew explora a praia e avança para o interior da ilha, ele descobre acampamentos abandonados, restos de rituais profanos e cartas deixadas por cultistas enlouquecidos ou por vítimas anteriores. Fica claro que a ilha é um ponto de convergência entre a nossa realidade e dimensões habitadas por divindades ancestrais.

O enredo não é entregue de forma mastigada. Ele exige que o jogador conecte os pontos através do cenário e das notas. Andrew começa a ser atormentado por visões de sua filha, que parecem guiá-lo em direção ao centro da ilha, mas também o arrastam cada vez mais para dentro de um vórtice de loucura. A narrativa brinca constantemente com a percepção do que é real e do que é delírio induzido pelas entidades.

Arquitetura da insanidade 

Ídolos profanos fazem presença por toda ilha.

Se há um pilar que sustenta The Shore com força hercúlea, é a sua direção de arte. O trabalho visual é, sem exageros, um dos mais fiéis e impressionantes já feitos baseados nos Mythos de Cthulhu. O jogo começa em uma praia cinzenta e opressiva, repleta de destroços e uma iluminação melancólica que estabelece o tom de isolamento imediatamente. No entanto, é quando a realidade começa a se dobrar e somos transportados para dimensões alienígenas e templos ciclópicos que o jogo brilha. 

Para acompanhar o peso visual, o design de som faz um trabalho competente em manter a tensão constante. A trilha sonora não é intrusiva, pois ela opera em frequências baixas, zumbidos quase imperceptíveis e sons guturais que parecem emanar das próprias paredes das cavernas. O som das ondas batendo violentamente contra as rochas na primeira metade do jogo cria um isolamento tátil, enquanto os corais e templos do vazio são acompanhados por corais dissonantes e sussurros perturbadores. 

Simulador de caminhada ou fuga do inevitável? 

As criaturas mitológicas do universo de H.P. Lovecraft fazem presença de forma fiel.

Analisando o loop de gameplay, The Shore sofre de uma crise de identidade que prejudica severamente a experiência geral. A primeira metade do jogo é estruturada como um autêntico walking simulator investigativo. Você caminha, explora, lê notas espalhadas pelo cenário, que expandem o lore e agradarão em cheio aos fãs da literatura original, e resolve quebra-cabeças. 

Os puzzles são, em sua maioria, elementares. Eles envolvem encontrar itens específicos e encaixá-los em altares ou alinhar símbolos. Não há um desafio intelectual profundo, o que é aceitável, pois mantém o ritmo da exploração fluido. A mecânica de sanidade, um clichê do gênero, está presente de forma sutil através de alucinações e distorções visuais quando Andrew olha muito tempo para certas monstruosidades, mas raramente afeta a jogabilidade de forma punitiva.

O erro mais crasso de design, no entanto, é a introdução de uma mecânica de combate na segunda metade do jogo. Em determinado momento, Andrew adquire um artefato alienígena que lhe permite disparar raios laser contra as criaturas. Essa decisão destrói instantaneamente a premissa de impotência cósmica, já que o grande diferencial do título prometia ser a imersão na fragilidade humana frente ao desconhecido, além de temática e narrativamente incoerente (você passa de um mero mortal a um feiticeiro espacial em minutos). 

Onde a praia termina 

The Shore é um jogo de contrastes extremos. É indiscutivelmente uma carta de amor fenomenal à estética e ao terror de H.P. Lovecraft. Para um jogo com raízes independentes, o polimento visual, o design das criaturas e a atmosfera opressiva das primeiras horas são conquistas notáveis que merecem respeito. Contudo, como produto interativo, as péssimas decisões de game design na transição para a ação, a física claudicante e um combate completamente deslocado puxam a experiência para o abismo. É um jogo que você suporta jogar por causa das vistas incríveis e da curiosidade mórbida de saber qual será a próxima entidade a aparecer na tela, e não porque a jogabilidade em si é recompensadora.

Cópia de PC cedida pelos produtores

Revisão: Júlio Pinheiro

The Shore

7

Nota Final

7.0/10

Prós

  • Fidelidade absoluta aos Mythos de Lovecraft
  • Direção de arte e escala das criaturas
  • Lore rico para exploração

Contras

  • Crise de identidade no gameplay
  • Combate frustrante e deslocado
  • Perseguições baseadas em tentativa e erro